
#Reflexão: Domingo da Divina Misericórdia (27 de abril)
A Igreja celebra o neste domingo o domingo da misericórdia (27). Reflita e reze com a sua liturgia.
Leituras:
1ª Leitura: At 5,12-16
Salmo: 117(118),2-4.22-24.25-27a (R. 1)
2ª Leitura: Ap 1,9-11a.12-13.17-19
Evangelho: Jo 20,19-31
MEU SENHOR E MEU DEUS
A Páscoa de Cristo é o centro da nossa fé cristã, pois acreditamos que tudo que Jesus Cristo enfrentou e principalmente a sua ressurreição foram vitórias também para nós: seguindo os passos do Mestre Jesus, também nós venceremos a morte. Os diversos textos que retratam as primeiras manifestações de Cristo Ressuscitado não escondem as dificuldades de todos os apóstolos e discípulos para entender, mas principalmente, para acreditar em tudo que estava acontecendo. Tais relatos são preciosos, pois ajudaram a Igreja de Cristo a perseverar em como anunciar algo que não se pode provar fisicamente.
Os textos da ressurreição, quase sempre, partem da dura realidade que os discípulos e apóstolos ainda estavam vivenciando em relação a tudo que tinha acontecido dias atrás com o Mestre Jesus. A última imagem para alguns tinha sido a morte durante a crucificação, para outros o corpo depositado no sepulcro. Mas, Cristo Senhor ressuscitado foi paciencioso com todos os seus discípulos e aos poucos foi resgatando cada um com um gesto ou uma palavra que tinha ficado como forte sinal do Dele durante o tempo convivência que tiveram.
O Evangelho deste 2º domingo da Páscoa relembra a experiência do grupo dos apóstolos que recebe a visita de Cristo Ressuscitado. A serenidade de Nosso Senhor para com os discípulos revela mais uma vez a grande misericórdia de Deus que procura se adaptar e a nivelar-se às nossas dificuldades de entender e de acreditar.
Aquele “primeiro dia da semana” (como nos diz o Evangelho de São João e na 2ª leitura), logo após a Páscoa dos judeus, se transformou no dia da Páscoa de Jesus. Desde o amanhecer, vários discípulos (começando com as mulheres) experimentaram a presença do Ressuscitado. Além dos sinais da ressurreição (como sepulcro vazio e os panos dobrados), Cristo se mostrou aos seus discípulos que não esperavam tal reviravolta em relação a tudo que tinham experimentado.
João conta em seu Evangelho que tudo aconteceu quando todos estavam reunidos. Talvez depois de várias manifestações do Cristo Ressuscitado, eles resolveram se encontrar para discutir, compartilhar suas experiências, rezar e procurar entender o que estava acontecendo. Muitas perguntas e dúvidas ainda pairavam sobre o grupo. Naquele dia da Páscoa de Jesus, nem todos estavam presentes. Judas tinham escolhido um caminho sem volta e Tomé não se encontrava junto com os outros apóstolos.
Os discípulos e apóstolos se reuniram movidos ainda por tantos temores e dúvidas, mas mesmo assim, estavam juntos. Tinham aprendido que como grupo é mais fácil entender e descobrir a vontade de Deus. O medo ainda rondava a todos (“portas fechadas… por medo dos judeus”). João nos fala que Cristo “se fez presente no meio deles”. Ele deve ser sempre o centro, mesmo que ao redor, tudo se mostre espantoso, mas Jesus é maior.
Duas atitudes de Cristo marcaram aquele encontro com os discípulos: Ele deseja paz e mostra suas mãos e o lado aberto. A paz, certamente, foi um dos dons que mais Jesus insistiu em sua vida seja em seus ensinamentos como em suas ações. Ela é fruto da experiência e da comunhão com nosso Deus que é sempre misericordioso. Paz não significa “não ter problema”, “não enfrentar dificuldades”, mas sim, equilíbrio interno com o externo (com o mundo) e somente Deus é capaz de nos dar esta tranquilidade. Uma pessoa pode estar cercada de desafios e problemas (como os discípulos), mas se Jesus vivo está no centro de tudo, tal pessoa, certamente, estará em paz. O gesto de Jesus mostrar os sinais da crucificação (Ele o faz duas vezes) é uma forma de confirmar que não se trata de um fantasma ou ilusão, mas é o mesmo e próprio Senhor Jesus que eles conheceram. Não existe Páscoa sem a cruz. A Ressurreição de Cristo não cancela a Sexta-feira Santa, mas a transforma e dá um novo significado para toda a humanidade. Cruz e Páscoa fazem parte da mesma estrada que nos conduz a Vida Eterna, porque a morte em cruz de Jesus não foi um fato qualquer e comum, mas algo que mudou o destino da humanidade: a morte não é mais o “último ponto” para todos; Cristo a transformou em uma porta que se fecha para esta história, mas que se abre para a eternidade. Para nós cristãos, morte é passagem.
Jesus Ressuscitado deixa claro que o dom maior que Ele quer confirmar nos corações de todos é a paz e não a vingança ou o ódio. Era necessário que eles recebessem esta primeira graça para transmitir aos outros. Por isto, Cristo concede outro dom através do sopro (lembrando Deus na criação no Gênesis): perdoar os pecados. O mundo ao redor deles estava impregnado de ódio e de ira contra o Deus da Misericórdia de Jesus e os discípulos não poderiam entrar naquele mesmo jogo de violência. Precisavam semear paz e misericórdia, assim, Jesus os transforma em semeadores da paz e do perdão dos pecados. Jesus relembra que a missão que estava dando a todos era a mesma que Ele tinha recebido de Deus Pai: continuar destruindo o mal em sua forma mais profunda que é o pecado. Assim, os discípulos são transformados em ministros da reconciliação. Todos nós cristãos somos chamados a viver a prática do perdão dos pecados, principalmente, através do Sacramento da Reconciliação.
“Oito dias depois Jesus veio, a portas fechadas”. Conforta-me pensar que, mesmo que o encontre fechado, Ele não vai embora, mas continua o seu cerco suave e implacável. Oito dias depois ele ainda está lá: o “abandonado” volta para aqueles que só sabe abandonar; o “traído” volta para aqueles que O entregaram aos inimigos. Ele veio e ficou no meio deles. Suas aparições nunca têm o clamor de uma imposição. O Ressuscitado não se preocupa consigo mesmo, mas com: as lágrimas de Madalena, com as mulheres que vão, ou melhor, correm, para perfumar o seu corpo torturado; com os medos dos apóstolos; com as dificuldades de Tomé; com as redes vazias de seus amigos quando retornam ao lago onde tudo começou. Ele ainda e sempre tem aquele “avental na cintura” (de Quinta-feira Santa). Ele não vem pedir, ele vem trazer ajuda. É por isso que é inconfundível (Ermes Ronchi).
Mas, João evangelista nos diz que naquele primeiro encontro da comunidade dos discípulos de Cristo, Tomé não estava presente. Talvez ele ainda estivesse procurando entender o que estava acontecendo. Ele era uma pessoa de fé e deve-se valorizar a coragem deste apóstolo, os outros estavam fechados no Domingo de Páscoa e Tomé estava fora do local, talvez o seu erro foi de procurar tudo segundo os seus critérios, sozinho e seguindo uma lógica pessoal das coisas.
Tomé deve ter procurado os discípulos depois daquele primeiro encontro no domingo de Páscoa e eles devem ter narrado com alegria aquilo que tinham visto, recebido e experimentado: “Vimos o Senhor”. Não uma fé pessoal ou solitária, mas da comunidade. Tomé ainda estava fechado em seu mundo pessoal, acreditando segundo seus critérios e ainda querendo condicionar Jesus aos seus princípios de fé. As exigências que Tomé impõe para acreditar são todas pessoais: Se não vir… se não puser… se não introduzir. No fundo, ele não acredita no testemunho de fé da Igreja de Cristo, ele mesmo queria experimentar o que eles testemunhavam.
Mas, Deus é sempre paciencioso e misericordioso. Não espera ter discípulos perfeitos, mas autênticos. Uma semana depois da primeira manifestação significativa para a comunidade de fé de Cristo, novamente no dia da Páscoa de Jesus, domingo, Nosso Senhor se fez presente com as mesmas palavras e gestos. Desta vez, Tomé estava lá, talvez curioso ou já arrependido de sua procura pessoal pelo ressuscitado. Cristo, logo após saudar a todos, resolveu se submeter aos “caprichos” e às exigências de Tomé para acreditar. Agora tudo era diferente: tudo teria acontecido dentro da comunidade em oração. Mas, a história com Tomé percorreu outro caminho.
Aquele discípulo que se mostrava tão distante e até descrente, em comunidade, redescobre a verdadeira fé. A sua frase: “Meu Senhor e Meu Deus” é uma profunda revelação da fé em Cristo como Senhor e Deus. Apesar de suas exigências pessoais e até da “submissão” de Jesus aos seus desejos para que ele pudesse crer, tudo indica que Tomé não tocou em Cristo. O testemunho e a fé em comunidade, possivelmente, já tinham sido suficientes para que ele acreditasse em Jesus, seu Senhor e Deus. Não era mais necessário tocar, mas a sua fé (redescoberta em comunidade) já tinha aberto os seus olhos e o seu coração: se trata realmente do mesmo Jesus que ele amava!
A experiência de fé dos discípulos e apóstolos são os principais instrumentos de nossa fé em Cristo ressuscitado. Acreditamos, porque muitos acreditaram e acreditam e assim, como comunidade, experimentamos juntos a paz de Cristo e recebemos todos os dons que Deus quer sempre nos dar para que possamos sair pelo mundo, sem medo e viver a nossa fé em Cristo.
A partir da experiência do ressuscitados, os apóstolos se tornaram testemunhas mais qualificadas para anunciar a paz, como vemos na 1ª leitura com Pedro e com João na 2ª leitura. Testemunhas que transformam os sinais da presença de Cristo Ressuscitado no próprio sentido da vida.
Em comunidade de fé, no dia especial da Páscoa de Jesus (o domingo, como também nos lembra a segunda leitura) sempre somos revigorados e alimentados com a presença de Cristo Vivo que é o nosso centro e a nossa vida. Fortalecidos pelo Jesus Ressuscitado podemos caminhar pela vida até nossa jornada final junto de Deus.

