#Artigo: Nossa Senhora Aparecida, olhai para as periferias do Brasil

10 de outubro de 2021

Pe. Paulo Adolfo Simões
Presbítero da arquidiocese de Pouso Alegre
Secretário executivo do Centro Nacional de Fé e Política “Dom Hélder Câmara” – CEFEP / CNBB

 

O mês de outubro, na Igreja Católica, é dedicado às Missões, pois se inicia com a celebração da padroeira das Missões, Santa Terezinha do Menino Jesus. No terceiro domingo, faz-se a coleta que financia as iniciativas missionárias da Igreja em todo o mundo.

No Brasil, esse mês se reveste de uma importância singular, pois nele são celebrados santos amados pela devoção popular e de muita significação para o nosso povo, além de Santa Terezinha: São Francisco de Assis, conhecido como santo da ecologia e da fraternidade universal; São Benedito, o Negro, padroeiro das cozinheiras e cozinheiros, e Nossa Senhora do Rosário, entre outros.

No entanto, nenhuma devoção é mais genuinamente brasileira que a da imagem da virgem enegrecida pelas águas do rio Paraíba do Sul, encontrada por pescadores no dia 12 de outubro de 1717. Dos meses de julho a outubro, pelos caminhos do sul de Minas, encontramos uma multidão caminhando a pé ruma à casa da Mãe Aparecida. São caminhadas de fé. São caminhadas duras, cansativas e de muita alegria, assim como é a fé. A verdadeira fé. Em seu santuário nacional, deságua uma multidão de fiéis. Juntando-se aos que vêm a pé, há outros romeiros devotos que chegam de carro, de ônibus, motocicletas, a cavalo, de motos, bicicletas, carros de bois…

As caminhadas de fé tornaram-se também uma rota oficial do turismo religioso, que passa por diversos municípios da arquidiocese de Pouso Alegre, o conhecido “Caminho da Fé”. Embora o culto à Virgem Aparecida abarque uma grande diversidade de classes sociais e de motivações pessoais, são notadamente os mais pobres os que em maior número se dirigem ao santuário. E a gratidão é, das motivações, a mais citada.

Daí a pergunta: por que Nossa Senhora Aparecida atrai tanto as massas empobrecidas? Por que essa devoção toca mais os corações de mulheres e homens sofredores, historicamente explorados, embora nem sempre tenham consciência disso?

Temos aqui um elemento socioeconômico fundamental que não pode ser ignorado. De fato, uma grande parcela do povo brasileiro é de miseráveis que vivem abaixo da linha de pobreza, e sua maior parte é constituída de pobres e de remediados. Ou seja, cerca de oitenta por cento da população, que não usufruem as tão propaladas grandes riquezas naturais da Terra de Santa Cruz, nem as riquezas produzidas pelo trabalho duro. Quem se beneficia de oitenta por cento das riquezas do país são menos de vinte por cento da população, os verdadeiramente ricos. A grande maioria dos empobrecidos não possui recursos financeiros para cuidarem de suas necessidades básicas e dependem das Políticas Públicas do estado. Essas mulheres e homens empobrecidos também não têm condições econômicas para visitar Maria branca e até de olhos azuis em santuários europeus. Na falta de recursos para pagarem por suas necessidades básicas e do pouco retorno que o estado brasileiro dá dos impostos que cobra, praticamente todo dessa população sofrida, resta-lhe recorrer aos santos, sobretudo à querida imagem negra de Nossa Senhora Aparecida. E essa imagem é de Maria, mulher e mãe. Mulher e mãe não falham! Por isso o povo tem por ela enorme gratidão!

Mas há também uma identificação histórica e cultural do povo brasileiro com a imagem de Aparecida. Aparecida é uma imagem pobre e negra, como a maioria da população do Brasil. Representando a Imaculada Conceição, é uma imagem pequena e foi encontrada escurecida pela lama do rio Paraíba do Sul – SP quebrada em dois pedaços. Uma imagem desprezada, porque quebrada e, por isso, jogada fora, no rio Paraíba do Sul. No fundo desse rio, passou muito tempo, por isso ficou de cor negra. Torna-se ainda mais desprezível aos olhos de uma elite social branca e europeia. Uma imagem quebrada, escurecida e pequena, mas representando Maria sem pecado desde seu nascimento. É uma representação verdadeira do povo brasileiro. Esse povo forjado na opressão, na violência e na espoliação, sempre consequências da busca de lucro desenfreado por um sistema financeiro que não olha para a pessoa nem para a natureza. Mas um povo que se reinventa, cria um caldo cultural riquíssimo e sobrevive em defesa de sua dignidade.

A história do Brasil compreende dois grandes genocídios, talvez os maiores da história humana: o primeiro, dos povos indígenas, de cor vermelha, verdadeiros donos da terra. O segundo, dos povos vindos de África, pessoas negras escravizadas. Nosso chão brasileiro, chão fértil e acolhedor com calor de útero, “que, em se plantando, tudo dá” (Pero Vaz de Caminha), é um chão encharcado do sangue, suor e lágrimas desses povos, muitos povos. E nesse chão, no século em que mais e mais pessoas escravizadas – mulheres, homens adultos, mas também adolescentes e crianças – eram contrabandeadas como se fossem mercadoria, surge uma imagem negra, quebrada, pequena e pobre, como representação da Mãe de Jesus. Mais que isso, os trabalhadores que a encontram enquanto exercem o ofício da pescaria, estavam a mando do governador da província de São Paulo. Segundo o jornalista e historiador Laurentino Gomes, em sua obra Escravidão, provavelmente seriam eles escravizados ou negros forros (GOMES, Laurentino, 2021, p. 99).

Portanto, a devoção a Nossa Senhora, pretinha, de Aparecida, exige de nós, mais que uma romaria, mais que uma caminhada geográfica, pelas estradas de poeira ou asfalto até o santuário nacional. Exige das brasileiras e dos brasileiros uma caminhada espiritual. Um longo percurso de fé ao interior de nós mesmos e de nossas histórias. Uma caminhada de redescoberta e de reconciliação com nossas origens. Uma caminhada de reconhecimento da responsabilidade por termos causado a perda de vidas e o sofrimento a tanta gente. Uma caminhada de perdão àqueles e àquelas, que, por ganância, historicamente nos tiram a vida. Fará muito mais sentido nossa visita ao santuário da Mãe Pretinha quando levantarmos nosso brado em favor dos nossos povos, sobretudo os povos originários: quilombolas, indígenas, ribeirinhos, agricultores sem-terra. O povo da cor da Mainha.

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