Marcos: o primogênito entre os evangelhos canônicos

2 de maio de 2026

Antes de conhecer melhor o evangelho canônico mais antigo da tradição cristã, aquele escrito segundo São Marcos, é imprescindível observar dois aspectos que se aplicam aos quatro evangelhos canônicos: em primeiro lugar, faz-se necessário saber que cada evangelho é um texto “segundo” e não “de”; tendo em vista que a preposição “de” estabelece uma relação de subordinação entre uma realidade que é considerada posse de outra, a expressão “evangelho de Marcos”, por exemplo, não é teologicamente pertinente. O evangelho é sempre “Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus” (Mc 1,1), que foi escrito “segundo” a catequese de um dos quatro evangelistas. Por isso, o solene anúncio do evangelho na Santa Missa é introduzido pela exortação: “proclamação do evangelho de Jesus Cristo segundo Marcos, Mateus, Lucas ou João”. Dessa forma, mesmo que, corriqueiramente, se diga “evangelho de”, é importante saber que é sempre melhor empregada a expressão “evangelho segundo”.

Em segundo lugar, a utilização do advérbio “provavelmente” em relação à data, lugar, autor e destinatários de um evangelho é fundamental, ainda que não apareça declaradamente num texto como este. O estudo de Sagrada Escritura é um trabalho dinâmico e repleto de possibilidades de novas descobertas históricas, de modo que, embora se apresente a hipótese mais confiável sobre um determinado tema, ela nem sempre é uma verdade única e absoluta. A ciência bíblica é porosa e evolui sendo dinamizada por diferentes teorias; logo, todo o conhecimento histórico que foi reunido pela crítica literária e pela análise acadêmica dos textos bíblicos e dos seus contextos é uma verdade aproximada, ou seja, constitui uma tentativa de explicar, porém encontra-se em perene estado de desenvolvimento. Portanto, é possível encontrar informações divergentes das que serão apresentadas aqui noutras fontes de leitura e não existe nada de equivocado nisso; tudo depende da escolha epistemológica que foi realizada por quem está escrevendo o texto sobre os evangelhos.

Realizadas essas advertências preparatórias, é chegada a hora de conhecer mais de perto o evangelho segundo Marcos; embora seja verdade que os evangelhos foram escritos por grupos que acolheram a mensagem de Jesus através da catequese dos apóstolos e de seus colaboradores, e não por autores individuais como o senso comum acredita, faz-se pertinente conhecer quem é este tal de Marcos a quem uma das comunidades cristãs do século I atribuiu a autoria do primeiro evangelho canônico. João Marcos era um judeu filho de Maria, possivelmente uma das mulheres do grupo de Jesus, em cuja residência os cristãos se reuniam para rezar (cf. At 12,12), e primo de Barnabé (cf. Cl 4,10), com quem acompanhou Paulo em parte de sua primeira viagem missionária (cf. At 13,5-13). Seu nome significa “agraciado por Deus e guerreiro”, pois João (יוֹחָנָן), de origem hebraica, designa que Deus é gracioso, e Marcos (Μάρκος), de origem grega e relativo ao deus Marte, refere-se à guerra.

Abandonando o apostolado missionário ao lado de Paulo (cf. At 13, 13) e causando com isso um desentendimento entre o apóstolo e seu primo (cf. At 13,36-38), Marcos acompanhou Barnabé numa missão pela região de Chipre, mais tarde (cf. At 13,39). Segundo a tradição, depois de dedicar-se fielmente a acompanhar Pedro em seu apostolado junto às comunidades de Jerusalém e de Roma, sendo seu secretário e filho espiritual (cf. 1Pd 5,13), João Marcos retirou-se para a região do Egito, onde fundou comunidades que deram origem ao cristianismo de tradição copta e se tornou o primeiro bispo da cidade de Alexandria. Por volta do ano 74 d.C., inconformados com o testemunho de Marcos que convertia muitas pessoas, um grupo de pagãos o enforcou e arrastou seu corpo por dois dias consecutivos pelas ruas de Alexandria. Em 829 d.C., mercadores transladaram os restos mortais do evangelista para Veneza, onde são venerados na imponente basílica de estilo bizantino que se encontra no centro histórico da cidade italiana

O evangelho segundo Marcos é, realmente, uma compilação das catequeses de Pedro, de modo que vários escritores dos primeiros séculos, como Pápias de Hierápolis (70-155) e Irineu de Lião (130-202), identificaram o seu autor como sendo um verdadeiro “intérprete de Pedro”; radicalizando essa ideia em sua obra Diálogo com Trifão (cf. cap. 6,3), São Justino (100-165) chamou esse evangelho de “Memórias de Pedro”. Dessa maneira, pode-se deduzir o seguinte: muito provavelmente, o texto segundo Marcos, escrito em língua grega, nasceu em Roma, através da colaboração de cristãos que, impactados pela morte de São Pedro, entre 64 e 67 d.C., acharam por bem registrar os ensinamentos do grande apóstolo; sendo Marcos seu assistente, coube-lhe, juntamente com a sua comunidade de fé, o encargo de escrever os ensinamentos petrinos, destinando-os aos pagãos de origem romana, por meio de um trabalho redacional coletivo que se desenvolveu entre os anos de 64 e 70 d.C..

A comunidade de Roma que, catequizada por Marcos, escreveu o evangelho em questão, existia antes mesmo da chegada de Pedro e Paulo, na década de 60; nela, os cristãos se reuniam nas casas para rezar (cf. Rm 16,3-5. 10-11. 14-15) e as mulheres exerciam ministérios (cf. Rm 16,1.6), revelando-se uma Igreja atuante e plural. Contudo, os catequizandos de Marcos enfrentavam sérios problemas com o martírio dos cristãos, dentre eles São Tiago (62 d.C.), a perseguição do imperador Nero ao cristianismo (64-67 d.C.) e o medo causado pelas notícias da destruição de Jerusalém pelos romanos (70 d.C.). Nesse contexto, Marcos escreveu o seu evangelho com o objetivo de animar a fé dos cristãos de origem romana e confirmar a profissão de fé das comunidades recém-convertidas ao cristianismo na divindade de Jesus de Nazaré.

É interessante notar, portanto, que existe um fio condutor no texto, que se tenciona entre Mc 1,1, no qual a comunidade anuncia o conteúdo do seu evangelho, que nada mais é do que a profissão de fé em “Jesus Cristo, Filho de Deus”, e Mc 15,39, em que o centurião, um chefe militar cuja função era liderar um grupo de 100 soldados romanos, confessou aos pés da cruz: “este homem era realmente o Filho de Deus”; o capítulo 1 anuncia o escopo da obra, enquanto o capítulo 15 revela o seu interesse: assim como o duro coração daquele combatente romano fora capaz de reconhecer no Senhor pendente e morto na cruz o Filho de Deus, todo o leitor do evangelho é convidado a descobrir quem é Jesus e a torna-se seu seguidor. Marcos deseja, com o seu texto, catequizar inúmeras “centúrias” de comunidades cristãs que anunciem, com convicção e comprometimento, a verdade que saiu da boca do soldado romano.

O breve relato teológico de Marcos, considerado o primogênito entre os evangelhos canônicos, escrito por uma comunidade em situação de risco em relação ao Império de Roma e destinado a quem tem pressa para encontrar-se com Jesus, é uma grande ladainha: nele, cada versículo se intercala com a verdade redentora de que Jesus Cristo é verdadeiramente o Filho de Deus, o salvador do mundo. Lendo e meditando o evangelho marcano, cada cristão é conduzido ao Gólgota para, à semelhança do centurião, professar sua fé no Cristo e se engajar no seu discipulado-missionário. De igual maneira, a Igreja, acolhendo o testemunho teológico de São Marcos e, através dele, aprendendo os ensinamentos apostólicos de São Pedro, seu primeiro papa, coloca-se aos pés da cruz para renovar a sua fé no Filho de Deus.

Imagem de Dorothée QUENNESSON por Pixabay