
#Reflexão: 3° Domingo da Quaresma (08 de março)
A Igreja celebra o 3° domingo da Quaresma, neste domingo (08). Reflita e reze com a sua liturgia.
Leituras:
1ª Leitura: Ex 17,3-7
Salmo: 94(95),1-2.6-7.8-9 (R. 8)
2ª Leitura: Rm 5,1-2.5-8
Evangelho: Jo 4,5-42 ou mais breve 4,5-15.19b-26.39a.40-42
ENCONTRO COM A SAMARITANA
A história do encontro de Jesus com a samaritana não possui nenhum milagre, nem algo fantástico ou surpreendente, Jesus é descrito como alguém que está sozinho e cansado, por isso se mostra como alguém necessitado de água: elemento essencial para a vida. No deserto (1º domingo da Quaresma), Ele teve fome; agora, tem sede. Foi exatamente nesta situação tão singular que aconteceu algo grandioso para uma mulher. Jesus não possui nenhum preconceito contra nenhum tipo de pessoa, pois todos somos filhos e filhas de Deus.
No Evangelho de São João, esta passagem da Samaritana (Jo 4) está logo em seguida de outro encontro: com Nicodemos (Jo 3). Aquele homem, judeu e alguém da alta cúpula da religião judaica, estava dividido e indeciso: reconhecia os sinais de Deus em Jesus, mas não se decidiu, até naquele momento, por Jesus. Procura o Mestre a noite (com receios dos judeus) e mesmo depois de um diálogo franco e revelador com Jesus, não saiu da escuridão da incerteza para se encontrar com Jesus em plena luz.
O local e a região do encontro de Jesus com a Samaritana eram conhecidos de todos, inclusive pela profunda inimizade que reinava entre os judeus e os samaritanos. Mas, lá também havia o poço de Jacó, personagem este que – de qualquer modo – unia a todos em um único passado. Muitas histórias de amor na Bíblia tiveram início ao lado de um poço: Rebeca e Isaac, Gn 24; Raquel e Jacó, Gn 29; Zípora e Moisés, Ex 2. João evangelista, nos diz que era “meio-dia”, hora da plena luz quando Jesus se colocou ao lado do poço e uma mulher resolveu tirar água, justamente naquele horário, em um momento nada adequado, por isso, ninguém estava no local e ela estava sozinha. Talvez, aquela mulher tinha escolhido aquele horário para não se encontrar com ninguém, pois se sentia rejeitada e discriminada por todos. Em nossa realidade atual, muitos grupos, inclusive de religiosos, fazem questão de eleger os “escolhidos” e “prediletos” de Deus, bem como aqueles que são colocados como “perdidos” e “condenados” por Deus, Jesus encontrava com uma pessoa colocada como desprezível pelos religiosos da época.
Jesus, vendo a mulher se aproximar, lhe pediu um pouco de água. Ele poderia resolver sozinho seu problema, mas era oportuno que solicitasse água para a samaritana, pois este seria o início de sua transformação. Jesus que é rico e sempre fez de tudo para os outros se mostrou necessitado e pediu algo que aquela mulher poderia conceder (ninguém nega um pouco de água a um necessitado).
A primeira reação da samaritana foi de espanto, pois ela sabia que Jesus não era um samaritano e ademais, ela era uma mulher e Jesus um homem. Ela não recusou, mas se espantou pela solicitação que vinha de alguém (um judeu) que jamais faria isso. O primeiro nível de relacionamento que ela lembra é do preconceito e da discriminação. Ela tinha sempre experimentado somente o negativo no relacionamento com as pessoas. Jesus não entrou neste jogo e nem rebateu suas observações, mas lhe ofereceu o essencial: “se conhecesses o dom de Deus…”, esse é totalmente contrário aos muros e aos obstáculos que as pessoas erguiam e erguem para isolar e discriminar outras pessoas.
Jesus afirma que da parte de Deus não há obstáculo, mas “dom” (oferta) que ela poderia encontrar e não recebida das religiões da época. As pessoas criam paredes com preconceitos; Deus oferece e doa a Si Próprio. No fundo, percebemos que, na realidade, Jesus não tem sede de água, mas da nossa sede por Ele; Ele deseja que nós O desejemos. O Noivo anseia ser amado (Ermes Ronchi).
O Mestre Jesus iniciou um diálogo, procurando mostrar algo mais profundo e fundamental: tudo iniciou com um “pouco de água” para matar a sede e Jesus lhe propôs de conhecer o dom de Deus que concede “água vida”. Entrando na conversa, a mulher questionou Jesus, chamando-o de “senhor” (sinal de respeito) e entrou no campo religioso, questionando se Ele era maior que “nosso pai Jacó”. Ela se mostrou uma pessoa religiosa que conhecia as Escrituras, mas ainda se revelou fixa a algo exclusivo e material.
Jacó deixou um poço que podia dar uma água que somente matava a sede do corpo; mas Jesus foi e é aquele que pode inundar toda a pessoa com uma água de “vida eterna”. A água do poço saciava uma necessidade física e pessoal; mas a água de Jesus transforma o discípulo em fonte de água viva para outras pessoas.
A samaritana viu uma solução para parte de seus problemas: não teria mais sede e nem viria até aquele lugar ao meio dia, horário de sol escaldante. Jesus trouxe a questão para a principal fonte de seus problemas: sua vida familiar. Ao pedir para que ela chamasse seu marido, Jesus tocou no campo pessoal e ela simplesmente poderia ter dado várias respostas, mas resolveu ser sincera: ela já estava no sexto casamento. Naquele tempo, somente o homem é que pedia divórcio e assim, repudiava sua mulher, a Samaritana estava no sexto marido. Talvez ela tivesse ficado viúva, ou teria sido repudiada por todos os cinco e o atual não a tinha ainda efetivamente como sua mulher. Essa história era conhecida de todos e ela tinha escolhido pegar água no poço para não ter que enfrentar a discriminação de seu povo. Uma história pessoal de rejeição e abandono, mas Jesus lhe ofereceu a solução.
Na Bíblia, o número seis está ligado à imperfeição e o sete é o número que completa tudo. Jesus se apresenta com o verdadeiro marido (o sétimo), mas não como os outros, como da mesma forma que a água viva e eterna não era aquela do poço. A samaritana ao ouvir parte de sua história com os maridos, reconheceu Jesus como um profeta. E Jesus não lhe fez nenhum sermão ou exigência, muito menos qualquer discurso moralista ou de ameaça.
A samaritana, após reconhecer Jesus como um profeta, lhe apresentou outro drama que todos viviam: o local de adoração. Os samaritanos não tinham mais o templo no alto do monte Garizim e eles não podiam jamais adorar em Jerusalém. A pergunta da mulher sobre o local de adoração revelou uma necessidade de adorar a Deus e Jesus aprofundou mais uma vez a questão, mostrando que o primeiro e o principal local de adoração é em Espírito e Verdade. Deus Pai quer seus filhos e filhas em uma vida de pleno amor (Espírito) e de testemunho (Verdade).
A samaritana deu mais um passo em relação ao conhecimento de Jesus e Lhe apresentou a questão do Messias e Jesus, sem nenhum rodeio, lhe disse que era Ele. A samaritana, com a chegada dos discípulos abandonou seu jarro e retornou à cidade. Até aquele momento, a água do poço era o mais importante. Jesus tinha dito que a sua água transformaria todos em fonte de água viva, assim, ela convocou e disse a todos o que aconteceu. A sua fraqueza e sofrimentos (sua realidade pessoal com os maridos) se transformaram em motivos para o início de seu anúncio. Ela anunciou a partir de sua experiência pessoal e profunda com Jesus, revelando-O como o Messias esperado por todos. Nicodemos não teve coragem que a Samaritana teve: de abandonar seu jarro de água que sempre precisava ser enchido somente de água, sair e anunciar quem era Jesus
Aquela mulher vivia fugindo das pessoas e a sua experiência profunda com Jesus lhe deu coragem e firmeza em suas palavras, de tal forma que muitos samaritanos passaram a acreditar em Cristo por causa de suas palavras. Eles mesmos confirmaram pessoalmente tudo que ela tinha narrado e também se tornaram em novas fontes de água viva. Este é o principal instrumento hoje da Evangelização: pessoas inundadas do amor de Deus que testemunham a partir de suas vidas.
No quarto Evangelho, nesta passagem, Jesus tem sede e pede água a uma samaritana. A mesma expressão e desejo, encontramos no alto da cruz quando Jesus diz: “Tenho sede” (Jo 19,28), mas terá o amargor do vinagre como dom que Lhe oferecem.
Deus sempre faz de tudo para nos dar o que realmente precisamos. Na 1ª leitura, o povo mais uma vez se mostrou ingrato para com Deus e sempre reclamando pelas coisas que faltavam. O relacionamento para com Deus foi se tornando seco e árido. Aquela gente, mesmo bebendo água que saia da rocha não se deixava inundar pela plena confiança em Deus. O grande problema não eram as dificuldades encontradas no deserto, mas a falta de confiança e fé do povo. Deus sempre fará de tudo para nos ajudar a enfrentar os desafios de nossa jornada neste mundo, basta confiar Nele. Os desafios permanecerão e serão sempre corriqueiros, mas a forma de enfrentá-los, será diferente: será com Deus! Deus sempre fará o máximo por nós, até mesmo tirar “água de pedra”, mas é fundamental acreditar e confiar! Paulo na 2ª leitura lembra do imenso amor de Deus por nós até ao ponto de dar sua vida por todos, por isso, precisamos confiar sempre e ter fé, pois Ele já provou o seu amor por nós. Ele já provou que não somente é capaz de fazer jorrar água de pedra, mas derramou o seu próprio sangue para nos libertar do principal desafio para a humanidade que era o pecado. Quando o coração se transforma em pedra, é difícil fazer milagres, por isto é necessário se deixar tocar por Jesus que se coloca ao nosso lado, não para nos incriminar em relação aos nossos erros e pecados, mas para nos ajudar a experimentar da verdadeira água viva que jorra do coração de Deus e consequentemente, deve jorrar de nossos corações e de todos que estão ao nosso lado.

