Euangelion cristão: ironia histórica, novidade semântica, alegria definitiva

4 de setembro de 2025

Extraído do léxico pagão, no qual era utilizado para designar proclamações militares e políticas, ora vinculadas ao resultado de guerras ora ligadas ao nascimento ou coroação dos imperadores, o termo euangelion foi ironicamente ressignificado pela literatura cristã. Essa ironia se deve ao fato de que a palavra evangelho, usada no mundo grego-romano para falar de estruturas contrárias ao Reino de Deus, como os massacres bélicos e a perpetuação do poder exploratório imperial, passou a denominar o Cristo. Dessa forma, é preciso ter em mente que as comunidades que escreveram o Segundo Testamento da Bíblia cristã, à luz da catequese que receberam dos apóstolos, não compreendiam o euangelion como um gênero literário ou como o conjunto de livros que narram a vida e o ministério messiânico de Jesus, mas como o próprio Filho de Deus, a Boa Notícia do Pai para a humanidade.

O cristianismo nascente, portanto, usou a palavra evangelho no Segundo Testamento sob a luz de uma tríplice significância: euangelion queria dizer, simultânea e inseparavelmente, uma pessoa, o conteúdo de uma mensagem e uma prática discipular-missionária. A primeira dimensão contida no termo evangelho é essencialmente cristológica; ao exortar sua comunidade à conversão, Marcos usa o termo euangelion para falar de Jesus: “completou-se o tempo, e o Reino de Deus está próximo. Convertei-vos e crede no evangelho” (Mc 1,15). O evangelho no qual os convertidos devem crer é, essencialmente, Jesus: “se, pois, com tua boca confessares que Jesus é Senhor e, no teu coração, creres que Deus o ressuscitou dos mortos, serás salvo. É crendo no coração que se alcança a justiça, e é confessando com a boca que se consegue a salvação” (Rm 10,9-10). A grande profissão de fé da comunidade cristã é na pessoa de Cristo, e dela decorre a crença naquilo que ele fez e ensinou.

A segunda dimensão semântica de euangelion é catequética, uma vez que da vida de Jesus, expressa através de suas palavras e ações, ditas e realizadas em favor da salvação do mundo, os cristãos deduzem aquilo que é chamado de querigma. Do grego, κήρυγμα quer dizer proclamação e é uma palavra utilizada pelos cristãos para falar do anúncio central da fé em Jesus, sendo ao mesmo tempo uma verdade fundante e fundamental para quem crê no Filho de Deus: “irmãos, quero lembrar-vos o evangelho que vos anunciei e que recebestes, e no qual estais firmes. De fato, eu vos transmiti, antes de tudo, o que eu mesmo tinha recebido, a saber: que Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras, foi sepultado e, ao terceiro dia, foi ressuscitado, segundo as Escrituras” (1Cor 15,1.3-4). Da pessoa de Jesus nasce o conteúdo da fé, sua morte e ressurreição, que é a grande novidade do cristianismo, anunciada através da evangelização apostólica: “ide pelo mundo inteiro e anunciai o evangelho a toda a criatura. Quem crer e for batizado será salvo. Quem não crer será condenado” (Mc 16,15-16).

O terceiro significado do euangelion cristão é missionário, pois o termo  constitui o nome de uma ação pastoral, ou seja, do ato de anunciar o querigma a todas as gentes, conforme atestam passagens dos escritos paulinos: “com Tito enviamos o irmão que é elogiado em todas as igrejas, por seu serviço no evangelho” (2Cor 8,18); “também a ti, leal companheiro, peço que as ajudes (Evódia e Síntique), pois elas lutaram comigo na causa do evangelho, junto com Clemente e meus outros colaboradores, cujos nomes estão inscritos no livro da vida” (Fl 4,3). Como se pode notar, o euangelion faz referência, também, à atividade missionária dos discípulos de Jesus, que tinham a função primordial nas primeiras décadas do cristianismo, período marcado por um forte apelo expansionista, de levar o querigma cristão para além da Palestina, até os confins da terra: “ide, pois, fazer discípulos entre todas as nações, e batizai-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Ensinai-lhes a observar tudo o que vos tenho ordenado” (Mt 28,19-20).

O uso da palavra euangelion, ressignificada pelos cristãos a partir da cultura greco-romana, ironiza a ideia de que a morte do inimigo na guerra e a ascensão de um governante pagão ao poder possam ser boas notícias. De acordo com a nova semântica atribuída pelos seguidores de Jesus ao termo evangelho, somente a vida, a mensagem e a missão do Cristo, Filho do Deus vivo (cf. Mt 16,16), é verdadeiramente uma boa notícia, capaz de encher o coração humano de plena e duradoura alegria. De fato, o euangelion é sempre uma comunicação alvissareira: ao receber a notícia do resultado de uma batalha em que fora vitorioso, o povo de uma cidade grega exultava de alegria; ao acolher a notícia do nascimento ou da coroação de um imperador, os romanos se enchiam de alegria. Essa alegria era sempre passageira: a tensão pelo início de uma nova batalha e os entraves próprios de uma governança política ambiciosa, colocavam em risco o contentamento das boas novas propagadas entre os gentios.

Ao contrário disso, o euangelion cristão constituiu uma mensagem capaz de oferecer à humanidade toda uma alegria perene, pois “o fruto do Espírito é: amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, lealdade, mansidão, domínio próprio” (Gl 5,22-23). O atravessamento do coração humano pelo anúncio missionário da mensagem querigmática da existência de Jesus e do seu amor incomensurável produz uma alegria sem par, levando o euangelion à condição irrevogável de boa nova: “de fato, Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho único, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3,16). O sentido pleno do evangelho como uma notícia feliz foi alcançado no cristianismo, dada a incapacidade da cultura pagã de realizar uma proclamação à altura daquele anúncio registrado por Lucas: “eu vos anuncio uma grande alegria, que será também a de todo o povo, pois hoje, na cidade de Davi, nasceu para vós o Salvador, que é o Cristo Senhor!” (Lc 2,10-11).

A pessoa, a mensagem e a missão de Jesus convergem para a formação do definitivo euangelion da alegria. Completo em sua essência cristológica, catequética e missionária, o evangelho cristão é um convite para o encontro com a alegria que não tem fim. Ao testemunhar o início da manifestação pública do messianismo de Jesus, João Batista reconheceu na pessoa do seu primo o evangelho da alegria: “esta é a minha alegria e ela ficou completa” (Jo 3,29). O próprio anúncio que Jesus faz da sua mensagem de amor é o evangelho da alegria: “como o Pai me ama assim também eu vos amo. Eu vos disse isso, para que a minha alegria esteja em vós, e a vossa alegria seja completa” (Jo 15,9.11). O carcereiro que se converteu durante a prisão de Paulo em Filipos experimentou o evangelho de Jesus, pois “entregou-se, com a família, à alegria de ter acreditado em Deus” (At 16,34). Assim, ao ironizar o sentido pagão de euangelion, o cristianismo nascente fez surgir uma profunda semântica para o termo evangelho, identificando-o com Jesus, com o seu querigma e com a sua missão, cujo fim é o cumprimento daquela promessa do Senhor morto e ressuscitado: “o vosso coração se alegrará, e ninguém poderá tirar a vossa alegria” (Jo 16,22).

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