Lectio Divina: a Palavra divina na oração humana

4 de julho de 2025

A Leitura Orante da Palavra de Deus é um antiquíssimo costume cristão que colabora vivamente para que os fiéis estabeleçam a necessária relação de intimidade com a Bíblia, capaz de garantir-lhes o conhecimento de Deus, a compreensão do seu projeto salvífico e o aprofundamento na fé. A tradição de rezar com a Sagrada Escritura deita suas raízes na espiritualidade judaica, uma vez que os livros que contêm a revelação divina sempre foram venerados pelo povo de Israel como fonte primordial para o esclarecimento e para a vivência da fé: “que o livro desta Lei esteja sempre nos teus lábios; medita nele dia e noite, para que tenhas o cuidado de agir de acordo com tudo que está escrito nele” (Js 1,8). Embora tenha suas origens na reverência orante prestada pelo Judaísmo à Sagrada Escritura, foi com o monaquismo cristão que a prática de rezar com a Palavra de Deus se consolidou como método para o desenvolvimento de uma espiritualidade verdadeiramente bíblica.

Embora tenha sido o teólogo cristão Orígenes (185-253) o primeiro a utilizar o termo Lectio Divina para designar um método de oração com a Palavra de Deus, o hábito de ler a Bíblia a partir de uma perspectiva espiritual, buscando retirar da contemplação pessoal do texto divino uma mensagem capaz de orientar a fé e a vida, foi amplamente desenvolvido pelas tradições monásticas da antiguidade cristã, tanto no ocidente quanto no oriente. Os grandes ascetas da Igreja primitiva, que muitas vezes foram responsáveis pelo nascimento de grandes famílias monacais, tais como Santo Antão do Egito (251-356), São Pacômio de Tebaida (292-348), São Basílio Magno (330-379), São Jerônimo (347-420) e São Bento de Núrsia (480-547), incentivaram recorrentemente os cristãos, especialmente aqueles que optaram pela radicalização da vocação batismal através da consagração religiosa, à prática da Lectio Divina, ou seja, à Leitura Divina ou Espiritual ou Orante da Bíblia. No capítulo IV de sua Regra, o próprio São Bento, pai do monaquismo ocidental, ao tratar dos instrumentos da arte espiritual para a santificação do monge, orienta seus filhos beneditinos para que se exercitem diariamente na Leitura Orante enquanto uma boa obra: o monge deve “ouvir de boa vontade as Santas Leituras e dar-se frequentemente à oração”. Na esteira dessas experiências monásticas paleocristãs, surgiram diferentes ordens religiosas durante a Idade Média dedicadas à vida contemplativa, isto é, à vida de oração, que conservaram e perpetuaram a prática da Lectio Divina como um dos importantes fundamentos de sua espiritualidade.

Na segunda metade do século XI, liderados por São Bruno de Reims (1030-1101), um grupo de monges fundou em Chartreuse, na França, a Ordem da Cartuxa; rigorosos no propósito da vida solitária, silenciosa e contemplativa, os cartuxos observam até hoje, de acordo com o que está previsto no capítulo 21 do livro 3 da Regra Cartuxa, o seguinte: “sendo ocupação do monge meditar assiduamente as Sagradas Escrituras, até que se convertam em algo próprio à pessoa, quando se nos apresentam pela Igreja na Sagrada Liturgia, acolhemo-las como pão de Cristo”. Dessa forma, foi o cartuxo Guido II, no século XII, quem sistematizou os passos da Lectio Divina, registrando-os no opúsculo A Escada dos Monges. A exposição de Guido sobre a Leitura Orante deu origem ao que ficou conhecido como Scala Claustralium (do latim, Escada do Claustro); trata-se de um método de oração com a Bíblia cujos quatro passos são considerados degraus que formam uma escada espiritual que eleva o cristão que reza com a Sagrada Escritura até a graça de Deus: “embora dividida em poucos degraus, ela é de imenso e incrível comprimento, com a ponta inferior apoiada na terra, enquanto a superior penetra as nuvens e perscruta os segredos do céu” (A Escada dos Monges, cap. II). De acordo com a estrutura apresentada pelo monge cartuxo, a Lectio Divina deve ocorrer a partir de etapas sucessivas e crescentes em importância: a lectio (a leitura), a meditatio (a meditação), a oratio (a oração) e a contemplatio (a contemplação).

No primeiro degrau, chamado de lectio, o cristão-orante é convidado a levar “à boca o alimento sólido” (A Escada dos Monges, cap. III), lendo o texto bíblico com plena atenção e excitação racional. Enquanto lê pausada e repetidamente a narrativa, a consciência é convidada a persistir na intenção de abocanhar as palavras que compõem a matéria da oração, isto é, a entender o cenário, as personagens, as falas, os sentimentos etc. Aquele que reza com a Bíblia deve responder à pergunta: o que o texto bíblico diz? Para isso, inicialmente, não deve haver projeções interiores do sujeito no texto: é preciso deixar que o texto se apresente ao coração tal como ele foi escrito, sem mastigá-lo. Depois disso, o cristão-orante deve subir o segundo degrau: a meditatio. Deixando a materialidade do texto, ou seja, a leitura inicial que traz para o interior os elementos que formam a narrativa, faz-se necessário comer o alimento que fora levado à boca. Mergulhando no profundo do coração, é hora de perscrutar cada aspecto do texto para encontrar a mensagem que ele transmite; para isso, deve-se responder à questão: o que o texto bíblico diz para mim? Trata-se de mastigar o texto para perceber o sabor que Deus dá ao alimento que está na boca daquele que reza: “é Ele que dá sabor à sabedoria, e faz saborosa a ciência da alma” (A Escada dos Monges, cap. V).

O texto que diz algo é simultaneamente um convite para que o cristão-orante fale, é um chamamento ao diálogo com Deus, por isso o terceiro degrau é a oratio. A oração pede o sabor do alimento triturado pela meditação: “vendo, pois, a alma que não pode por si mesma atingir a desejada doçura de conhecimento e da experiência, e que quanto mais se aproxima do fundo do coração (Sl 64,7), tanto mais distante é Deus (cf. Sl 64,8), ela se humilha e se refugia na oração” (A Escada dos Monges, cap. VI). Enquanto reza motivado pela mensagem que extraiu da passagem bíblica, aquele que se exercita na Lectio Divina precisa responder: o que o texto me faz dizer a Deus? E, no mesmo instante em que a leitura se torna prece, a oração que sobe aos céus é respondida por Deus em forma de apelo à transformação da vida, de modo que o cristão-orante chega à contemplatio: “é a própria doçura que alegra e alimenta” (A Escada dos Monges, cap. III). Na contemplação, busca-se responder à pergunta: o que o texto me inspira a fazer? Trata-se do momento em que a oração se torna gesto concreto a partir da efusão da graça de Deus na alma: a contemplação, portanto, é ativa, conduzindo aquele que reza com a Bíblia a tornar-se aquilo mesmo que rezou através da mudança do coração, da mentalidade e das ações. O desfecho da Leitura Orante da Palavra de Deus ocorre quando surge no coração um propósito por meio do qual o cristão se converte em bem-aventurado, isto é, naquele que mergulhou de tal forma na Sagrada Escritura que seu testemunho se transforma num evangelho vivo a ser lido pelo mundo.

Como se pode notar pela explicação da Scala Claustralium, os degraus da Leitura Orante aproximam o cristão dos mistérios salvíficos contidos na Bíblia, transformando o conteúdo escriturístico num alimento para a fé e para a vida. O exercício cotidiano e assíduo da oração com a Palavra de Deus faz com que aquele que reza desenvolva a indispensável familiaridade com o texto sagrado, estabelecendo com ele uma profunda relação de conhecimento racional, apropriação espiritual e tradução moral. Por isso mesmo, a constituição apostólica do Concílio Vaticano II sobre a revelação divina, chamada Dei Verbum (do latim, Palavra de Deus), incentiva veementemente que a Bíblia seja redescoberta hoje pela Igreja como fonte de espiritualidade e método de oração através da Lectio Divina: “debrucem-se, pois, gostosamente sobre o texto sagrado, quer através da sagrada Liturgia, rica de palavras divinas, quer pela leitura espiritual” (Dei Verbum, nº. 25).

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