ARQUIDIOCESE
de Pouso Alegre

Leia a homilia de Dom João Bosco na missa jubilar - por Pe. Andrey Nicioli


A Arquidiocese de Pouso Alegre se reuniu na noite desta quinta-feira, 29, para celebrar os 50 anos de sacerdócio de seu primeiro Arcebispo Emérito, Dom Ricardo Pedro Chaves Pinto Filho - Opraem. A Eucaristia foi celebrada na Catedral Metropolitana, onde compareceram centenas de pessoas para esse momento de louvor e agradecimento. Além do Arcebispo de Pouso Alegre, Dom José Luiz Majella Delgado - C.Ss.R, e do clero arquidiocesano, a Celebração Eucarística teve a presença de Dom Edson Oriolo (Bispo Auxiliar de Belo Horizonte), Dom José Lanza Neto (Bispo de Guaxupé - MG), Dom Ricardo Paglia (Bispo emérito de Pinheiro - MA); Dom João Bosco Oliver de Faria (Bispo emérito de Diamantina - MG); Dom Diamantino Prata de Carvalho (Bispo emérito de Campanha - MG) e Dom José Geraldo Oliveira do Vale (Bispo emérito de Guaxupé - MG). Dom Gil Antônio Moreira, Bispo de Juiz de Fora (MG) se fez representar na pessoa do padre Geraldo Luiz Alves Silva. Padres religiosos e de outras Dioceses também concelebraram. 

Na homilia, o Arcebispo emérito de Diamantina e amigo pessoal do jubilando, Dom João Bosco Óliver de Faria, ressaltou algumas virtudes de Dom Ricardo, como a serenidade, a paciência e a alegria. 

Leia a homilia completa:

“Muito me honra a oportunidade da palavra nesta noite. E fiquei divido se eu iria pelo caminho da Teologia ou se eu iria pelo caminho do coração. E penso que a celebração, que significa saborear o passado, viver o presente e planejar o futuro, tem que irna linha do coração. Anteontem à noite, lendo uma obra recente, publicada ainda neste ano (‘Tomados de assombro: as últimas homilias inéditas do cardeal Carlo Maria Martini’), ele tem uma conferência que me pareceu adequar-se perfeitamente à celebração desta noite. Um comentário a respeito da Primeira Carta de Pedro. E penso, querido irmão Dom Ricardo, que este início do capítulo quinto da Primeira Carta de Pedro, se fosse em 1990, seria o projeto do seu Episcopado. Hoje eu leria essa Carta como síntese dos seus anos dedicados ao Evangelho na sucessão apostólica. Escreve o autor da Carta de Pedro: ‘Exorto os anciãos que estão entre vocês, eu que também sou ancião como eles, testemunha dos sofrimentos de Cristo e participante da glória que vai ser revelada: Tomem conta do rebanho de Deus que lhes foi confiado, cuidando dele,  não por obrigação, mas de livre e boa vontade, como Deus quer; não por lucro vergonhoso, mas com generosidade; não como donos daqueles que lhes foram confiados, mas como modelos para o rebanho. Assim, quando o supremo Pastor aparecer, vocês vão receber a gloriosa coroa que não murcha’ (5,1-4).

Escrevia o cardeal Martini que o humor do pároco é o humor da comunidade, o tom da vida do pároco é o tom da vida da comunidade. E assim, o humor do bispo é o humor de todo o rebanho. Sempre admirei, querido dom Ricardo, umas tantas virtudes. Temos muitos anos de convivência, de passarmos alguns dias juntos. Sua serenidade; a sua capacidade de esperar a ‘poeira assentar’ diante das dificuldades da vida, sem atitudes precipitadas; seu bom humor. E aqui saúdo os familiares de Dom Ricardo que saborearam isso de muito perto. A mãezinha de dom Ricardo, dona Paula, ela viveu até os 107 anos. Quando ela estava na altura dos 103 anos faleceu seu filho Amador e os filhos acharam melhor não comunicar a ela. Dom Ricardo chega a belo horizonte e ela pergunta: ‘o que você veio fazer aqui?’. Ele já havia perguntado e sabia que dona Paula ignorava a morte do filho. ‘Mamãe, seu filho Amador veio a falecer ontem’. Dona Paula: ‘Eles ficam a esconder isso de mim. Eu não criei vocês para mim, eu criei vocês para Deus’.

E sua pessoa é a fina oferta de dona Paula ao altar de Deus. Criou todos os filhos para Deus, mas de maneira especial o filho querido Ricardo Pedro. E o humor de dona Paula calou fundo no seu coração. Quando dona Paula completou 100 anos, o convite trazia: ‘venha para a festa do meu primeiro centenário’. E ela entrou sozinha na igreja em Belo Horizonte, tinha ido ao salão de beleza, fez escova, a cabeleira prateada brilhando, óculos sem aro, caminhando tranquila e serena até o altar. Uma mulher, que tendo experimentado a viuvez por longos anos e criado todos os filhos, nunca perdeu a alegria de viver e soube manter uma confiança profunda na Providência Divina. Isso seguramente, Dom Ricardo, marcou seu temperamento, seu caráter e essa sua capacidade de uma alegria interior. Seu sorriso sempre presente em todas as circunstâncias. A alegria no mistério. Santo agostinho escreveu: ‘quem catequisa, faça com alegria’. Por amor a Deus, sem interesse. Sempre percebi isso na sua pessoa. Longe do seu coração interesse de honra, interesse de cargos, interesse de uma escalada na hierarquia da igreja em formas diversas. Missão recebida, missão assumida e nesta noite, podemos dizer, missão cumprida.

Desinteresse de bens, embora você tenha esse seu jeitinho imponente, você se conservou sempre pobre. Aquela cruz peitoral que ele usa, e que eu sempre invejei, é presente de um monge abade da Abadia da Bélgica Premonstatense, mas sempre com um desapego de coração. Dom Ricardo não tem nada, não tem terrenos. O teto que lhe cobre é da arquidiocese. Sempre desapegado, nunca pensou em si, sempre ajudar os outros, ajudar aqueles que precisavam. Nada tem e também nunca buscou o prestigio. Fiel, calado, tranquilo no cumprimento de sua missão. E outra coisa muito bonita na sua personalidade: a gratuidade. Fazer o bem pela alegria de fazer o bem, mas nada. Sem nada esperar em troca. E uma capacidade de perdão invejável, de não colecionar inimizades, de não colecionar inimizades e não arquivar ofensas, todas elas foram cobertas pela poeira da história, e isso explica um pouco da sua alegria permanente.

E se por acaso houve algum deslize, de alguma palavra não bem pensada, Dom Ricardo nunca levou isso em conta, nunca se queixou. Uma generosidade, uma capacidade de perdão própria do Pastor, que ama as ovelhas por serem ovelhas. Como vocês pais amam os filhos, e tudo vocês sabem perdoar e desculpar unicamente porque são seus filhos. Dom Ricardo conseguiu isso com facilidade muito grande, uma capacidade de perdão a tudo e a todos, e isso transparece profundamente na expressão da Carta de Pedro.

Sem tirar as pessoas dos cargos e das responsabilidades que tem, respeitando a liberdade de cada um, seu respeito profundo ao jeito de trabalhar de cada padre, permitindo que cada um deles desenvolvesse seus dons e qualidades, caminhando na direção do Santo Padre o Papa e de suas orientações pessoais para o rebanho de Pouso Alegre, mas respeitando a individualidade e liberdade de cada sacerdote.

E nisso dom Ricardo, essa noite é uma noite de louvor, de bem dizer a Deus por ter-lhe concedido a graça do sacerdócio e depois o ministério em Leopoldina, e o privilegio de nossa Pouso Alegre em tê-lo aqui como Pastor por esses 18 anos. E essa noite é um louvor e gratidão a Deus pela sua vida, pela sua pessoa, pelo seu jeitinho de ser. Eu não me preocupei em cantar suas realizações, mas seu coração, seu modo de ser, seu modo de agir. Quase que profeticamente se adiantando à pregação do Papa Francisco que pede a nós, bispos, essa bondade de coração para com todos, para com o povo, numa capacidade de acolhimento, numa capacidade de perdão.

Nessa altura vale ler novamente o inicio do quinto capítulo da Carta de Pedro: ‘‘Exorto os anciãos que estão entre vocês, eu que também sou ancião como eles, testemunha dos sofrimentos de Cristo’. E o cardeal Martini abre uma reflexão que não apenas daquele que presenciou o sofrimento de Cristo na cruz, mas aquele que testemunho com o próprio sofrimento o sofrimento de Cristo na cruz. E assim o bispo nas dificuldades e adversidades da vida, são oportunidades que nos são dadas para testemunhar o sacrifício e sofrimento de cristo na cruz. Recordo-me de um bispo novo, que uma vez se queixava comigo dos problemas que ele estava enfrentando na sua Arquidiocese. Eu respondi assim para ele: ‘é para isso que precisa bispo, é para isso que você está lá. SE não houvesse isso, não precisaria de você lá. E por isso e para isso que você esta lá’. 

E quando no sacerdócio, e não há ninguém que chegue aos cabelos brancos sem beber no cálice da ingratidão e da calúnia, se experimenta os sofrimentos de Cristo, é a oportunidade que temos de demonstrar nosso amor à Cristo, nosso amor à Igreja, nosso amor ao povo que nos é confiado, para mostrar-lhes os caminhos do céu e não perder a esperança apesar dos pesares. Penso, aliás, que no quadro que nosso país vive, a palavra mais importante de nossas pregações todas é transmitir esperança ao povo, que a história de nosso país está nas mãos de Deus e a que seu tempo Ele se fará presente. Quando era padre novo, se dizia que o padre era o homem da união, da comunhão e da reunião. Hoje, sobretudo, o padre é o homem da esperança. E nessa realidade do Brasil, sermos homens da esperança. E nesse sentido seu ministério foi sempre esse testemunho: o homem da esperança. Essa serenidade sua, sua alegria permanente, que Deus conduz a Igreja que é dele, pela qual seu Filho deu Sua vida, seu sangue, seu amor.

Fui testemunha do sofrimento de Cristo aos pés da cruz e no dia a dia da nossa vida. Continua a Carta de Pedro: ‘eu que também sou ancião como eles, testemunha dos sofrimentos de Cristo e participante da glória que vai ser revelada: Tomem conta do rebanho de Deus que lhes foi confiado, cuidando dele,  não por obrigação, mas de livre e boa vontade, como Deus quer; não por lucro vergonhoso, mas com generosidade; não como donos daqueles que lhes foram confiados, mas como modelos para o rebanho. Assim, quando o supremo Pastor aparecer, vocês vão receber a gloriosa coroa que não murcha'. 

Enquanto posso falar, representando toda nossa comunidade pousoalegrense, Dom Ricardo, muito agradecido, Deus o abençoe. lhe multiplique as alegrias, fortaleça  suas saúde e multiplique seus dias entre nós. Parabéns dom Ricardo”.

 

 

 

 

Publicado no dia 30/06/2017