Interpretação: o humano busca compreender o divino

7 de maio de 2025

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Inspirada por Deus, escrita por comunidades de fé a partir do testemunho catequético de homens e mulheres, e reconhecida pela Igreja como texto revelado em vista da salvação humana, a Bíblia deve ser lida e interpretada sob a autoridade do mesmo Espírito que iluminou e conduziu seu processo redacional. Sendo assim, a mensagem bíblica só pode ser verdadeiramente interpretada se a sua leitura e compreensão ocorrerem segundo a dinâmica que o próprio Deus quis para a sua escrita, isto é, que ela seja feita sob a guia do Espírito Santo, que é chamado de Intérprete da Escritura, e no seio da comunidade eclesial. Qualquer tentativa de compreensão da Bíblia que desconsidere sua natureza teológica e seu pertencimento eclesiológico é arbitrária e desonesta, constituindo-se uma traição semântica.

Considerando que os livros bíblicos, cada qual a seu modo e segundo seu estilo literário, são narrativas sobre as experiências de fé que Israel e os cristãos viveram, os óculos a serem utilizados pelo leitor dos textos devem ser emprestados dos seus escritores: as lentes teológicas são as únicas capazes de conduzir o leitor ao sentido original do texto, já que, apesar de possuírem conteúdo histórico, geográfico, cultural, moral, político, econômico, social etc, o objetivo primordial dos 73 livros da Sagrada Escritura é contar de que forma Deus se revelou ao ser humano e como a humanidade acolheu e viveu a mensagem salvífica a partir daquilo que Deus propôs. A captação deste sentido profundo dos textos bíblicos só é possível através do reconhecimento, que nasce da profissão de fé na ação do Espírito Santo durante o processo redacional dos livros, de que eles são fruto da inspiração divina para a salvação do mundo.

Abordar o texto, dessa maneira, a partir do seu contexto teológico é preservá-lo de qualquer possível manipulação que pretenda transformá-lo em pretexto para a realização de interpretações que ele mesmo não é capaz de proporcionar: por exemplo, alguém que busque na Bíblia fundamentos para embasar teorias científicas está equivocado, porque ela, muito embora contenha ciência dentro dos limites de desenvolvimento da época em que foi escrita, não é um compêndio científico; buscar na Sagrada Escritura aquilo que ela não pode oferecer é como procurar laranja num limoeiro, ou seja, é ignorar a natureza da fonte e atribuir a ela, de maneira arbitrária, um fruto que não é capaz de produzir. Tão importante quanto entender a Escritura como texto teológico é lê-la na mesma dinâmica eclesial que a produziu: se a Bíblia foi escrita em e por comunidades que foram catequizadas pelo ensinamento de alguma personagem exponencial, tal como um profeta ou apóstolo, ela só pode ser compreendida em e por comunidades, sob a ação do Espírito Santo.

A redação coletiva dos textos finais que foram reconhecidos pela Igreja como divinamente inspirados implica na interpretação dos mesmos escritos de maneira comunitária. Ninguém, portanto, está individualmente autorizado pelo Espírito Santo a compreender o sentido teológico da Escritura, justamente porque Ele, o Intérprete oficial da Bíblia, age na comunidade de fé reunida; somente quando todos estão reunidos, como em pentecostes (cf. At 2,1-4), é que o Espírito Santo, Aquele mesmo que inspirou a redação dos livros há milênios, produz a interpretação teológica dos textos, garantindo que eles multipliquem no espaço e no tempo os efeitos salvíficos da Revelação que contêm. Dessa forma, a Igreja considera que a Bíblia só pode ser lida e interpretada em comunhão com a Tradição e o Magistério, de sorte que essas três realidades constituem os fundamentos da fé católica, ao contrário do que pretende o protestantismo, a partir da reforma de Martinho Lutero, no século XVI, quando definiu somente a Escritura – Sola Scriptura – como fonte doutrinária, espiritual e moralmente válida.

Por Tradição, entende-se não os costumes característicos da religião católica, mas a ação de passar adiante, conforme atesta a própria etimologia do termo latino traditio, o depósito da fé recebido dos apóstolos, que foram as testemunhas oculares da revelação cristológica. Assim, a Tradição é o movimento ininterrupto que entrega às gerações, desde a era apostólica, integralmente e sem alterações, os ensinamentos de Jesus. Considerando que os livros bíblicos foram escritos até o final do século I, a literatura que foi produzida a partir do século II, chamada de Patrística, desenvolveu e sistematizou a doutrina, a espiritualidade e a moral que têm na Sagrada Escritura a sua origem e fundamentação, passando a ser identificada como a Tradição da Igreja. A Patrística, cujo nome deriva da palavra latina pater, que quer dizer pai ou padre (cf. Eclo 44–50; Lc 1,54-55), é o período em que os “pais” ou “padres” da Igreja, isto é, homens e mulheres interessados em aprofundar e organizar a fé cristã a partir do testemunho dos apóstolos, colaboraram através de uma vasta produção literária, que tem a Escritura como base, para o esclarecimento doutrinário, espiritual, moral e pastoral da Igreja.

A Bíblia, portanto, nasceu no contexto da Tradição, ou seja, de transmissão da fé pelos Apóstolos, já que a pregação deles é anterior à redação dos textos, de sorte que a Escritura só pode ser interpretada de acordo com a Tradição, que a precede enquanto transmissão oral, a envolve como moldura redacional e a desenvolve na produção dos Pais da Igreja. Zelando pela comunidade cristã nascente nos séculos primevos, como um pai cuida de uma filha durante a primeira infância, os Padres da Igreja se preocuparam em sustentar a fé inaugurada por Jesus, transmitida pelos apóstolos e contida na Bíblia através de seus escritos teológicos. Aqueles que foram discípulos dos apóstolos e escreveram entre os séculos I e II ficaram conhecidos como Padres Apostólicos: Policarpo de Esmirna (69-155), por exemplo, fora discípulo do apóstolo João. A partir do século II, combatendo as heresias que surgiram dentro e a partir da fé cristã, os escritores foram chamados de Padres Apologistas, já que defenderam o cristianismo das falsas doutrinas, como fez Irineu de Lião (130-202). Nos fins do século IV, a Patrística alcançou o seu auge com produções teológicas do gabarito das que foram elaboradas por Agostinho de Hipona (354-430), por exemplo, o maior expoente do pensamento patrístico ocidental.

Se toda essa riqueza histórico-teológica da Tradição constitui o horizonte irrenunciável para uma fidedigna interpretação da Bíblia, igualmente o é aquilo que a Igreja ensina oficialmente por meio do papa e dos bispos em comunhão com ele. Através do múnus de ensinar praticado por esses sucessores dos apóstolos, a Igreja exerce seu Magistério, cujo objetivo mais importante é, fundamentada em pesquisas e estudos bíblicos cientificamente rigorosos e teologicamente pertinentes, interpretar legitimamente a Sagrada Escritura, de forma que os fiéis possam colher os frutos da Revelação divina a partir de uma compreensão adequada e plena dos textos que foram inspirados por Deus para a salvação humana. Sendo assim, a interpretação da Bíblia, que passa pelo reconhecimento da essência teológica dos textos e pela leitura dos livros no seio da Igreja, observando como regra de fé também a Tradição e o Magistério, é o caminho para que o ser humano compreenda plenamente aquilo que Deus diz através da sua Palavra salvadora, evitando equívocos e fundamentalismos que colocam em risco o entendimento da Sagrada Escritura como comunicação do amor divino ao coração humano.

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