
Páscoa: evento fundante e luzeiro reluzente dos evangelhos
Sendo textos que não se confundem com crônicas jornalísticas, interessadas em descrever eventos segundo uma ótica estritamente histórica, os evangelhos são produções teológicas que, fundamentadas nos fatos, interpretam os acontecimentos referentes à vida e à missão de Jesus de Nazaré à luz da fé, e buscam divulgar uma mensagem que contém poder para salvar aquele que a acolhe: “Eu vim como luz para o mundo, para que não permaneça nas trevas todo aquele que acredita em mim. E se alguém ouvir as minhas palavras e não as guardar, eu não o julgarei, porque não vim para condenar o mundo. Quem me rejeita e não acolhe as minhas palavras, já tem quem vai julgá-lo: a palavra que eu falei é que haverá de julgá-lo no último dia” (Jo 12,46-48).
Esses textos teológicos não foram escritos simultaneamente aos fatos que neles estão narrados, constituindo uma literatura tardia e profundamente amadurecida no que diz respeito à interpretação daquilo tudo que tratam. Caso fossem redigidos por um autor individual no mesmo momento em que os acontecimentos descritos estivessem ocorrendo, os evangelhos estariam carregados das impressões pessoais de seus escritores, e, portanto, seriam afetados por sentimentos exagerados e compreensões reduzidas que ofuscariam a grandeza da mensagem salvífica. A distância de pelo menos três décadas que existe entre os eventos terrenos vividos por Jesus (anos 10 a 30 d.C.) e a redação dos evangelhos (anos 60 a 100 d.C.), garante uma maior maturidade de fé no processo de compreensão teológica e escrita dos fatos por parte das comunidades cristãs primitivas.
Escritos a partir da segunda metade do século I, os evangelhos são produções pós-pascais, ou seja, fundamentam-se e são esclarecidos pelo mistério central da fé cristã: “Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras. Foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras” (1Cor 15,3-4); a base e a luz dos textos sobre a vida e a obra de Jesus é essa verdade fundamental do cristianismo, chamada de querigma ( do grego, κήρυγμα significa anúncio principal). Dessa forma, todas as narrativas evangélicas foram construídas sobre a verdade da ressurreição de Jesus e, ao mesmo tempo, são iluminadas por ela. Noutras palavras, cada acontecimento descrito pelas comunidades que redigiram os quatro evangelhos é sempre considerado tendo como referência a páscoa, que garante sua mais profunda e verdadeira compreensão teológica. Os textos encontram-se envolvidos pela luz pascal!
Certamente, caminhar pelo escuro não é uma tarefa fácil, especialmente quando o caminho é desconhecido. Sustos, tropeços e até quedas fazem parte da trajetória daquele que anda sem o auxílio de uma luz potente e duradoura. A angústia de quem se move na escuridão é tão atordoante quanto o passeio de um louco durante o seu recreio hospitalar. Mas tudo muda quando se ergue o luzeiro sobre a terra (cf. Gn 1,17), quando a luz é vista por aquele que andava nas trevas (cf. Is 9), quando se acende a lâmpada sobre a luminária (cf. Mt 5,15), quando a luz do mundo se mostra (cf. Jo 8,12). A páscoa é este grande luzeiro que rompe com a noite da ignorância dos apóstolos e discípulos sobre Jesus e sua missão salvífica no mundo: “já faz tanto tempo que estou no meio de vocês, e você ainda não me conhece, Filipe?” (Jo 14,9).
De fato, enquanto conviviam com o mestre, trilhando seus passos na Palestina, testemunhando seus milagres e ouvindo suas palavras, os apóstolos se assustavam, tropeçavam e caíam como crianças na escuridão: andavam, mas não entendiam a direção para onde iam; viam, mas não enxergavam os sinais; ouviam, mas não compreendiam a mensagem de Cristo. Por vezes, o Senhor chamou-lhes a atenção: “sois sem inteligência e lentos de coração para acreditar” (Lc 24,25)! No entanto, tudo o que viram da parte de Jesus, como se olhassem “o reflexo de um espelho e de maneira confusa” (1Cor 13,12), tornou-se claro e evidente com a ressurreição. Os seus seguidores puderam realizar uma leitura retroativa de tudo o que havia acontecido à luz da páscoa: a força iluminadora do evento pascal de Cristo abriu os olhos e a consciência de fé deles (cf. Lc 24,31) para compreenderem quem era Jesus e qual a sua missão entre os homens.
Portanto, é preciso reafirmar que as narrativas sobre a vida de Jesus não são reportagens que contam fatos para oferecer ao leitor informações jornalísticas sobre o Filho de Deus. Os evangelhos são textos teológicos, iluminados pela ressurreição, ou seja, escritos com a intenção de passar uma mensagem salvífica. Por isso, os quatro evangelhos canônicos, ou seja, aqueles que são considerados pela Igreja como textos inspirados por Deus para a salvação do mundo e que estão presente na Bíblia cristã, não foram redigidos simultaneamente aos fatos narrados por eles, mas após a ressurreição de Jesus: enquanto Marcos escreveu entre 60 e 65 d.C., Lucas e Mateus escreveram entre 70 e 80 d.C., e João escreveu entre 90 e 100 d.C.. Cada episódio evangélico está baseado e iluminado pela certeza “de que Cristo, ressuscitado dos mortos, não morre mais; a morte já não tem domínio sobre ele” (Rm 6,9). Os evangelistas não escreveram como se caminhassem pela noite, sem a compreensão teológica do que seguiam, viam e ouviam.
Os evangelhos são frutos de uma longa caminhada eclesial e de maturação teológica, isto é, de compreensão, na fé, da pessoa e da obra de Jesus. Eles respondem às perguntas teológicas sobre Jesus e seu apostolado sempre com a exclamação pascal de Rm 8,11: “e se o Espírito daquele que ressuscitou Jesus dos mortos mora em vocês, ele que ressuscitou Cristo dos mortos dará a vida também aos corpos mortais de vocês”. Logo, quem é o menino que nasceu na manjedoura de Belém? Aquele que ressuscitou dos mortos! Quem é o jovem que pregou e realizou milagres pela Galileia? Aquele que ressuscitou dos mortos! Quem morreu na cruz em Jerusalém? Aquele que ressuscitou dos mortos! Ao ler os textos bíblicos, especialmente os do Segundo Testamento, é preciso recordar deste responsório que deve se intercalar com cada versículo, como numa ladainha pascal que reforça no texto bíblico a presença do Senhor ressuscitado.
Assim, a páscoa é o evento fundante e o luzeiro reluzente que, ao irromper na história humana como a coluna de fogo que alumiava o caminho dos hebreus nas noites do deserto (cf. Ex 13,21), baseia e ilumina tudo o que a precedeu, inclusive os fatos do Primeiro Testamento, e aquilo que a sucedeu, a vida e a história atuais. A ressurreição de Cristo é a tinta da pena com a qual as comunidades evangelizadas pelo querigma apostólico escreveram seus textos, e deve ser a lente através da qual a comunidade cristã os lê e os interpreta. Cada evangelho, escrito a seu tempo, destinado a uma determinada comunidade e portador de uma visão teológica específica sobre Jesus e sobre o seu ministério salvífico, é, na verdade, um testemunho vivo daquela estrondosa e assustadora novidade querigmática inaugurada pelo cristianismo: a páscoa do Filho de Deus, “o Vivente” (Ap 1,18).
Imagem de Dimitris Vetsikas por Pixabay

