Evangelhos sinóticos: suas possíveis relações e teorias

1 de abril de 2026

Muito embora os quatro evangelhos canônicos tenham nascido de uma mesma e única fonte inspiradora, isto é, do próprio Espírito de Deus, e transmitam conjuntamente a singular mensagem da salvação que brota da páscoa de Cristo Jesus, eles podem ser classificados em específico e sinóticos. O evangelho segundo João é chamado de específico porque possui uma estrutura narrativo-organizacional própria, de modo que não apresenta semelhanças expressivas em relação aos demais evangelhos. O mesmo não ocorre com os textos segundo Marcos, Mateus e Lucas: eles contêm uma lógica redacional parecida, por isso são chamados de evangelhos sinóticos.

De origem grega, o termo sinótico é composto por duas palavras: syn (συν), que designa algo parecido, feito em conjunto, e optikos (oπτικός), que significa visão, olhar; dessa forma, συνoπτικός são os evangelhos cujos conteúdos demonstram abordagens semelhantes a respeito do fenômeno Jesus de Nazaré, de sua vida e de sua missão. A expressão “evangelhos sinóticos” foi cunhada pelo alemão Johann Jakob Griesbach (1745-1812), biblista protestante, na obra Sinopse dos Evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas, que foi publicada em 1776 como parte de seus estudos críticos do Segundo Testamento. De acordo com o seu entendimento, preservando uma estrutura narrativa muito parecida, os livros de Marcos, Mateus e Lucas não só podem ser estudados a partir de um método epistemológico comparativo, como sugerem que houve um intercâmbio de conteúdos entre as comunidades cristãs que os redigiram.

Do ponto de vista estrutural, os evangelhos sinóticos seguem uma lógica descritiva uniforme, narrando, sequencialmente, episódios anteriores ao ministério público de Jesus na Galileia, os eventos relacionados à sua atuação messiânica junto aos galileus, o mistério central de sua páscoa na Judeia, e alguns acontecimentos que foram testemunhados após a sua ressurreição. Contudo, o mais interessante a respeito dos sinóticos é problematizar as possíveis formas de compartilhamentos de informações que ocorreram entre os três livros durante os seus processos de composição. É certo que não houve, ao longo da história, consenso entre os estudiosos sobre como isso se deu, mas as pesquisas atuais acreditam ser a “Teoria das Duas Fontes” a hipótese investigativa mais confiável.

Antes, porém, de falar especificamente sobre ela, é importante conhecer algumas ideias que a precederam na busca pela relação existente entre os evangelhos sinóticos. Segundo Santo Agostinho (354-430), em sua obra De Consensu Evangelistarum, o evangelho mais antigo é o de Mateus, que foi resumido, mais tarde, por Marcos; nesse sentido, Lucas é uma síntese dos dois evangelhos anteriores. Essa ideia, chamada de “Teoria da Ordem”, que representa a primeira forma de compreensão da afinidade existente entre os textos considerados sinóticos, justifica a disposição dos evangelhos no corpo do Segundo Testamento, já que foram colocados na Bíblia do seguinte modo: primeiro o de Mateus, seguido pelo de Marcos e, depois, o de Lucas.

Séculos após Agostinho, o alemão Gotthold Ephraim Lessing (1729-1781) levantou a hipótese da “Teoria do Evangelho Fundamental” ou “Teoria do Protoevangelho”, segundo a qual os três evangelhos sinóticos têm como fundamento um único texto, o chamado “Evangelho dos Nazarenos”. Considerada um livro apócrifo do século II e redigida em aramaico ou hebraico, a obra foi escrita por um grupo de cristãos que se converteram do judaísmo e que eram reconhecidos pelo título de “nazarenos”, já que seguiam a Torá, mas professavam também a fé na messianidade de Jesus de Nazaré. Contemporâneo a Lessing, Griesbach, de quem se falou anteriormente, defendeu a “Teoria da Dependência Mútua”, afirmando que Mateus é o evangelho mais antigo do qual dependeu a redação do texto de Lucas, ao passo que Marcos fez uma síntese dos dois.

Essas são as principais teorias que sucederam o aparecimento da hipótese científica que norteia atualmente o problema escriturístico que envolve os evangelhos sinóticos, a chamada “Teoria das Duas Fontes”. Em 1835, o crítico alemão Karl Lachmann (1793-1851) lançou a ideia de que os evangelhos de Mateus e de Lucas têm com base o evangelho de Marcos, que é o mais antigo, e um conjunto de ditos de Jesus, que recebeu o nome de “Palavras do Senhor” (Λογίων κυριακών), produzido entre 50 e 60 d.C. e recolhido por Pápias de Hierápolis (60-130 d.C.). Essa teoria ganhou confiabilidade a partir dos estudos bíblicos dos alemães Christian Hermann Weisse (1801-1866) e Christian Gottlob Wilke (1786-1861), que reafirmaram a prioridade de Marcos em relação aos demais evangelhos e nomearam a segunda fonte, isto é, os ditos de Jesus, de Q (que vem da expressão alemã die Quelle, cujo significado é “fonte”, “origem”), atestando seu uso por Mateus e Lucas.

De acordo com a “Teoria das Duas Fontes”, a transmissão oral dos eventos relacionados à pessoa e à obra de Cristo deram origem a dois documentos: a fonte Q (50-60 d.C.) e o evangelho segundo Marcos (65-70 d.C.), que nunca compartilharam informações entre si. Por volta de 70 e 80 d.C., as comunidades de Mateus e Lucas redigiram seus relatos tendo como base essa dupla fonte e as suas próprias experiências. Dessa forma, os evangelhos sinóticos são compostos por três categorias de textos: a tripla tradição, que são os relatos compartilhados simultaneamente por Marcos, Mateus e Lucas; a dupla tradição, que são narrativas que se encontram em Marcos e Mateus ou Marcos e Lucas ou Mateus e Lucas; e a tradição exclusiva, que são os textos que só aparecem num evangelho em específico.

Em números aproximados, a tripla tradição é composta da seguinte maneira: 76% do evangelho de Marcos aparece em Mateus e Lucas; 45% do evangelho de Mateus é absorvido de Marcos e também está presente em Lucas; 41% do evangelho de Lucas é extraído de Marcos e também é narrado por Mateus. Já na dupla tradição: 18% do evangelho de Marcos está somente em Mateus, 10% do evangelho de Mateus está só em Marcos, 3% do evangelho de Marcos está somente em Mateus, 1% do evangelho de Marcos está só em Mateus, 25% do evangelho de Mateus aparece somente em Lucas e 23% do evangelho de Lucas aparece só em Mateus. Quanto à tradição inédita: 3% de Marcos não está nem em Mateus e nem em Lucas, 20% de Mateus não aparece em Marcos ou Lucas, e 35 % de Lucas não têm origem em Marcos nem em Mateus.

Como pode-se notar, a “Teoria das Duas Fontes”, fruto do esforço científico-teológico para compreender o processo de redação dos textos evangélicos, apresenta-se como a hipótese investigativa que melhor explica as relações literárias entre os livros sinóticos, e por isso é aceita pela Igreja. Contudo, é importante frisar que, enquanto uma ciência que se desenvolveu a partir de níveis culturais que se ampliam com o passar do tempo, a teologia bíblica poderá encontrar futuramente outras possibilidades de horizonte para a questão dos sinóticos, sem que haja nenhum prejuízo para aquilo que é fundamental no próprio evangelho: sua natureza divinamente inspirada e seu objetivo de transmitir ao coração humano uma mensagem pascal que é capaz de salvá-lo.

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