
#Reflexão: 25° domingo do Tempo Comum (21 de Setembro)
A Igreja celebra o 25° domingo do Tempo Comum, neste domingo (21). Reflita e reze com a sua liturgia.
Leituras:
1ª Leitura: Am 8,4-7
Salmo: 112(113),1-2.4-6.7-8 (R. 1a.7b)
2ª Leitura: 1Tm 2,1-8
Evangelho: Lc 16,1-13 ou mais breve 16,10-13
SER JUSTO SEMPRE E COM TODOS
As leituras deste domingo nos questionam sobre as consequências do apego aos bens deste mundo, especificamente ao dinheiro e a riqueza em geral. Amós (1ª leitura) apresenta um quadro da situação do seu tempo que parece ser também do nosso tempo: a malandragem daqueles que já possuem muitos bens em conseguir cada vez mais riqueza. O profeta lista as estratégicas dos negociantes e vendedores em explorar os pobres. O povo simples comprava bens de subsistência (trigo e azeite), mas eram trapaceados de diversas formas: no valor, no peso e na medida. A conclusão é óbvia: a riqueza desses ricos negociantes jamais poderia ser abençoada. O profeta Amós alerta: eles não serão esquecidos por Deus e terão que prestar contas de seus atos.
No Evangelho de Lucas, o tema principal é também sobre a riqueza. Mais uma vez nos deparamos com uma história (parábola) que nos questiona sobre o uso dos bens deste mundo. O personagem principal desta parábola não é um sujeito com atitudes a serem imitadas como também ocorre em outras parábolas contadas por Jesus em Lucas como a do “amigo inoportuno” (11,5-8) e do “juiz iníquo” (18,1-8).
Neste domingo, Jesus conta a história de um rico proprietário que confia tudo na mão de um administrador. Tudo lhe pertence e o empregado é chamado a cuidar com justiça dos bens do seu senhor. Jesus diz que este rico proprietário ficou sabendo da malandragem do seu principal administrador, o patrão já tinha notícias suficientes para mandar embora e processá-lo, mas resolve ainda dar a ele a possibilidade de se justificar ou se defender. A situação era tão crítica contra o administrador que lhe vem antecipado que não mais poderá administrar os bens do seu senhor. Ele prevê que perderá tudo.
O administrador desonesto se põe a pensar consigo mesmo buscando uma solução (“pensar consigo mesmo” próprio de Lucas, cf. Lc 15,17-19; 16,3;18,4; 20,13). Ele não procura estratégias para refaz o erro do passado, mas para garantir o seu futuro. Sabia que não teria chance para permanecer no emprego (ele no fundo admite que tinha sido desonesto), pois tinha se aproveitado indevidamente da confiança do seu senhor. O administrador sabe que teria somente duas atividades para seu futuro: trabalhar a terra ou mendigar. A primeira é uma atividade honesta e digna, mas que ele se justifica afirmando que não tem condições físicas para realizar (não era acostumado a este tipo de trabalho). Ele conhecia muito bem o esforço daqueles que labutavam para produzir o trigo e o azeite que ele roubava do seu patrão. A segunda solução seria para ele humilhante, pois não era nem pobre e nem doente para pedir esmolas (quem ajudaria um que teve tudo em suas mãos e usou injustamente?).
A solução pensada foi de aproveitar o pouco tempo que tinha ainda na casa do seu senhor (antes de se apresentar para prestar contas de tudo) para garantir um futuro nas mesmas condições em que se encontrava. Chama os devedores do seu patrão (são citados dois) e lhes propõe algo que seria benéfico para todos: fraudar os documentos de dívida. Ele pensou com as categorias daqueles que sempre estão envolvidos em corrupção e injustiça. Ao pedir para cada um reescrever suas dívidas, o administrador também compromete os devedores na fraude. A solução pensada era de envolver os credores do seu patrão de forma que ele pudesse pedir futuros favores ou até mesmo fazer ameaças. Pela quantidade de bens adquiridos, esses credores também eram pessoas ricas, talvez comerciantes e ele assim, teria alguma chance de pedir algo, algum favor para ele.
Segundo o costume da época, quem administrava bens de comércio, podia colocar algum valor a mais no valor final (emprestar com juros era proibido na Lei de Moisés: Ex 22,24; Lv 25,36s; Dt 15,7ss). Um comprador, ao contrair uma dívida com o patrão, o administrador acrescentava na fatura final algo que seria para ele. Assim, o “administrador infiel” da parábola estaria abrindo mão, em parte, daquilo que era o seu lucro pessoal (uma espécie de “atravessador” como nos dias atuais), mas os valores apresentados na parábola são exagerados (metade dos barris de azeite e 20% de trigo). Certamente, o administrador estava também prejudicando seu patrão, fraudando ainda mais além daquilo que estava fazendo de desonesto.
Temos, novamente, a palavra do Senhor da história (tudo indica ser o mesmo “senhor” dos vv. 3 e 5) que elogia não a forma de administrar do seu empregado (aqui chamado de “desonesto”), mas a esperteza e a estratégia para tentar garantir seu futuro. De fato, conclui o senhor na parábola, aqueles que são “filhos do mundo” são hábeis em explorar e roubar, esta é uma diferença para aqueles que são “filhos da luz”.
Fica claro no v.9 que, somente agora, Jesus diz algo. Em relação aos bens deste mundo, Ele aconselha a usá-los para fazer amigos. “Riqueza injusta” (originalmente é “mamona injusta”) significa tudo que está ligado ao dinheiro, Jesus convida a todos a usá-la para produzir amizade (fazer o bem) enquanto estivermos neste mundo. Deus dá chance até o momento em que teremos que prestar contas de nossa vida e do uso dos bens deste mundo. Na parábola de Jesus, o administrador usou do seu cargo para pensar em si somente; fraudando e diminuindo as dívidas ele criou condições de aliviar a dívida de outras pessoas.
O povo da Bíblia não vê a riqueza como uma maldição, mas como dom, uma graça de Deus. Ele concede a alguns mais bens e riquezas para que esses compartilhem com os mais necessitados. Assim, a riqueza não é para a pessoa, mas para que ela possa ajudar aqueles que na vida jamais terão condições de ter dignidade (os pobres, indigentes, idosos, viúvas…). O problema é que quem possui muito, sempre quer mais e jamais se recorda daqueles que nada têm.
O convite de Jesus para seus discípulos é procurar ser honesto já nas pequenas coisas para merecer as grandes. Tudo neste mundo é algo “pequeno” em relação aquilo que vamos receber: ser honesto como “filhos da luz” é garantir o melhor prêmio que será dado ao empregado bom e honesto. Aquele que usa mal as riquezas deste mundo transforma tudo em uma “divindade” que quer sempre mais sacrifício e ofertas, mas jamais conseguirá dar algum bem eterno e justo. “Mamona” (riqueza), assim, assume a imagem de uma divindade e todos que estão ligados a ela é como se servissem a um deus, mas um falso deus. A riqueza jamais deverá se tornar “fim” e receber das pessoas toda atenção (adoração), mas ela mesma ser instrumento para caridade e a solidariedade.
Ao final, Jesus é categórico e claro: não se pode servir a dois senhores, pois sempre um ficará em segundo plano. Não tem como estar em parte com o dinheiro e em parte com Deus; não tem como colocar como prioridade principal as riquezas deste mundo e Deus ao mesmo tempo.
O versículo que segue ao Evangelho diz que “os fariseus que gostavam do dinheiro, escutavam tudo isso, e zombavam de Jesus” (Lc 16,14). Inicialmente, a parábola e os conselhos foram dirigidos aos discípulos (16,1), mas a verdadeira intenção de Cristo era também tocar o coração corrompido dos fariseus.
Como se percebe, nesta parábola, Jesus parte talvez de algo que era conhecido e praticado normalmente em seu tempo, inclusive a habilidade daqueles que servem a “Mamona” (riqueza) e procuram sempre o melhor para si, mas através da injustiça e da desonestidade. Nosso Senhor esclarece que tal administrador é desonesto e representa os filhos deste mundo que servem a riqueza (Mamona) como se adora e se está a serviço de uma divindade. Precisamos caminhar como filhos e filhas da luz, usar das riquezas deste mundo para “fazer amizade” (bem aos outros) e servir somente Aquele que é capaz de nos dar bens neste mundo que estão acima dos bens materiais e que se estendem até a eternidade após nossa vida.

