#Reflexão: 4° Domingo da Quaresma (30 de março)

26 de março de 2025

A Igreja celebra o 4° domingo da Quaresma, neste domingo (30). Reflita e reze com a sua liturgia.

Leituras:
1ª Leitura: Js 5,9a.10-12
Salmo: 33(34),2-3.4-5.6-7 (R. 9a)
2ª Leitura: 2Cor 5,17-21
Evangelho: Lc 15,1-3.11-32

Acesse aqui as leituras.

PARÁBOLA DO PAI MISERICORDIOSO

            A parábola do Filho Pródigo é um dos maiores tesouros deixados por Jesus para compreendermos quem realmente é Deus Pai. Lucas nos diz que o motivo que levou Jesus a contar esta belíssima história de um pai com dois filhos está ligado à questão da acolhida por parte de Cristo de pessoas consideradas pecadoras pelos judeus.

Esta conhecidíssima parábola não diz somente quem é Deus Pai. Ela também nos questiona sobre a imagem que temos de Deus. A primeira e a segunda leituras nos lembram de “momentos de passagens”. O povo de Deus que entrando na Terra Promessa deixa para traz o maná, pois poderão trabalhar e produzir na terra que iriam herdar; Paulo nos recorda da passagem do pecado para a salvação que a fé em Cristo deve nos conduzir. A parábola de Jesus é um grande convite e entrarmos verdadeiramente no coração de Deus Pai e abraçar o modo novo e cheio de misericórdia de Deus Pai para com cada um de nós.

Jesus na parábola inicia descrevendo uma realidade cotidiana: um pai e dois filhos. Observando o modo de comportar-se do pai nesta história, notamos que ele é pouco racional, lógico e legalista em seus atos e comportamento. Faz tudo movido muito mais pelo coração e sentimentos, deixado de lado regras quando se trata de resgatar uma pessoa. Podemos dizer que ele é muito mais “mãe” do que “pai”, ou melhor, ele é pai e mãe ao mesmo tempo. É o melhor exemplo do que significa “compaixão”: ir de encontro e abraçar com ternura.

Apesar dos bens que ele possuía o pai sempre esteve interessado somente nos filhos, mas respeitava as escolhas e atitudes dos dois. Os discursos e interesses dos filhos se limitam a posse, a perda, aos privilégios e à exclusão dos bens da família; o Pai do início ao fim está interessado na verdadeira felicidade dos dois filhos, mas isto eles são chamados a descobrir pessoalmente. É um Pai que ama a liberdade dos filhos.

Os bens acumulados pelo pai serviram somente para despertar no filho mais novo um desejo cada vez maior de busca pela felicidade. Na casa com seu pai, do seu irmão e dos servos, o caçula achava que tudo que era comum a todos e que tudo não era suficiente para ele ser feliz: ele queria ter somente para si, para usar do seu modo, onde e com quem quisesse. Ao pedir sua parte na herança, ele decreta o rompimento total com seu pai: herança se divide quando o pai morre, ele não quis esperar este momento. Tendo seu pai e irmão ao seu lado, ele vivia com outros sonhos, em outros lugares que ninguém de sua casa fazia parte. Um sonho somente seu, sem ninguém de sua família.

Como muitos, o filho caçula procurava felicidade nas coisas materiais, mas isto jamais será suficiente. O coração do ser humano não se preenche com coisas, mas com pessoas. Ao abandonar sua casa, deixa para traz tudo que sempre possuía e que poderia, desde o início, lhe proporcionar felicidade: sua família e a sua casa. Pensava que ganharia tudo de bom dando as costas para os verdadeiros tesouros em sua vida: ele leva coisas materiais e riquezas que somente fazem peso em seu coração e em sua vida.

“Parte para terra estrangeira”. O filho não abandona somente sua família, mas dá as costas a todas as suas raízes e até mesmo a fé em seu Deus. Liberdade para ele era se desligar de tudo que já tinha experimentado. Quando perde tudo de material (dinheiro e bens pessoais), se encontra sozinho em meio aos porcos (este animal além da sujeira era considerado impuro pelos judeus). “Ele cai em si”, talvez ele nunca tinha realmente “entrado” em si mesmo para saber onde estava o seu verdadeiro tesouro. Quando perde tudo de material, ele se lembra das pessoas (seu pai e os servos) e do mínimo que possuíam (pão em abundância na mesa). Ele deixou um pai e ganhou um patrão desconhecido; abandonou a mesa com pães para comer lavagem de porcos. Desprovido de tudo, ele se lembra “na casa de meu pai”. Ele que queria “ser livre” se encontrava roubando comida dos porcos.

A motivação da volta do filho não foi por princípios nobres. Sua conversão não foi por remorso do que tinha feito ou porque tinha se arrependido da sua loucura, mas porque não tinha o que comer. Ele retorna para sua casa porque está com medo de morrer de fome. Mas, seu pensamento ainda se mostrava errado em relação ao seu pai. Não volta buscando um Pai, mas um patrão; não retorna por senso de culpa, mas porque passa necessidade; não se dirige para sua terra por amor, mas por medo de morrer de fome.

“Não dão de comer”, porque em uma sociedade onde impera a lógica da troca entre pessoas (lógica do comércio), o jovem filho não tinha mais nada para oferecer, assim, as pessoas e o mundo também não têm nada para dar para aquele que passa forme. O filho que era príncipe em sua casa, pede ao pai para ser rei de sua própria liberdade, mas depois se torna servo de porcos.

Mas, para o Pai (Deus), nada disso tem importância. Para Ele não importa quais são os motivos que nos levam para os seus braços. A motivação da volta do filho foi a “saudade dos pães de casa”; para o Pai, o importante é retornar para casa. O essencial é caminhar em direção a Ele e dar os primeiros passos.

Detalhe importante do olhar do pai. Ele olha já de longe, mas não para punir e julgar, mas olha e se enche de compaixão. Não vê o que o filho que perdeu tudo de material, mas um filho que está retornando. A pessoa é o centro de sua preocupação.

Ao se aproximar da casa do pai na condição mais baixa e suja que se encontrava, o filho menor ensaia algumas palavras que não têm nenhuma importância e sentido para o Pai. Para Deus, basta o desejo de retornar para o seu convívio para Ele sair ao encontro. O filho volta caminhando, o Pai sai correndo ao seu encontro ainda na estrada; o filho, ao invés de se jogar aos seus pés, o pai se lança ao seu pescoço (não para sufocá-lo), mas para abraçá-lo. O filho estava sujo e impuro, maltrapilho e fedendo, o seu pai se abaixa para resgatá-lo não se importando em se sujar e se contaminar ao abraçar seu filho. É um Pai (Deus) eternamente aberto ao encontro.

O filho apresenta ao seu pai outro discurso: o primeiro foi para pedir sua parte na herança, agora para pedir pão. Ele ainda estava amarrado ao passado e pensando que tinha perdido seu pai, por isto almejava um lugar entre os servos. Mas, para o Pai basta o retorno do filho aos seus braços. Na casa do Pai, ninguém passa necessidade, todos têm tudo em abundância (antes, o filho não tinha percebido isto), pois o Pai era e continua sendo a fonte de tudo de que eles precisavam.

O Pai (Deus) lhe perdoa tudo, pois quer resgatar o filho e por isto procura refazer tudo que tinha sido perdido (simbolizados no anel, roupa, sandálias e no banquete). O filho é perdoado não com decretos e sentenças, mas com gestos, beijo, carinho e festa. O abraço e a festa selam o tempo novo; o passado ficou para trás e serviu para trazer o filho cheio de vazios para que o pai pudesse encher com seu amor; para o Pai, o importante é o presente e o futuro, por isto, se faz festa e todos se alegram: o passado ficou no passado.

O Pai se alegra, pois o que sempre foi importante para ele era a presença do seu filho e ele tinha resgatado em seus braços são e salvo. O filho que antes girava entre coisas e muitos sonhos, descobriu no abraço do seu Pai que a maior riqueza que ele sempre teve e não valorizou era o seu pai e a sua casa. Ele descobriu o rosto, o beijo e o abraço quando perdeu tudo de material. Entre os porcos, ele sentia que não tinha nada mais neste mundo, mas estava enganado, pois o seu verdadeiro tesouro, nunca esteve em seu bolso e em suas mãos, mas no abraço do seu pai.

O irmão mais velho, este não se mostrou tão diferente do seu irmão mais novo. Com ele a parábola ganha a profundidade desejada por Jesus. A cena deixa a festa e a alegria da casa para contar a história do filho mais velho. A última cena é triste. Ele retorna do seu trabalho. Ele escuta a música, mas não sorri, tem coração de mercenário (faz tudo por interesse e dinheiro). Este filho é um bom trabalhador, obediente, mas infeliz. É triste, pois não ama o que faz, e não faz as coisas que ama. O filho mais velho se revela, pois vê a festa como algo injusto: não se faz festa para quem não merece! Ele também se sente injustiçado, pois vê o pai como patrão e ele como servo que trabalhou toda a vida e para ele, nunca foi feita uma festa. Mas, o pai não quer servos ao seu redor. Sai também ao encontro do filho que ficou pela estrada (com o outro), o trata com doçura e compreensão.

Em seu discurso na estrada e fora da casa (como o filho mais novo) se mostra também longe da casa e do seu Pai. O vê como um patrão e trabalha esperando algum retorno material (um cabrito). Vê também o pai como um patrão, por isso, também não enxerga seu irmão. Tem inveja do seu irmão que desconsidera na conversa com o Pai chamando de “seu filho”. O mais novo esbanjou com prostituta, ele sonha festejar com os amigos. O Pai também não faz parte dos projetos do mais velho.

Mais uma vez, o Pai Misericordioso se mostra aberto para abraçar e acolher, unir e redimir, encher de compaixão e derramar seu amor. Ele procura mostrar para o filho mais velho o essencial de tudo: a vida, o irmão, a alegria, a partilha e a festa pelo retorno. Um coração cheio de leis e obediência serviçal jamais entenderá o que significa a generosidade que somente a Misericórdia de Deus possui.

Mais do que procurarmos nos ver em um dos filhos, temos que ter como modelo a misericórdia desconcertante do pai que vê somente o bem dos filhos e não os bens que possuem. O filho que temos como modelo é Jesus Cristo, Filho amado do Pai que repete com todos o mesmo amor misericordioso que recebe do Pai. A parábola se encerra deixando uma grande questão: o filho mais velho também entrou na casa?

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