Exegese e hermenêutica: métodos humanos para interpretar o divino

5 de junho de 2025

A compreensão da mensagem bíblica é uma tarefa atualmente exigente, porque a capacidade hermenêutica do ser humano se encontra prejudicada pela predominância da cultura audiovisual e midiática em detrimento da cultura leitora; com o avanço tecnológico dos meios de comunicação, a interpretação é desnecessária já que as informações e mensagens transmitidas são reduzidas, autoexplicativas e instantâneas, anulando no indivíduo a necessidade de subjetivação do mundo e limitando a criatividade para atribuir sentido às coisas. Se a Bíblia é uma grande carta de Deus endereçada ao ser humano com o objetivo de comunicar a boa notícia da salvação em Jesus Cristo, então a qualificação daqueles que participam do ato dialógico incitado pelo divino através da Sagrada Escritura é imprescindível para que a mensagem transmitida seja acolhida, compreendida e praticada.
Na interlocução bíblica, por meio da qual Deus toma a iniciativa de falar ao coração humano, o falante-emissor da mensagem é perfeito, de forma que a linguagem usada por Ele é humanamente acessível. Da parte de Deus, há uma delicadeza comunicativa para falar ao ser humano das realidades divinas e sobrenaturais numa linguagem humana e natural; de igual maneira, deve existir um esforço do falante-receptor, entendido como a comunidade cristã, auxiliado pela graça do Espírito Santo, que é o intérprete oficial da Escritura (cf. 2Pd 1,20-21), para qualificar-se e entender o comunicado de Deus. No processo de qualificação para compreender a mensagem bíblica, a Igreja lança mão das contribuições de dois importantes métodos que colaboram para uma honesta e profunda elucidação semântica da Sagrada Escritura: a exegese e a hermenêutica.
Do grego ἐξήγησις (exegesis), exegese significa “trazer para fora” e designa o estudo crítico de um texto, que tem como interesse extrair dele aquelas evidências objetivas que colaboram para a compreensão do seu conteúdo. Do ponto de vista escriturístico, a exegese bíblica procura recompor o contexto histórico, geográfico, social, econômico, político, cultural, moral e religioso em que o texto foi formado; descobrindo essas estruturas objetivas que sustentam a redação de uma narrativa, muitos detalhes que poderiam passar despercebidos, empobrecendo o sentido do texto, são valorizados. Para mergulhar nos aspectos sintáticos da Bíblia, a exegese procura responder a cinco perguntas que são capazes de reconstituir o cenário no qual ocorre a interlocução entre Deus e o ser humano, numa experiência genuinamente teológica que dá origem ao texto: quando? Onde? Quem? Como? E para quem?
A etapa exegética de estudo de um livro bíblico começa com o enquadramento histórico-geográfico da obra: antes de pensar quem são os personagens envolvidos na trama e como eles interagem dialogicamente, é preciso situar o texto no seu contexto espaço-temporal. Toda produção literária escriturística é fruto de um dinâmico processo que supõe os acontecimentos históricos que constituem a teofania (do grego θεοφάνεια, significa “manifestação divina”) da Trindade no mundo – “quando?” – e a consciência territorial a respeito dos lugares em que ela ocorreu – “onde?”: Deus se revela ao ser humano em épocas e lugares diferentes, por isso noções de cronologia do Primeiro e do Segundo Testamentos, e de geografia das regiões nas quais viveram os povos bíblicos, são elementares para o entendimento das narrativas reconhecidas pela Igreja como inspiradas por Deus.
Sabendo onde e quando um texto foi redigido, o exegeta pode então averiguar “quem”, “como” e “para quem” o escreveu. Nesta segunda etapa da investigação exegética, o estudo bíblico passa dos aspectos externos à narrativa (história e geografia) para os elementos humano-comunicativos do texto, a fim de conhecer quem são os interlocutores que interagem linguisticamente e de que maneira isso ocorre: descobrindo quem é(são) o(s) redator(es) de um dado livro, qual o estilo literário por ele(s) adotado e quem(quais) é(são) o(s) destinatário(s) da obra, a exegese cumpre o dever científico de garantir que a dimensão imanente do texto seja preservada. Numa perspectiva crítica, a exegese trabalha para que a Bíblia seja lida de forma encarnada, ou seja, sem espiritualizá-la a tal ponto que a mensagem perca sua característica formalmente antropológica.
A abordagem exclusivamente exegética pode conduzir o estudioso da Sagrada Escritura ao perigo do racionalismo, que se contenta com as razões objetivas que estruturam a comunicação da mensagem bíblica e que juntas formam o sentido literal. Por isso, a hermenêutica, do grego ‘ερμηνευτική (hermuneutiké), que significa “arte de interpretar”, é a ciência que busca aquilo que está entre o leitor e o texto: o significado. No contexto do estudo bíblico, a hermenêutica procura o sentido espiritual do texto, ou seja, aquele chamamento universal para a salvação que Deus quer comunicar ao coração humano através da literatura bíblica. A hermenêutica, dessa forma, conserva a dimensão transcendente da mensagem bíblica, sem com isso cair no fundamentalismo ou no fanatismo religioso graças às contribuições da exegese.
Enquanto a exegese é responsável por encontrar respostas para as cinco perguntas anteriormente apresentadas, a hermenêutica está incumbida de responder à questão primordial sobre o objetivo do texto: o “porquê”. Através dos recursos epistemológicos disponibilizados pela teologia, a hermenêutica bíblica se aproxima dos livros sagrados com o intuito de compreender a unidade semântica que existe em todos eles: os 73 livros canônicos, tidos como inspirados por Deus para a salvação humana, outro objetivo não têm senão o de reconduzir o leitor, que em primeira instância é a Igreja, à comunhão com o seu Senhor. A hermenêutica quer evidenciar essa mensagem salvífica que costura semanticamente os livros bíblicos e une o Primeiro ao Segundo Testamento, ao passo que a exegese se debruça sobre a especificidade de cada obra. Unidas e indissociáveis para a teologia bíblica, exegese e hermenêutica – sentido literal e sentido espiritual – levam a comunidade cristã ao sentido pleno da Escritura.
Como o próprio nome já diz, o sentido pleno é aquele obtido a partir de uma abordagem totalizante de um texto bíblico, que considera seus aspectos imanentes (antropológicos) e transcendentes (teológicos) como igualmente necessários à compreensão daquilo que Deus quer dizer ao ser humano. Muitas outras abordagens de um texto bíblico são possíveis e aceitáveis, porém constituem tentativas parciais de leitura e entendimento da Palavra de Deus: por exemplo, uma abordagem limitada à visão político-econômica do contexto em que um texto foi escrito tende a reduzi-lo ao jogo de forças sociológicas por poder e lucro, sem, com isso, conduzir o leitor ao sentido teológico de natureza revelada que o texto possui; muito embora essa abordagem seja relevante como parte do processo exegético, isoladamente ela ocasiona um reducionismo semântico do texto e da sua mensagem. Sendo assim, a exegese e a hermenêutica são métodos sem os quais, sob a guia do Espírito Santo, o humano não pode chegar ao sentido pleno das Escrituras divinas.

Imagem de svecaleksandr249 por Pixabay