Evangelho’s: uníssono no conteúdo, polifônicos na forma

7 de março de 2026

A multiplicidade de textos relativos à pessoa e à obra de Cristo, elaborados pelas comunidades cristãs primitivas, levou não só à classificação dos livros em canônicos e apócrifos, mas também suscitou questionamentos sobre o número dos escritos que foram reconhecidos como inspirados por Deus para a salvação humana. Durante os dois primeiros séculos do cristianismo, nos quais ocorreu a formação do cânon bíblico do Segundo Testamento, a atuação de Santo Irineu (130-202) como bispo de Lião garantiu à Igreja o primeiro testemunho sobre a quádrupla forma do único Evangelho de Cristo. Ao escrever a obra Adversus Haereses (Contra as Heresias), cujo objetivo era refutar as heresias que surgiram na região da Gália, mas não somente nela, Irineu desenvolveu uma legítima teologia bíblica. No livro III de sua obra, o bispo defendeu o que ficou conhecido como Evangelho quadriforme, ou seja, ele afirmou que há um só Evangelho e que ele foi registrado de quatro maneiras específicas (cf. vol. 4, coleção Patrística, Paulus).
Recorrendo às Escrituras para combater as heresias que ameaçavam a ortodoxia da fé, Irineu afirmou que a verdade da doutrina cristã nasceu do “poder do Evangelho” (ἐξουσία εὐαγγελίου), que é a autorização concedida por Jesus aos apóstolos para anunciar a sua mensagem: “toda a autoridade me foi dada no céu e sobre a terra. Vão, portanto, e façam que todas as nações se tornem discípulas, batizando-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, e ensinando-as a observar tudo o que lhes ordenei” (Mt 28,18-20). Somente os quatro evangelhos escritos sob a aprovação apostólica são divinamente inspirados, porque contêm o único Evangelho, que Irineu identifica com a própria mensagem de Jesus. Portanto, existe um único Evangelho no que diz respeito ao conteúdo, porque todos os quatro livros tratam, cada qual a seu modo, de transmitir a verdade anunciada por Cristo através de seus gestos e de suas palavras, já que “há um só Senhor, uma só fé, um só Batismo” (Ef 4,5); porém, o Evangelho é quadriforme, pois a mensagem indivisível é dita de maneiras diferentes e para leitores específicos: “muitas vezes e de muitos modos, Deus falou no passado aos nossos pais pelos profetas” (Hb 1,1).
Essa dupla dimensão, que caracteriza a natureza dos evangelhos canônicos, é semelhante à dinâmica que existe na apresentação de uma peça musical por um coral formado de vários naipes: apesar de cantar uma mesma letra, os coralistas executam melodias diferentes que se sobrepõem umas às outras, criando a polifonia. Unidas pelo conteúdo lido, as vozes dos sopranos, contraltos, tenores e baixos se separam para cantar melodias específicas, dando formas sonoras diferentes às mesmas palavras e mantendo a necessária harmonia para que o canto seja belo. De igual maneira, os quatro evangelistas leram unissonamente a mensagem salvífica de Cristo, porque tudo aquilo que Ele fez e disse é indivisível; porém, cada evangelista “cantou” o que viu e ouviu segundo uma melodia específica, criando uma polifonia que transmite a verdade na diversidade. Quem garante a perfeita harmonia melódica entre o soprano Lucas, o contralto Mateus, o baixo Marcos e o tenor João é o próprio Espírito Santo, que rege o coro escriturístico com a batuta da inspiração divina.
Por isso, o Evangelho de Jesus foi consignado em quatro livros que são considerados verdadeiramente autênticos, pois foram escritos segundo a ação do Espírito Santo e de acordo com o poder dado pelo Senhor aos apóstolos: “constituiu doze para que ficassem com ele (…) e para que tivessem autoridade” (Mc 3,14-15); “chamando seus doze discípulos, Jesus deu a eles autoridade” (Mt 10,1). Dessa forma, o bispo de Lião deixou claro que, já nos meados do século II, o cânon bíblico dos evangelhos estava bem definido, atestando que a Igreja reconheceu os textos redigidos sob a autoridade de Mateus e João, apóstolos diretamente chamados por Jesus, e de Marcos e Lucas, discípulos de Pedro e Paulo, respectivamente, como divinamente revelados. Segundo Irineu, cuja obra documentou o pensamento das comunidades primitivas sobre os livros canônicos, há quatro evangelhos, nem mais nem menos que isso.
Santo Irineu justificou o número dos evangelhos canônicos recorrendo a analogias ligadas ao mundo natural e à própria Sagrada Escritura, sendo o primeiro escritor da literatura cristã a vincular o Evangelho quadriforme com os quatro seres vivos presentes na narrativa de Ez 1,4-10 e citados, também, em Ap 4,6-8: “o rosto deles era parecido com o rosto de um homem. Do lado direito tinham aparência de leão, e do lado esquerdo tinham aparência de touro. Os quatro tinham também aparência de águia” (Ez 1,10); “o primeiro vivente parece um leão; o segundo parece um touro; o terceiro tem rosto como se fosse humano; o quarto parece uma águia voando” (Ap 4,7). É fato que, com isso, o bispo não tinha o interesse de elaborar uma teologia do significado de cada ser celestial e de sua relação com os conteúdos dos evangelhos, uma vez que o seu intuito era unicamente justificar o número dos textos canônicos, reprovando qualquer subtração ou adição em relação aos quatro textos.
Embora, no início do século V, em sua obra De consensu evangelistarum, a respeito da harmonia dos evangelhos, Santo Agostinho (354-430) tenha proposto uma equivalência entre os seres viventes e os evangelhos diferente da que fora estabelecida por Irineu, é a descrição feita por São Jerônimo (347-420) que consolidou os seres da visão de Ezequiel como símbolos dos evangelhos, no prefácio do seu livro Commentariorum in Matthaeum, em que explica o texto de Mateus. Ao falar do tetramorfo, isto é, da arte por meio da qual a iconografia cristã representa os quatro evangelistas segundo os elementos presentes na visão de Ezequiel, Jerônimo disse: “a primeira face, de homem, significa Mateus, que começou a escrever como que partindo do homem: ‘livro da origem de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão’ (Mt 1,1); a segunda significa Marcos, no qual se ouve a voz do leão que ruge no deserto: ‘voz que clama no deserto: preparai o caminho do Senhor, endireitai suas veredas’ (Mc 1,3); a terceira, de touro, prefigura o evangelista Lucas, que começou o seu relato pelo sacerdote Zacarias (cf. Lc 1,5-25); a quarta indica o evangelista João, que, tomando as asas da águia e apressando-se em galgar as alturas discorre acerca do Verbo de Deus (cf. Jo 1,1-18)” (cf. vol. 44, coleção Patrística, Paulus).
Feita essa digressão sobre o arranjo simbólico dos evangelistas, é preciso voltar à essência da ideia de Evangelho quadriforme de Santo Irineu, através da qual ele defendeu o cânon dos quatro livros dos evangelhos e a unidade do Evangelho enquanto mensagem revelada. A teologia bíblica elaborada pelo bispo gaulês, em vista do combate às heresias que surgiram no seio da Igreja nascente, evidencia que a integridade do conteúdo evangélico é mantida e realçada em cada um dos textos sobre a pessoa e a obra de Jesus, mostrando que, na verdade, há um Evangelho e que ele é dito de quatro maneiras diferentes. A polifonia gerada pela pluralidade dos textos é harmonizada pela concordância uníssona do conteúdo que sustenta a catequese de todos os quatro evangelistas, cuja proclamação pode ser resumida do seguinte modo: “Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho único, para que não morra quem nele acredita, mas tenha vida eterna” (Jo 3,16).

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