
#Reflexão: 3° Domingo da Quaresma (23 de março)
A Igreja celebra o 3° domingo da Quaresma, neste domingo (23). Reflita e reze com a sua liturgia.
Leituras:
1ª Leitura: Ex 3,1-8a.13-15
Salmo: 102(103),1-2.3-4.8.11 (R. 8a)
2ª Leitura: 1Cor 10,1-6.10-12
Evangelho: Lc 13,1-9
PRODUZIR FRUTOS DE MISERICÓRDIA
Jesus, no Evangelho deste domingo, parte de duas situações trágicas que todos conheciam para ensinar como Deus é diferente de nós. Naquele tempo, como hoje, acidentes, doenças, fatalidades, catástrofes e, por fim, a morte eram e são vistos como uma espécie de castigos cujo “culpado” é sempre Deus.
Lucas inicia o Evangelho informando que Jesus estava ensinando quando as pessoas comentaram sobre um fato horrível: Pilatos tinha assassinado vários galileus e o sangue deles tinha sido misturado com sangue dos animais sacrificados. Os galileus eram conhecidos pela sua rebeldia. Em Atos (5,37) menciona uma revolta que terminou em uma tragédia onde todos foram mortos, inclusive seu líder, Judas. Nada sabemos sobre o fato mencionado por Jesus no Evangelho, mas parece se tratar de pessoas de fé que estavam em um lugar sagrado (bem provável que era o Templo de Jerusalém), no entanto tiveram uma morte horrível. Jesus, certamente, ouviu a resposta que tinham dado sobre a morte dos galileus e, em seguida, mostra que discordava da visão que todos tinham de Deus.
O pensamento de todos era que eles eram pecadores e por isto, Deus tinha “punido” a todos com a morte. Esta ideia era exatamente o contrário a tudo que Jesus procurava ensinar sobre Deus.
Nosso Senhor disse que aqueles mortos eram iguais a qualquer pessoa de seu tempo, mas – acrescenta Jesus – aquilo que realmente pode levar à verdadeira morte é a falta de conversão e não as coisas negativas que surgem em nossa caminhada (acidentes, doenças, fatalidades…), pois podem somente atingir o nosso corpo. A esta história do sangre dos galileus, Jesus acrescenta, por sua conta, o acidente da torre de Siloé onde morreram 18 pessoas. Neste caso, parece se tratar de uma fatalidade durante uma construção. Tais pessoas não eram nem mais e nem menos pecadoras que os outros habitantes de Jerusalém.
Naquele tempo como hoje, muitos medem o amor de Deus e a sua providência segundo as coisas boas ou ruins que acontecem em suas vidas. Se tudo está bem é mérito do esforço e do trabalho da própria pessoa, mas se acontece algo ruim é castigo de Deus.
Nós somos frágeis e com uma natureza limitada, pois o nosso paraíso não está neste mundo. Até o final de nossa existência, passamos por inúmeros desafios, doenças, acidentes… que nada mais são que resultados de obstáculos que encontramos em nossa vida ou mesmo de nossas escolhas erradas. Deus nos prometeu estar ao nosso lado, nos dando forças e graças para cumprirmos nossa missão neste mundo e vencer os desafios de nossa vida.
“Se vocês não se converterem, todos vocês perecerão” é a conclusão e o convite de Jesus que repete duas vezes. Não é uma ameaça, mas um lamento, um apelo: convertam-se, invertam a direção do caminho, mudem de mentalidade, sejam honestos até nas pequenas coisas, assim se vive na liberdade e no amor. “Arrependam-se, ou todos vocês perecerão”. É a oração mais forte da Bíblia, onde não é o homem que se volta para Deus, mas é Deus quem ora ao homem, que nos implora (Ermes Ronchi).
Jesus sempre procurou mostrar que nosso Deus é diferente de nós e do nosso modo, muitas vezes, interesseiro e maldoso de agir. Para ilustrar isso, o Mestre Jesus conta uma parábola de um agricultor que tinha uma propriedade e árvores frutíferas (figueira e videiras). No início da parábola, Nosso Senhor procura retratar Deus conforme a ideia de todos e depois mostra como Ele realmente é. Segundo Jesus, o dono da propriedade plantou uma figueira em uma vinha. O local da figueira deveria ser junto às outras árvores frutíferas, mas o dono resolveu colocar no meio da vinha onde estavam as plantas mais estimadas. Tal figueira recebeu toda atenção possível, mas quando chegou o tempo da figueira “retribuir” tudo que tinha recebido, ela nada produziu. Segundo Jesus, o patrão por três anos procurou frutos e concluiu que tudo que foi feito para a figueira, foi em vão. Até aqui, a descrição era de como o povo via Deus: “alguém” que cobra sempre algo, dá com interesse, investe querendo algo em troca… A paciência de Deus (segundo aquelas pessoas) era curta e limitada (três anos). Imaginar Deus dessa forma é quase que afirmar que, na realidade, Deus é que é a nossa imagem e semelhança e não o contrário.
Entra em cena o vinhateiro que trabalhou e cuidou de todas as árvores do local. O Evangelho nos tira dos campos da morte e nos acompanha para os campos da vida, para uma visão de poderosa confiança: é a parábola da figueira no meio da vinha. “Venho aqui procurando há três anos, nunca encontrei uma única fruta nesta figueira, estou cansado, corte-a. Não, mestre!” É a imagem que até João Batista apresenta de Deus no início do seu ministério: um Deus com machado na mão (cf. Mt 3,10). O sábio fazendeiro, que é Jesus, diz para tentar de novo, mais um ano de trabalho e então veremos. Mais tempo: o tempo é o mensageiro de Deus. Mais sol, chuva e cuidado, e talvez a árvore – que somos nós – dê frutos. Tal personagem encarna muito bem a figura de Jesus. Alguém que está trabalhando em meio às árvores, que se compadece de todas, faz de tudo para que cada uma produza frutos.
No diálogo entre o proprietário e o vinhateiro, este último convence seu senhor a dar mais uma chance: mais um ano. E neste tempo, o vinhateiro vai investir ainda mais com tudo que for necessário para que a figueira na vinha do Senhor, finalmente, produza frutos. Jesus Jardineiro confia em nós: a árvore da humanidade é saudável, tem boas raízes, implora paciente. Paciência não é fraqueza, mas a arte de viver o inacabado em nós e nos outros. Ele não tem um machado na mão, mas a humilde enxada para nos ajudar (E. Ronchi).
Conforme as palavras de Jesus, Deus poderia fazer eternamente tal ação misericordiosa e providente, mas nós não somos eternos. Um dia deveremos estar diante de Deus para apresentar ou não os frutos de tudo que recebemos da parte de Deus. A vida de Jesus como bom vinhateiro que intercede por cada um de nós diante de Deus e faz de tudo para que cumpramos nossa missão nesta terra, não pode fazer tudo por nós, isto é, cada um (como cada árvore) precisa corresponder ao amor de Deus. Jesus em sua vida, não deu uma solução definitiva para os nossos sofrimentos, Ele assumiu e carregou sobre si até a morte em Cruz. Assim, produzir frutos não é algo que interessa a Deus, mas é essencial para cada um de nós.
Nosso Deus é um Pai que vem ao encontro de seu povo. Conforme ouvimos na primeira leitura, Deus nosso Pai vê as nossas angústias, escuta nosso clamor e “desce” ao nosso encontro para nos libertar. Mas, ele precisa que assumamos nossa missão, não basta se aproximar para ver um fato extraordinário, movido pela curiosidade, é preciso ter uma postura de comprometimento. O mal sempre vai procurar nos distanciar do projeto de Deus (conforme nos lembra São Paulo na segunda leitura) como tentou o povo do Antigo Testamento, mas a ação e a presença misericordiosa de Deus (próprio Senhor Jesus) sempre esteve presente e sempre foi atuante a favor de sua gente.
É preciso aproveitar o tempo que temos neste mundo, onde fomos “plantados” por Deus. Procurarmos dar razão e valor a cada esforço e dedicação de Jesus que cuida de nós, mas nós precisamos produzir frutos para que a vinha do Senhor fique mais bela e tantos outros possam se alimentar dos frutos que nada mais são do que graça de Deus em nossa vida e deve ser na vida de tantas outras pessoas.