
Profissão de fé petrina: o coração do evangelho segundo Marcos
Inspirado pelo testemunho de fé do seu catequista, o apóstolo Pedro, Marcos transmitiu a verdade do Evangelho à Igreja de Roma, que colocou por escrito os seus ensinamentos. Devido à influência que o chefe da comunidade apostólica exerceu sobre o evangelista, é impossível ao leitor não perceber a importância que aquela figura ocupa no texto de Marcos. Pedro é descrito pela comunidade do primeiro evangelho como um modelo de discípulo do Senhor, apesar de suas fraquezas e contradições: ao compilar a catequese do apóstolo, Marcos o constituiu um exemplo para que os cristãos de Roma compreendessem como deveriam viver a fé em Cristo Jesus.
Para conduzir seus leitores à compreensão de quem é Jesus e de como deve ser o seu verdadeiro discípulo, Marcos organizou o seu texto em duas partes, cujo marco divisório é a solene profissão de fé petrina (cf. Mc 8,27-33): na primeira parte, o evangelista faz uma clara descrição da identidade divina do Homem de Nazaré, para confirmar que ele é o “Filho de Deus” (Mc 1,1); na segunda, o autor explica o que é ser discípulo do Filho de Deus. Antes de qualquer abordagem específica das duas seções do evangelho, é fundamental aproximar-se do seu coração, isto é, a profissão de fé que Pedro realizou, atestando que Jesus é o Cristo, o ungido de Deus para a salvação do mundo.
Estando com os seus discípulos a caminho das aldeias de Cesareia de Filipe, uma antiga região de culto pagão grego, Jesus lança uma das mais paradigmáticas perguntas que poderia fazer àqueles que o acompanhavam há anos: “quem dizem os homens que eu sou?” (Mc 8,27). Não por acaso, esse questionamento foi realizado enquanto caminhavam na direção de um local em que os deuses mitológicos eram cultuados: Jesus quer saber se, em meio à pluralidade de crenças que havia no ambiente cultural em que seus seguidores se encontravam, eles o reconheceriam como o Filho do Deus único. A resposta dos discípulos deixa claro que o povo em geral desconhecia a verdadeira identidade de Jesus, confundindo-o com João Batista, Elias ou algum outro profeta (cf. Mc 8,28).
O fato é que Jesus não estava preocupado com aquilo que o povo dizia a seu respeito; sua pergunta tinha o objetivo de descobrir o que seus amigos, aquele grupo que convivia mais proximamente com ele, estavam compreendendo sobre o seu modo de ser, de ensinar e de agir: “e vós, quem dizeis que eu sou?” (Mc 8,29). Demonstrando seu apreço por Pedro, o evangelista Marcos coloca na boca do pescador a afirmativa mais eloquente de seu livro: “Tu és o Cristo!” (Mc 8,29). É justamente no reconhecimento de Jesus como o ungido de Deus, como aquele que foi enviado por Deus para salvar o seu povo, que se encontra o resumo teológico do evangelho segundo São Marcos.
Vale lembrar que o título Cristo, de origem grega (Χριστός), deriva do verbo ungir (χρίω, chrio), e é utilizado no Segundo Testamento em alusão ao Messias, o salvador prometido pelo Primeiro Testamento. Ao atribuir a Jesus esse título, Pedro, enquanto chefe dos apóstolos e em nome deles, reconheceu a divindade do Homem de Nazaré, que foi enviado ao mundo pelo Pai “para servir e dar a própria vida como resgate por muitos” (Mc 10,45). No texto marcano, portanto, o personagem Pedro representa a Igreja cristã ao professar a fé em Jesus: à semelhança dele, os leitores do evangelho são chamados a admitir que “realmente este homem era Filho de Deus” (Mc 15,39).
Embora estivesse certo em relação ao título, o apóstolo foi repreendido por Jesus a não falar sobre a sua identidade para ninguém (cf. Mc 8,30), e essa atitude de escondimento se repete ao longo de todo o evangelho: trata-se do segredo messiânico de Marcos. O evangelista, no decorrer de sua obra, apresenta Jesus sempre pedindo para que sua identidade de Filho de Deus não seja revelada; o Senhor fez isso em relação aos demônios que expulsou (cf. Mc 1,25.34; 3,11-12), às pessoas que curou (cf. Mc 1,44; 5,43; 7,36; 8,26) e aos seus próprios discípulos (cf. Mc 8,29-30; 9,9). Ao guardar o segredo messiânico durante o desenrolar da narrativa evangélica, criando uma certa expectativa para o desfecho de seu enredo, Marcos prepara o leitor para viver o clímax da cruz, uma vez que somente nela é que a verdadeira identidade de Jesus poderá ser revelada (cf. Mc 15,39).
O recurso teológico ao segredo messiânico garante que a identidade de Jesus seja compreendida à luz de sua páscoa e não dos milagres que realizou, uma vez que o povo de Israel aguardava a chegada de um Messias guerreiro e não de um Servo sofredor. A incompreensão que poderia haver por parte do povo em relação à pessoa de Jesus, caso a sua identidade fosse revelada prematuramente, pode ser observada na postura de repreensão que Pedro adotou depois que o Filho de Deus explicou quem, de fato, ele era: “e começou a ensinar-lhes que era necessário que o Filho do homem padecesse muito, fosse rejeitado pelos anciãos, pelos sumos sacerdotes e pelos escribas, e fosse morto, mas ressuscitasse depois de três dias” (cf. Mc 8,31).
O entendimento militarizado que Pedro possuía do Cristo, graças à sua formação religiosa e política judaica, segundo a qual o Messias devia ser um soberano vingativo (cf. Nm 24,17-19; Sl 2,8-9; 110,1-6; Is 9,6-7; 42,13; 59,16-17; 63,1-4), pronto para salvar Israel e garantir-lhe a glória entre todas as nações da terra, o impediu de reconhecer em Jesus aquilo que ele é: o Servo sofredor que, sendo rejeitado e morto pelos filhos dos hebreus, ressuscitou, produzindo pela sua cruz a salvação da humanidade inteira. Dessa forma, ao proclamar Jesus como o Cristo, Pedro acertou quanto ao título, mas não compreendeu o seu novo significado em Jesus: ele falou de um Cristo guerreiro e Jesus se autodefiniu como o Cristo Servo sofredor.
Como se pode notar, a narrativa da profissão de fé de Pedro é o marco pedagógico que divide o evangelho segundo Marcos, porque através dela o autor corrige possíveis distorções em torno da pessoa e da obra de Cristo. Após dedicar os oito primeiros capítulos do livro para explicar quem é Jesus, o evangelista mostra que, mesmo diante de tudo aquilo que o Cristo revelou de si próprio, assim como Pedro, muitos cristãos poderiam ainda não entender a sua verdadeira messianidade: Mc 8,27-33 é uma revisão da primeira parte do evangelho, que trata da identidade de Jesus, ao mesmo tempo em que inaugura, com sua visão adequada sobre quem é o Cristo, a seção sobre o modo como devem viver os seus seguidores.
Assim como Pedro, cuja profissão de fé revelou uma genuína adesão à pessoa e à obra de Jesus, apesar de seu limitado entendimento a respeito da real identidade daquele nazareno que era Filho de Deus, os leitores do evangelho são convidados a proclamar sua fé no Cristo. O coração do evangelho segundo Marcos revela que não basta a correta atribuição do título cristológico a Jesus, mas que é preciso ultrapassar compreensões superficiais e acolher o mistério do Messias Servo sofredor, cuja missão se realizou na entrega de si. Dessa forma, professar que Jesus é o Cristo implica assumir também as exigências do seguimento, configurando a própria vida à lógica do serviço, da cruz e da esperança na ressurreição.
Imagem de Jacques Savoye por Pixabay

