
Formação dos evangelhos: o livro como horizonte de chegada e ponto de partida
O evangelho enquanto livro é o resultado final de um longo e complexo processo de amadurecimento teológico de uma determinada comunidade que professa a sua fé em Jesus de Nazaré, instruída e orientada pela catequese de algum dos apóstolos ou de um dos seus discípulos imediatos. Embora os evangelhos sejam o ponto de partida para a vivência da fé por parte daqueles que se converteram ao cristianismo após a era apostólica, isto é, depois do falecimento dos apóstolos até fins do século I, eles são o ponto de convergência da fé crida e testemunhada por comunidades que conviveram com os apóstolos: são, nesse sentido, horizonte de chegada!
Há, portanto, uma dupla dinâmica que envolve a compreensão dos evangelhos enquanto registros literários da vida e da obra de Cristo. O primeiro movimento (século I) nasce do fato histórico da existência e da missão de Jesus e desemboca na escrita teológica dos textos bíblicos. O segundo deslocamento vai do reconhecimento comunitário do valor salvífico da mensagem contida nos textos à consumação dos tempos (a partir do final do século I). Embora o leitor se encontre neste segundo momento, em que a Igreja militante é impulsionada na sua fé cristológica pelo conteúdo dos evangelhos, sendo inspirada pela experiência das comunidades que viram e ouviram o Verbo da vida (cf. 1Jo 1,3), é imprescindível entender de que forma os textos são o destino das vivências do cristianismo nascente.
De antemão, faz-se necessário esclarecer que, à semelhança dos demais livros bíblicos, os evangelhos são produções genuinamente teológicas, isto é, embora contenham diferentes gêneros literários (narrativas, hinos, sermões etc), a moldura que sustenta todos os registros é teológica. Isso quer dizer que, valendo-se dos conhecimentos históricos, políticos, culturais, científicos, religiosos, econômicos, sociais e morais da época em que foram escritos, os evangelhos não são diários que ensejam fornecer informações jornalísticas sobre Cristo e seus seguidores; os textos são descrições da vida e da missão de Jesus com o intuito de comunicar, através dos mais diversos recursos linguísticos e semânticos, uma mensagem de salvação. Cada versículo dos evangelhos, ao contar sobre quem é o Filho de Deus e qual é o novo Reino de amor que ele deseja estabelecer no mundo através da comunidade dos seus seguidores, fala de experiências de fé, aponta para realidades sobrenaturais.
Sendo assim, embora exista uma espessa camada histórica na fundamentação dos textos, garantindo a veracidade dos conteúdos que são narrados pelas comunidades evangelísticas, o livro em si é o resultado final de um longo e amadurecido processo de interpretação dos eventos sobre Jesus à luz da fé. Os grupos que foram catequizados pelos apóstolos e por seus discípulos não escreveram os relatos sobre Jesus orientados pela curiosidade, como se fossem meramente crônicas; aquilo tudo que fora registrado, é ponto de chegada de um intenso caminho eclesial de aprofundamento na fé cristológica, de maneira que todas as narrativas evangélicas, sustentadas pela historicidade do que contam a respeito do filho do carpinteiro de Nazaré (cf. Mt 13,55), são simultaneamente interpretações de fatos sob a ótica da crença no Cristo, o Messias enviado por Deus para a salvação da humanidade (cf. Jo 3,17).
Dito isso, o próprio evangelista Lucas explica de que maneira se deu a formação dos evangelhos, estabelecendo no prólogo de seu relato teológico sobre Jesus três estágios consecutivos e didáticos, para explicar como a fé das comunidades primevas se converteu em mensagem escrita. Segundo escreveu, há uma etapa histórica (cf. Lc 1,1), sucedida pela transmissão oral (cf. Lc 1,2) e concluída pela redação do livro (cf. Lc 1,3). Tudo começa no testemunho apostólico a respeito dos fatos que se cumpriram enquanto Jesus realizou a sua missão salvífica no mundo. A comunidade dos doze presenciou a ação de Cristo, registrando através das experiências que foram realizadas por e com ele, na Palestina, acontecimentos importantes para a compreensão da nova identidade religiosa não-judaica que estava surgindo. Ainda que não tivessem pleno entendimento daquilo que Jesus praticava e ensinava enquanto convivia com eles, os apóstolos professavam no coração as verdades que registraram com os olhos, com os ouvidos e com as mãos, ao testemunharem a missão de Cristo através da caridade, dos milagres, das orações e de suas catequeses.
A ressurreição de Jesus provocou nos apóstolos um esclarecimento sobre tudo aquilo que haviam testemunhado, lançando-os num intenso ministério catequético de formação das comunidades que não conviveram com Jesus. O ardor que nasceu da páscoa, confirmando para eles o messianismo presente na prática e no ensinamento de Cristo, fez com que os apóstolos transmitissem de forma oral o que viram e ouviram. A pregação dos apóstolos, dirigida às comunidades cristãs nascentes, já estava modelada pela interpretação teológica que realizaram dos fatos que presenciaram, iluminados pelo grande milagre da ressurreição de Jesus. Vale ressaltar que a oralidade foi o primeiro instrumento de transmissão da mensagem cristã, pois além da língua falada ser considerada o meio eficaz para a perpetuação dos conhecimentos mais importantes de um povo, a língua escrita era um privilégio das elites político-econômicas nas civilizações antigas.
A velhice e a morte iminentes das testemunhas oculares do ministério de Jesus, impulsionaram as comunidades a colocarem por escrito aquilo que escutaram, a fim de conservarem a integridade do ensinamento teológico que receberam através da catequese apostólica. Depois de pelo menos três décadas de contação das histórias sobre como Cristo salvou a humanidade ferida pelo pecado e pelas suas consequências (décadas de 30 a 50 d.C.), os cristãos redigiram comunitariamente as narrativas que foram, mais tarde, chamadas de evangelhos (décadas de 60 a 90 d.C.), atribuindo a autoria dos livros àqueles catequistas que as educaram na fé (Marcos, Mateus, Lucas e João). Os relatos que foram oficializados pelas comunidades cristãs nos livros bíblicos são construções literárias coletivas, inspiradas por Deus para a salvação do mundo, e supõem a existência originária de um pregador com a autoridade testemunhal de intérprete teológico. Portanto, em relação aos grupos que foram instruídos pelos apóstolos e por seus discípulos imediatos, o evangelho é o ponto de chegada de um percurso eclesial de crescimento na fé em Cristo ressuscitado.
Os evangelhos são, dessa forma, o ponto fulcral do entroncamento de duas importantes realidades: a grandeza da fé de comunidades primitivas que escreveram sobre o que acreditaram, e a constância na fé por parte da Igreja que lê o que foi escrito para perseverar acreditando segundo a tradição apostólica. Os livros sobre a vida e a obra de Cristo constituem, verdadeiramente, o destino de chegada da fé pascal testemunhada pelos apóstolos, e o ponto de partida para que Cristo habite pela fé nos corações da humanidade inteira (cf. Ef 3,17).

