Informações apócrifas acolhidas pela Tradição

20 de fevereiro de 2026

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Enquanto os evangelhos canônicos (Marcos, Mateus, Lucas e João) reúnem os fundamentos teológicos que formam, em comunhão com a Tradição da Igreja e com o seu Sagrado Magistério, a ortodoxia da fé em Cristo, os evangelhos apócrifos são frutos da religiosidade popular que se desenvolveu nas comunidades cristãs primitivas. O conteúdo extraoficial presente em inúmeros desses escritos dos primeiros séculos sobre a vida e a missão de Jesus não se trata, necessariamente, de produções heréticas, elaboradas de forma intencional para induzir a erros doutrinários e morais aqueles que se convertiam ao cristianismo; pelo contrário, a grande maioria dos evangelhos apócrifos nasceu da santa e válida curiosidade existente entre o povo de se aproximar dos mistérios a respeito de Jesus. Apócrifo não é sinônimo de herético!

Como todo mistério comporta uma dimensão de escondimento, ou seja, revela-se mas não se deixa esgotar no coração e na razão de quem o acolhe, é atingido, porém jamais possuído, esse encobrimento é o aspecto que permite o desenvolvimento da imaginação e da criatividade do povo de Deus no desejo por acessar o próprio mistério. Nessa busca para mergulhar nos mistérios de Cristo, os primeiros cristãos registraram muitas histórias, reais ou fabulosas, contando sobre coisas que foram desconsideradas pelos evangelhos canônicos e que, embora não façam falta à missão salvífica do texto bíblico, colaboraram para a vivência da fé através do desenvolvimento de uma religiosidade popular ortodoxa; isto é, que não discorda das verdades que sustentam o credo cristão.

É bem verdade, no entanto, que essa ânsia por compreender e viver o mistério de Cristo conheceu exageros: no sincrético processo de elaboração das narrativas sobre a própria fé, muitas comunidades acabaram assimilando ideias filosóficas e religiosas que divergiram dos ensinamentos de Jesus, produzindo uma literatura apócrifa heterodoxa. Cercados pelo universo cultural grego-romano, persa, egípcio etc, grupos cristãos viram-se influenciados por correntes de pensamento, costumes morais e crenças pagãs que foram arbitrariamente incorporados por eles aos testemunhos orais e escritos sobre o mistério cristão. Tendo sido estabelecida essa importante ressalva a respeito do conteúdo propriamente herético presente nalguns textos apócrifos, é interessante notar como os evangelhos apócrifos, que concordam com a ortodoxia da fé, colaboraram com a Tradição da Igreja no desenvolvimento de alguns aspectos de sua experiência de fé.

Os evangelhos apócrifos são bem aproveitados quando ajudam a compreender melhor realidades históricas, culturais etc dos textos canônicos, uma vez que, não sendo divinamente inspirados, nunca possuem valor em si mesmo (a não ser enquanto literatura universal), tanto para o crescimento na fé quanto para o desenvolvimento da ciência bíblico-teológica. Dessa forma, a Tradição acolheu informações que contribuem para elucidar o mistério de Cristo e dos santos, em comunhão com Ele. Um exemplo muito interessante de evangelho apócrifo que serviu à Tradição nalgumas dimensões é o “Protoevangelho de Tiago”, escrito em grego na primeira metade do século II, provavelmente. Também chamado de “Evangelho da Infância” ou “Natividade de Maria”, o texto narra os eventos relativos ao nascimento, à infância e ao casamento de Maria, com o objetivo de enaltecer a santidade e a virgindade da mãe de Jesus, através de relatos que não aparecem nos textos canônicos.

Desse apócrifo, os cristãos recolheram informações relevantes, como: os nomes dos pais de Maria, Joaquim e Ana (cf. cap. 1 e 2), cuja memória litúrgica é celebrada em 26 de julho; o relato da apresentação de Maria no Templo de Jerusalém (cf. cap. 7), que deu origem à festa litúrgica do dia 21 de novembro; a imagem do bastão florido na iconografia de São José, como símbolo de sua eleição para esposo de Maria (cf. cap. 9); a cena de Maria sobre uma asna a caminho de Belém, onde nasceu Jesus (cf. cap. 18); a informação de que o parto de Jesus ocorreu numa gruta (cf. cap. 19); a crença na maternidade virginal de Maria (cf. cap. 20), que foi citada pelo concílio de Constantinopla, em 553, e proclamada enquanto dogma em 649, no Concílio de Latrão.

Ainda sobre a tenra idade de Jesus, o apócrifo “Evangelho Armênio da Infância”, escrito entre os séculos IV e VI, em siríaco, menciona os nomes e origens dos magos que visitaram e presentearam o Menino Deus. Tratam-se de três reis que eram irmãos e que foram até Belém acompanhados por doze mil homens, quatro mil com cada um deles: “Melquior, que reinava sobre os persas; Baltasar, que era rei dos indianos, e Gaspar, que dominava no país dos árabes” (cf. cap. 5), deram ao Salvador ouro, incenso e mirra, presentes que o primeiro Adão teria guardado numa caverna em vista do nascimento do novo e definitivo Adão. Outro exemplo é a devoção a São José como patrono da boa morte, que encontrou referências importantes noutro apócrifo, a “História de José, o carpinteiro”: segundo esse texto egípcio, redigido entre os séculos IV e VII, José morreu na companhia de Maria e de Jesus, que estava sentado à sua cabeceira, em oração, com as mãos sobre suas têmporas.

A respeito da paixão de Cristo, o “Evangelho de Nicodemos”, também conhecido como “Memórias de Pilatos”, datado entre os séculos III-V e escrito em grego, traz uma personagem que, inexistente nos textos canônicos, tornou-se um sinal de piedosa importância na oração da via-sacra. Trata-se de Berenice, que será chamada mais tarde de Verônica, uma mulher que durante o julgamento de Jesus por Pilatos testemunhou o seguinte: “encontrando-me doente com hemorragia, toquei a extremidade de seu manto e a hemorragia que eu vinha tendo por doze anos consecutivos, parou”; segundo a tradição, Verônica teria usado o manto com o qual fora curada para secar o rosto ensanguentado de Jesus na subida para o calvário. Além disso, o “Evangelho de Nicodemos”, graças à sua narrativa sobre a descida aos infernos, influenciou a crença a respeito da visita de Jesus à mansão dos mortos para salvar as almas dos justos da Primeira Aliança, que aguardavam a redenção que o Messias traria a Israel.

Quanto ao martírio de São Pedro, é o texto apócrifo “Atos de Pedro”, redigido no século II, em grego, que atesta sua crucifixão de cabeça para baixo no circo de Nero, entre 64 e 67 d.C.: condenado pelo rei Herodes Agripa I, Pedro teria pedido aos soldados que o crucificassem de ponta-cabeça por não considerar-se digno de morrer na mesma posição em que Jesus salvou a humanidade. Esses exemplos de apropriação de alguns dos conteúdos apócrifos pela Igreja mostra como os textos produzidos pela religiosidade popular, nos primeiros séculos, podem colaborar como complemento para a compreensão dos evangelhos canônicos. Portanto, uma leitura consciente e responsável da literatura apócrifa, especialmente dos livros que falam de Jesus e, em função Dele, de outros personagens, é importante e necessária. Conforme demonstrado através dos casos citados, há muito dos evangelhos apócrifos na Tradição da Igreja, colaborando para o aprofundamento da fé contida nos livros canônicos.

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