
Evangelhos Canônicos e os Apócrifos
Os textos teológicos que narram a vida e a missão salvífica de Cristo são, reconhecidamente, os quatro evangelhos canônicos, ou seja, aqueles livros escritos pelas comunidades que foram catequizadas por Marcos, Mateus, Lucas e João, e que se encontram na Bíblia cristã como regra de fé; no entanto, outros grupos e personagens empenharam-se durante o século I na instigante tarefa de escrever sobre Jesus de Nazaré, produzindo evangelhos apócrifos que, possuindo valor histórico, cultural e até espiritual, não são reconhecidos pela Igreja como divinamente inspirados por Deus para a salvação da humanidade. Dessa maneira, é imprescindível que o cristão entenda as diferenças existentes entre os evangelhos canônicos e os evangelhos apócrifos.
A palavra cânon, de origem grega (κανών), significa medida e é utilizada no contexto da Teologia Bíblica para designar o conjunto de livros que foram reconhecidos pela comunidade cristã como sendo textos de origem divina, que contêm mensagens das quais dependem a salvação do gênero humano. Portanto, são canônicos os livros que seguem a “medida” de fé da Igreja, isto é, que obedecem aos critérios estabelecidos pela tradição cristã desde a era primeva, sob a luz do Espírito Santo, para serem considerados sagrados. No contexto específico de reconhecimento da canonicidade dos evangelhos, a Igreja utilizou algumas “medidas” para acolher os quatro livros que se encontram na Bíblia e que tratam da pessoa e da obra de Cristo no mundo.
Antes de falar destas “medidas” específicas, é interessante notar que, se elas fizeram-se necessárias para a formação de um cânon bíblico, é sinal de que muitos outros evangelhos foram escritos simultaneamente à redação dos quatro textos que oficializaram-se como divinamente inspirados. Ocorre que tais livros não obedeceram às “medidas” indicadas pela ação do Espírito de Deus nas comunidades cristãs primitivas e que, com o passar do tempo, foram estabelecidas pela Igreja como normas de canonicidade; chamados de apócrifos (ἀπόκρυϕον), cujo significado em grego é coisa escondida, mais de uma dezena de evangelhos não entraram no cânon cristão da Bíblia, permanecendo “escondidos”, no sentido de não serem acolhidos e utilizados pelo cristianismo como textos revelados por Deus em vista da salvação humana.
Antes de examinar os critérios de canonicidade, faz-se pertinente esclarecer que a Igreja não os inventou a partir de interesses politicamente arquitetados, mas os acolheu numa profunda atitude de fé compartida e confiante: o mesmo Espírito Santo que inspirou o processo de escrita dos evangelhos também capacitou a comunidade cristã para discernir a verdade salvífica presente neles, de sorte que a Igreja não estabeleceu medidas arbitrárias, mas as reconheceu auxiliada pela providente ação divina. Logo, tanto o surgimento dos evangelhos canônicos quanto a sua canonização eclesial são eventos sobrenaturais, são iniciativas do próprio Deus que, através de seu Filho Jesus Cristo, desejou revelar-se ao ser humano para convidá-lo à plena comunhão consigo; e fez isso através da Sagrada Escritura.
O primeiro critério de canonicidade dos evangelhos é a medida da inspiração divina: para ser considerado sagrado, o livro tem de possuir fundamentação teológica, procurando transmitir, através da narração de eventos históricos, uma mensagem que mostre ao leitor o grande projeto do Reino de Deus que Jesus veio anunciar através de seus gestos e palavras. Para ser canônico, o evangelho deve nascer da vontade divina de revelar-se para salvar! Um segundo critério é a medida da apostolicidade, ou seja, o texto deve ter ligação direta com a doutrina dos apóstolos, que foram as testemunhas oculares da manifestação do Filho de Deus no mundo, e que garantem a verdade do conteúdo que é transmitido através das narrativas elaboradas: Mateus (cf. Mc 2,14; Mt 9,9; Lc 5,27s) e João (cf. Mc 3.16-19; Mt 10,2-4; Lc 6,14) eram apóstolos; Marcos fora discípulo de Paulo e depois, muito provavelmente, de Pedro (cf. At 12,25; 13,5; 15,37-39; 2Tm 4,11; Cl 4,10; Fl 1,24); e Lucas acompanhou Paulo em sua missão de anunciar a Boa Nova aos gentios (cf. Cl 4,14; Fl 1,24; 2Tm 4,11).
Outro critério é a eclesialidade, que consiste na aceitação e no uso dos evangelhos nas liturgias celebradas desde as comunidades cristãs nascentes: considerando que a ação do Espírito Santo se dá na Igreja reunida em nome de Cristo, então os textos utilizados pelas assembleias orantes foram reconhecidos como sagrados desde sempre. Um quarto critério é a medida da concordância da fé: para ser canônico o evangelho deve preservar a integridade da mensagem transmitida por Jesus à sua Igreja através da mediação apostólica, não incorrendo em erros doutrinários e morais que comprometam o intuito salvífico presente no livro. O último critério é a observância da antiguidade do texto: quanto mais antigo era o evangelho, mais fiel à tradição dos apóstolos ele era e, consequentemente, a comunidade cristã mais o venerava.
Essas cinco “medidas” foram essenciais para o desenvolvimento do cânon de todo o Segundo Testamento, mas sobretudo para a inserção dos quatro evangelhos no elenco dos livros divinamente inspirados. Na mesma proporção em que serviram para a formação do cânon bíblico neotestamentário, elas também colaboraram para a construção de um outro conjunto literário que é o apócrifo. Em relação aos evangelhos apócrifos é fundamental distinguir dois modelos textuais: há evangelhos apócrifos que apenas não se adequam a um ou mais critérios de canonicidade, podendo ser consultados como fontes históricas, geográficas, culturais, espirituais etc, que, inclusive, revelam traços importantíssimos da piedade popular da Igreja cristã no século I. Porém, há evangelhos heterodoxos, que discordam da ortodoxia da fé, e apresentam heresias, isto é, ensinamentos que divergem da fé apostólica. Uma boa parcela da literatura evangélica apócrifa, por exemplo, possui uma forte influência do gnosticismo, uma doutrina que, encontrando-se com a mensagem cristã, sugere a negação da verdadeira humanidade de Jesus de Nazaré.
Como se nota, não há motivos para que o cristão tenha medo de ler os evangelhos e demais livros apócrifos, uma vez que apocrificidade não é sinônimo de heresia; todavia, o contato com os textos apócrifos requer um discernimento que permita ao leitor identificar as características redacionais presentes no evangelho que o diferenciam dos livros canônicos, ao mesmo tempo em que o capacite para encontrar possíveis divergências em relação à doutrina da Igreja. Os evangelhos apócrifos realçam a grandeza e a inigualável profundidade teológica dos quatro livros canônicos, compondo uma herança literária do cristianismo primevo que não pode ser descartada ou simplesmente ignorada. Para longe dos sensacionalismos criados pelo raso mercado editorial dos best-sellers e pela polemização incentivada pela indústria cinematográfica do capital, o conhecimento do conteúdo e do contexto dos evangelhos apócrifos pode ser um excelente caminho para o entendimento dos contrapontos históricos e teológicos que esclarecem a fé na pessoa e na obra do Evangelho de Deus: Jesus Cristo.
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