
#Reflexão: 26° domingo do Tempo Comum (28 de Setembro)
A Igreja celebra o 26° domingo do Tempo Comum, neste domingo (28). Reflita e reze com a sua liturgia.
Leituras:
1ª Leitura: Am 6,1a.4-7
Salmo: 145(146),7.8-9a.9bc-10 (R. 1)
2ª Leitura: 1Tm 6,11-16
Evangelho: Lc 16,19-31
LÁZARO E O RICO SEM NOME
A parábola deste domingo é provocante e profundamente questionadora. É importante dizer, primeiramente que Jesus não tem intenção de alimentar nenhuma rivalidade entre ricos e pobres, mas alertar a todos sobre como conduzir a vida neste mundo: nossa eternidade começa no hoje de nossa vida, com as pessoas que convivemos, como vivemos e como conduzimos nossa história.
Jesus conta a parábola tendo em mente os fariseus que se manifestaram logo após a parábola de domingo passado conforme o próprio Lucas assinala: “Os fariseus amigos do dinheiro ouviram tudo isso e zombavam dele” (Lc 16,14). No entanto, este ensinamento serve para todos os discípulos. Os fariseus eram os religiosos da época que se sentiam já salvos segundo o modo como praticavam a religião deles. Eles eram mestres da lei e das Escrituras, mas pobres na relação com o próximo. Jesus tenta sacudi-los contando a parábola deste domingo.
Já no início da parábola temos os dois personagens principais que são descritos com muita particularidade. São tão diferentes em vida e aparentemente tão distantes, apesar de estarem tão próximos. O primeiro personagem é “um homem rico”, ele não tem nome, mas possui uma vida que, talvez, era o sonho de todos. Esse sujeito se vestia com as melhores roupas para época, segundo texto original eram de dois tipos: a púrpura era uma cor que se conseguia com pigmentos caríssimos que eram trazidos de muito longe, só os mais ricos usavam tecidos com esta cor e em um período da história somente os imperadores tinham direito de usá-la; o linho era um tecido importado do Egito. O texto dá a entender que essas eram as suas roupas diárias. Era uma pessoa que se dava ao luxo de banquetear todos os dias. Este modo de vida tinha se tornado sua identidade, não tinha nome, desconhecido de todos, não conhecia ninguém inclusive Deus. Nada se diz sobre a origem de sua riqueza ou se era um pecador, mas que o seu tempo era usado somente para proveito próprio e para as suas extravagantes necessidades pessoais. O seu mundo era vivido com intensidade dentro de sua casa em festas diárias. Ele era o centro de tudo. Nada se diz de sua família (filhos e esposa) e outras pessoas (empregados amigos).
Jesus prossegue com a parábola dizendo que também naquele lugar havia um homem, este possuía um nome: Lázaro. Nas parábolas de Jesus, normalmente, os personagens não possuem um nome (um pai e dois filhos, pescador, agricultor, dona de casa etc.), mas esta parábola é a única que sabemos o nome de um personagem. Lázaro é descrito como pobre, mas mais do que isto, era um doente que estava na porta da casa do rico. Este pobre doente nada pede, mas procurava matar a fome com o resto que caia da mesa do rico e era jogado fora. Ele nada exigia, mas somente o mínimo para sobreviver; não cobrava grandes soluções, mas apenas o resto desperdiçado da mesa do rico: bolinhas de pão usadas para limpar a boca que eram jogadas aos cães. E assim levava sua vida tendo somente o consolo dos cães que lhe lambiam as feridas. A sua única riqueza, no entanto, era ter um nome: “Lázaro” (“Deus ajuda” em hebraico).
Dois extremos que conviviam tão próximos. O rico, certamente, entrava e saia de sua casa, mas não enxergava o pobre Lázaro. Para o rico sem nome, o pobre doente era como se não existisse, um animal. Vidas tão distantes, mas que tiveram o mesmo destino comum: a morte. Em vida, um se encontrava na melhor situação e o outro no extremo oposto. Após a morte, Lázaro é levado ao céu por anjos, máxima honra que um judeu poderia ter: estar ao lado de Abraão depois da morte. Jesus dá a entender que nem passou pela mansão dos mortos, o “Hades”. Já o rico sem nome é somente “sepultado”, nada mais.
Jesus continua a parábola narrando às situações opostas em que se encontravam depois desta vida. Novamente, aquele que era rico em vida, após a morte se encontrava em uma realidade de extremo sofrimento. Envolvido pela dor, ele levanta os olhos e suplica a Abraão. Em muitos casos, para aqueles que estão neste mundo vivendo uma vida longe de tudo e todos, o único remédio para abrir os olhos é o sofrimento. Em um lugar inferior (inferno?), ele vê Abraão e Lázaro. Neste momento da parábola, descobrimos que o ex-rico sem nome era um religioso, pois conhecia Abraão e também Lázaro. Antes em vida não tinha visto Lázaro e somente o enxerga após sentir “na pele” o que o próprio Lázaro viveu em vida; quando estava vivo tinha seus olhos para as coisas materiais, agora “levanta seus olhos” como um gesto de prece. O rico no lugar de tormentos se põe a mendigar; pede como um fiel piedoso: “Pai Abraão, compadece-se de mim…!”. Mas, para ele já era muito tarde: nada podia ser modificado. Antes o rico opulento era orgulho, agora mendiga “migalhas” para si: uma gota d’água. No entanto, na continua pedindo, mas manda Abraão fazer algo: “manda Lázaro molhar…”.
O rico sem nome, em vida, tinha criado uma grande distância entre ele e o pobre Lázaro, não obstante que ele estava à porta de sua casa. Essa distância se tornou um abismo na eternidade. Ele teve a chance de mudar de vida, de abrir seus olhos, de dividir um pouco de tudo que tinha, mas tudo foi usado de modo egoísta. Sabemos que todos nós temos direito ao necessário para a nossa vida, mas aquilo que é excesso (riqueza) é algo que pertence (um direito) aos pobres.
O ex-rico sem nome no lugar de tormento tenta mudar algo, exigir alguma coisa, implorar pelo mínimo, mas nada se pode mudar quando a “jogo da vida” termina. O nosso destino sobre o nosso futuro é jogado enquanto temos tempo e possibilidade nesta vida. O rico miserável não tinha percebido que Lázaro não era um peso, um problema, um “descuido” de Deus, mas a sua possibilidade de salvação colocada por Deus próximo ele. Na língua original, Jesus diz que Lázaro “tinha sido colocado a porta do rico” (por quem? Por Deus?). Ao desprezar e ao ser indiferente para com Lázaro, ele rejeitou a sua própria salvação. O seu pecado foi não ter feito o mínimo de bem para um miserável.
Abraão chama o rico atormentado no lugar de tormentos de “filho”, mas esclarece que ele teve oportunidade de mudar tudo em vida e que naquela situação em que se encontrava, nem Abraão, depois de sua morte, pode mudar algo. Ele nada pode fazer estando no céu em relação àqueles que estão no inferno. O destino do rico sem nome foi traçado em vida e nada pode ser modificado.
Na profundeza do abismo, o rico mendicante se lembra de seus familiares e percebe que terão o mesmo destino que ele. Implora que Abraão faça algo para que eles não tenham o mesmo destino. Mas, para aqueles que estão em vida – esclarece Abraão – tudo pode ser diferente e eles já possuem os meios para se salvarem. Lembra Pai Abraão: “Eles têm Moisés e os profetas”. “Moisés” representa para os judeus a Lei de Deus, ao dizer isto, Jesus (é Ele quem está contado a parábola) alerta que seguir os Mandamentos de Deus é estar na estrada de salvação; “os profetas” são aqueles que emprestam suas vozes para Deus alertar o povo sobre as falhas em relação à vontade divina como Amós na primeira leitura que retrata uma realidade idêntica do rico na parábola. É fundamental, assim conhecer a Lei, mas também escutar os profetas.
Mas, o rico conhece muito bem seus irmãos ainda vivos e sabe que eles têm a mesma vida que ele tinha: não dão importância nem a lei e muito menos à voz dos profetas. Vivem de forma egoísta e completamente indiferentes em relação ao próximo, principalmente aos mais necessitados. Tanto a Lei (torah) e os profetas afirmam e denunciam sobre a necessidade de acudir os pobres e necessitados. Ao final da parábola, Abraão (Jesus) afirma que se alguém não dá valor aos Mandamentos (Moisés) e àqueles que procuram atualizá-los (os profetas), nem mesmo um milagre (alguém retornar da morte) vai tocar seus corações.
O “inferno” não são os sofrimentos como os desta vida, mas uma eternidade sem ninguém. Viver egoistamente neste mundo sem se importar com o próximo e com Deus é uma amostra daquilo que será a eternidade. As dores neste mundo atingem o corpo e fazem mal àqueles que estão vivendo no sofrimento, mas o verdadeiro inferno será uma eternidade no vazio, sem ninguém, sem uma gota de alívio para um sofrimento que atinge a alma da pessoa.
Jesus alerta com esta parábola sobre o risco das pessoas que se fecham em suas riquezas e não mais enxergam a necessidade do próximo. As barreiras levantadas que impedem enxergar os miseráveis deste mundo acabam que encerrando as pessoas em um egoísmo que conduz a uma eternidade sem ninguém. A salvação se conquista obervando as Leis e ouvido os profetas, mas principalmente colocando em prática tudo através de nossa caridade. Para Jesus, os necessitados e os pobres são Sacramento de salvação como Ele mesmo diz: “Estive com fome e me destes de comer…”. O rico sem nome na parábola não foi para o inferno porque era rico, mas porque perdeu a capacidade de ver o próximo e de fazer algo para ajudar os mais necessitados. A salvação estava muito próxima dele, na soleira de sua porta, mas ele fechado em seu mundo de prazeres e desperdício não conseguia mais ver ninguém. A riqueza para ele se tornou um bem somente para este mundo, mas um mal para sua eternidade.

