Euangelion: do léxico pagão ao uso cristão

26 de agosto de 2025

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Caros leitores, desde o mês de outubro de 2023 temos escrito mensalmente artigos de caráter introdutório à Sagrada Escritura. Uma vez concluída, no mês passado, a proposta inicial de apresentar os pressupostos gerais do estudo sobre a Bíblia, dedicar-nos-emos a partir de agora à investigação teológica sobre os evangelhos. Boa jornada!

 

O termo euangelion se originou no contexto militarista da Grécia Antiga, para designar as notícias que o povo de uma determinada cidade recebia do mensageiro, a respeito dos bons resultados obtidos pelos guerreiros nas batalhas. Antes de mais nada é necessário trazer à consciência que a guerra é um elemento fundamental para a formação das grandes civilizações do mundo antigo, que permaneciam em constante embate mútuo para defender e conquistar territórios, dominar rotas comerciais, garantir a hegemonia política numa localidade e capturar escravos para o desenvolvimento de trabalhos domésticos. Muitos textos do Primeiro Testamento evidenciam, a partir da experiência do povo de Israel, esta centralidade do fenômeno da guerra na constituição cultural das civilizações antigas. Alguns exemplos são a guerra da reconquista de Canaã sob a liderança de Josué após o exílio no Egito (cf. Js 1,10-18; 2; 6–8); a guerra do rei Davi contra os filisteus, dos quais saiu o gigante Golias (cf. 1Sm 17; 18,6-16; 28–29; 2Sm 5, 17-25; 8); a guerra dos Macabeus, em que os israelitas  lutaram contra as investidas bélicas da Síria, guiados por Judas (cf. 1Mac 3,1-9; 42-60; 7).

No caso da Grécia, as campanhas militares expansionistas intensificaram-se a partir do século V a.C., quando as cidades-estado, chamadas de pólis, caracteristicamente independentes umas das outras, passaram a disputar entre si para garantir a liderança política e a supremacia econômica na região do Mar Mediterrâneo. Tanto as guerras de cidades gregas contra um inimigo estrageiro, como as Guerras Greco-Persas (499-449 a.C.), quanto as guerras entre as próprias cidades gregas, por exemplo, a Guerra do Peloponeso (431-404) entre Atenas e Esparta, eram eventos militares que exigiam o desenvolvimento de uma arte bélica estratégica e duravam meses ou até mesmo anos. Dadas as prolongadas condições temporais da guerra, composta por inúmeras e extensas batalhas, os gregos criaram a função militar do mensageiro, cuja tarefa era deslocar-se periodicamente de onde ocorriam os conflitos para comunicar a população de sua cidade a respeito dos resultados favoráveis obtidos pelos combatentes.

Essa figura que levava as boas notícias da guerra para os seus concidadãos tornou-se tão importante na Antiguidade, que os gregos consagraram a missão de comunicar a vitória bélica a um povo como própria de um herói. Segundo a mitologia, ao final da Batalha de Maratona, ocorrida em setembro de 490 a.C., durante a qual os gregos venceram os persas, o general Milcíades teria enviado o mensageiro Fidípides até a cidade de Atenas para anunciar a boa nova do triunfo grego e do fim da ameaça estrangeira: depois de correr cerca de 42 quilômetros e de comunicar aos atenienses o seu euangelion, o jovem soldado caiu morto; a lendária jornada do mensageiro Fidípides deu origem à prova atlética chamada de maratona, que apareceu nas olimpíadas modernas em 1896. Neste ambiente cultural grego, o substantivo εὐαγγέλιον com suas variações verbais, como a própria formação da palavra evangelho evidencia – eu (bom) e angelos (mensageiro), designa uma boa notícia, uma boa nova.

Além de ser o conteúdo alvissareiro de uma comunicação, o termo também era usado para nomear a gorjeta que era dada ao embaixador que portava a boa notícia, como se pode notar pela utilização da palavra euangelion na tradução grega da Bíblia hebraica para se referir à recompensa; ao receber a notícia da morte de Saul, por exemplo, Davi exclamou: “pois aquele que me disse que Saul estava morto era como se tivesse me trazido boas novas. Então, eu o agarrei e fui matá-lo em Ziclague, onde ele me permitiu dar a sua recompensa” / “ὅτι ὁ ἀπαγγείλας μοι ὅτι τέθνηκεν Σαουλ καὶ αὐτὸς ἦν ὡς εὐαγγελιζόμενος ἐνώπιόν μου καὶ κατέσχον αὐτὸν καὶ ἀπέκτεινα ἐν Σεκελακ ᾧ ἔδει με δοῦναι εὐαγγέλια” (2Sm 4,10). Dessa conjuntura militar fortemente marcada pela violência, os romanos absorveram o significado do termo euangelion, passando a utilizá-lo não somente com referência às notícias bem-sucedidas sobre as guerras, mas também em relação a proclamações políticas solenes como o nascimento ou a chegada do augusto imperador numa cidade.

Os esclarecimentos sobre a conotação político-militar da palavra euangelion, já em seu estágio romanizado, podem ser encontrados na obra Guerras Judaicas, escrita pelo historiador judeu Flávio Josefo (37-100), entre 75 e 79 d.C.. O livro em questão conta as revoltas que se desenrolaram da parte dos judeus contra os abusos econômico-religiosos do império de Roma, entre os anos 66 e 70, e que culminaram com a invasão de Jerusalém, a destruição do Templo que fora concluído sob o governo de Zorobabel, em 516 a.C., e ampliado por Herodes, a partir de 20 a.C., e a dispersão do povo judeu por diferentes partes do mundo (a Diáspora Judaica). As narrativas de Josefo testemunham que, mesmo depois de Jesus Cristo, o termo euangelion continuou a ser utilizado no ambiente pagão da guerra e do poder político para denominar a “boa nova” da destruição, da morte, da subjugação alheia, do vilipêndio e da luta pela supremacia étnica. A palavra grega euangelion foi usada pelo historiador:

 

  • para falar sobre o início da guerra que foi comunicada ao procurador romano da Judeia, Géssio Floro (“Para Floro, a boa notícia era tremenda, e determinado a acender a guerra, não respondeu aos embaixadores” / “Φλώρῳ µὲν οὖν δεινὸν εὐαγγέλιον ἦν, καὶ προῃρηµένος ἐξάπτειν τὸν πόλεµον οὐδὲν ἀπεκρίνατο τοῖς πρεσβευταῖς” – Guerras Judaicas II, 420);
  • para contar que Vespasiano (9-79 d.C.) tinha se tornado reinante no leste do império romano (“Uma vez que Vespasiano chegou à Alexandria, as boas notícias chegaram de Roma e também regozijantes às embaixadas de toda a sua terra habitável” / “Εἰς δὲτὴν Ἀλεξάνδρειαν ἀφιγµένῳ τῷ Οὐεσπασιανῷ τὰ ἀπὸ τῆς Ῥώµης εὐαγγέλια ἧκε καὶ πρέσβεις ἐκ πάσης τῆς ἰδίας οἰκουµένης συνηδόµενοι” – Guerras Judaicas IV, 656);
  • e para proclamar os feitos bélicos de Tito (39-81 d.C.), filho de Vespasiano (“Então Tito enviou algum dos seus cavaleiros a seu pai, e anunciou o feito” / “Τίτος δ᾽ ἐκπέµψας τινὰ τῶν ἱππέων εὐαγγελίζεται τῷ πατρὶ τὸ ἔργον” – Guerras Judaicas III, 503).

 

Como se pode notar, as comunidades que transmitiram a mensagem de Jesus e a compilaram nos textos do Segundo Testamento, durante o século I, absorveram o termo euangelion do léxico pagão grego-romano, subvertendo sua acepção originária político-militar. A cristianização semântica do euangelion da guerra e do poder imperial é, simultaneamente, uma novidade e uma crítica, pois a morte, a violência e a dominação não podem consolidar-se como “boas notícias” a serem transmitidas com alegria e entusiasmo. Contrariando a lógica do euangelion do egoísmo, que anuncia a salvação de um povo em detrimento de outro e a perversidade da força que é exercida a qualquer custo para a prosperidade do monarca através do massacre dos pobres, o evangelho cristão comunica a universalidade da salvação em Jesus Cristo (cf. Mc 16,15), que se destina preferencialmente aos marginalizados (cf. Lc 4,18).

Imagem: JillWellington por Pixabay