#Reflexão: 1° Domingo da Quaresma (09 de março)

6 de março de 2025

A Igreja celebra o 1° domingo da Quaresma, neste domingo (09). Reflita e reze com a sua liturgia.

Leituras:
1ª Leitura: Dt 26,4-10
Salmo: 90(91),1-2.10-11.12-13.14-15 (R. cf. 15b)
2ª Leitura: Rm 10,8-13
Evangelho: Lc 4,1-13

Acesse aqui as leituras.

VENCENDO AS TENTAÇÕES

Iniciamos a Quaresma recordando as três práticas da piedade judaica que também nós somos convidados a vivenciar de um modo mais intenso neste tempo. A “caridade” deve ser vivida mais intensamente como expressão da misericórdia de Deus em nossas vidas; a “oração” deve ser mais profunda buscando melhorar nossa relação filial com Deus Pai; o “jejum” deve ser visto como uma forma de repensarmos nossa relação conosco mesmo, buscando ter consciência e controle sobre os nossos próprios desejos.

Segundo os evangelistas, no momento do Batismo, Jesus é revelado como Filho de Deus com uma voz vinda do céu. Publicamente, Jesus é confirmado em sua relação mais profunda com Deus através de sua filiação. Lucas informa que Jesus estava “cheio do Espírito Santo” e, por isso, é o Espírito que guia Jesus e, assim, Ele deve deixar-se guiar por Deus e não por qualquer outra realidade

Lucas nos situa no Evangelho deste domingo que Jesus foi conduzido ao deserto pelo Espírito Santo, mas lá, Jesus não encontrou somente o silêncio do deserto, mas também o diabo que procurou ao máximo atrapalhar Jesus em sua oração. O que aconteceu com Jesus, acontece com frequência conosco: quando Ele se encontrava mais fraco, o mal se fez mais forte. Lucas diz que “não comeu nada naqueles dias”, Mateus – mais próximo da tradição judaica – diz: “depois de jejuar quarenta dias” (Mt 4,2). Depois de quarenta dias, o diabo apresentou a Jesus propostas que se mostravam inocentes, mas escondiam consequências sérias para a missão de Jesus.

Importante lembrar que mesmo cercado pela tentação, Jesus tem o Espírito Santo que jamais O abandona como a nós, seus filhos e filhas. Talvez se esperasse que o Espírito Santo livrasse Jesus do mal e das tentações, mas os evangelistas Mateus Marcos e Lucas dizem que Jesus foi “conduzido” (ou impelido) pelo Espírito Santo próprio para ser tentado. Parece estranho, mas não é. O deserto é o local da mais profunda realidade humana. Onde permanece, de um lado o que cada um é, e de outro lado, se experimenta Deus mais intensamente. Deserto é local onde as opções devem ser decisivas, pois a vida está em risco. Mas, é neste momento que o mal se aproxima. Na crise, o diabo se apresenta como solução para nos livrar dos sofrimentos, privações, tristezas e frustações. 

Somos imagem de Deus, isto é, somos livres e assim, podemos escolher e amar. O diabo não se impõe a Jesus, mas oferece opções para que Ele escolhesse e assim, se tornasse dependente das suas propostas. As sugestões do mal, são vias de fuga da realidade que Jesus estava enfrentando. São soluções que não resolvem o problema, mas simplesmente, esconde a verdadeira causa. Ouvindo o mal, se aprofunda na crise e não se consegue uma verdadeira solução para tudo, mas somente alívio passageiro e momentâneo (Don Epipoco). 

Nas três tentações encontramos as principais armas utilizadas pelo diabo para seduzir Jesus (e nós), bem como as armas que nós devemos utilizar para conseguirmos nos livrar das mesmas tentações.

Na primeira tentação, o mal mostra a sua principal arma: a dúvida. “Se tu és Filho de Deus…” (repetirá na 3ª tentação). Uma outra possível tradução poderia ser: “já que você é Filho de Deus…” O mal provoca Jesus e cria uma lógica que é uma armadilha. “Diabo” significa “divisor”. Se Jesus escutasse o que o diabo tinha proposto, Nosso Senhor teria que fazer algo para provar que é Filho de Deus (transformar pedra em pão); se assim fizesse, teria aberto uma “porta” para tantas outras dúvidas que O arrastaria para a insegurança e incertezas em relação a Ele próprio e, principalmente, sua relação com Deus. O mal semeia dúvida sobre aquilo que é essencial e fundamental entre Jesus e Deus: sua relação filial. No Batismo, os céus revelaram que Jesus é Filho de Deus; agora o diabo, da terra tentar provocar Jesus a testar se Deus é realmente seu Pai.

O mal prossegue: “…ordena a esta pedra que se transforme em pão”. Alguém poderia até afirmar: “Mas, Jesus estava com fome…; ninguém estava vendo, ademais, não iria fazer nenhuma falta uma pedra a menos naquele lugar!” Produzir milagres para si próprio, Jesus jamais fez isto. Tudo que fez, realizou para os outros, para o bem das pessoas: curas, milagres, multiplicação de pães e peixes etc. Provocar um “milagre” para si, para satisfazer uma necessidade física nunca fez parte do projeto de Jesus. A questão torna-se mais perigosa uma vez que é sugerido pelo mal e não por Deus. Dar ouvido ao diabo era se abrir para outras propostas cuja necessidade seria somente para proveito próprio e pessoal. Jesus não multiplica os pães por sugestão do diabo, mas Ele próprio multiplica para o povo com fome. O “pão” (nossas necessidades) jamais deve ser visto como um bem absoluto, mesmo sendo necessário e importante. Jesus multiplica para o povo e por fim, se doa Ele mesmo como pão. Jesus não discute e nem rebate a proposta do diabo, mas se ancora na Palavra de Deus. Saciar a fome é um bem, mas a Palavra de Deus é uma riqueza muito maior e melhor para Ele. Contra esta tentação do prazer para si próprio, reforçar a prática da caridade.

Na segunda tentação, o diabo propõe a Jesus duas coisas fascinantes: glória e poder. Ao mostrar todos os reinos deste mundo, revela o seu poder nesta terra, mas há um grande engano escondido na proposta do tentador. O diabo “mostrou” o poder e a glória deste mundo: O mal procura sempre fascinar com o brilho de grandeza e poder, mas usa de um instrumento que lhe é próprio. Ele procura seduzir Jesus com uma mentira: que tudo lhe pertence. O mal jamais recebeu algo de Deus, pois tudo sempre pertenceu a Deus Criador e a humanidade que recebeu o mundo como dom para conservá-la. O diabo promete o que não pode dar. É a mentira que seduziu Adão e Eva no Paraíso. Jesus não precisa de poder e muito menos negociar com o diabo. O tentador propõe uma troca com Jesus: dá alguma coisa para receber algo. Jesus nunca quis “nada em troca” em tudo que realizou. A misericórdia de Deus ensinada e praticada por Jesus é sempre gratuita, generosa e abundante em relação a nós. Nosso Senhor rebate o tentador, novamente, com a Palavra de Deus lembrando que somente a Deus se deve ser fiel e servi-Lo. Jesus não precisa de mais nada para realizar sua missão, senão do poder que vem da sua relação com Deus Pai. Contra esta tentação de glórias e poder deste mundo, a proposta do Evangelho é reforçar a prática da renúncia através do jejum.

A terceira tentativa de desviar Jesus do caminho de Deus acontece na Cidade Santa, Jerusalém, em um lugar onde todo povo se reunia e qualquer coisa que lá acontecesse teria uma repercussão em Israel. O diabo tenta novamente semear dúvida desafiando Jesus: “Se és o Filho de Deus”. A tentação é de transformar tudo que recebeu de Deus em algo voltado somente Ele, Jesus. Fama e prestígio encantam ainda hoje muitas pessoas. Como naquele tempo, também hoje o povo ama “milagres”. Ser acudido pelos anjos seria um espetáculo que transformaria tudo em um show somente. O poder do amor não precisa de desafios, pois é sempre doação por parte de Deus. Mas, o diabo acrescenta algo diferente, ele cita a Palavra de Deus. O mal conhece as Escrituras, mas ela se torna somente um instrumento para seduzir e arrastar Jesus para seu projeto pessoal. Não basta conhecer a Palavra é preciso acreditar com o coração e traduzir em gestos concretos de vida, como nos diz São Paulo na 2ª leitura. A oração deve ser sempre a forma do cristão perceber qual é a vontade de Deus e o melhor modo de servi-Lo.

Importante reforçar sobre a Palavra de Deus. Ela nos mostra o verdadeiro rosto de Deus e de Jesus. Sem conhecer bem as Escrituras pode-se correr o risco de criar falsas imagens seja de Jesus como também de Deus.

Na tentação das coisas do mundo, o diabo quer fazer trocas com aquilo que pertence a todas as criaturas. Deus nunca faz comércio com o homem, Ele simplesmente doa o que nós precisamos sem pedir nada em troca. As tentações por parte do diabo procuram seduzir Jesus para que Ele procurasse satisfazer suas necessidades pessoas, possuir poder e glória em relação ao próximo e tentar Deus a produzir um grande milagre. O diabo que usa a Palavra de Deus, procura seduzir Jesus a usar das forças de Deus e de seus anjos para encantar e obter fama. Jesus termina também com a Palavra de Deus, mas compreendida em sua essência fundamental: devemos sempre servir a Deus! O exemplo de Jesus é essencial para nós: a escuta constante de Deus e da sua Palavra, estes são os instrumentos para vencer sempre as tentações e as ações do mal.

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