#Reflexão: 3° Domingo da Páscoa (19 de abril)

15 de abril de 2026

A Igreja celebra o neste domingo o 3° Domingo da Páscoa (19). Reflita e reze com a sua liturgia.

Leituras:
1ª Leitura: At 2,14.22-33
Salmo: 15(16),1-2a.5.7-8.9-10.11 (R. 11ab)
2ª Leitura: 1Pd 1,17-21
Evangelho: Lc 24,13-35
Acesse aqui as leituras.

CAMINHANDO COM O RESSUSCITADO

O texto conhecido dos “discípulos de Emaús” conta a história de dois discípulos que estiveram com Jesus até a Paixão, mas que estavam com o coração partido e desiludidos. A experiência da cruz foi demais para eles. Jesus se tornou um estranho e distante, alguém do passado e um passado frustrante. Mas, como aos demais discípulos, Jesus também os alcança e com o mesmo amor de sempre, faz um caminho de releitura de tudo o que aconteceu. Esta bonita história pode ser dividida em três momentos que se apresentam como se fosse um “liturgia da história e da vida”, da “Escritura do passado e de sempre” e “da partilha como sinal do discipulado de Jesus”. Uma liturgia da estrada, da palavra e do pão.

A história de Emaus também é um retrato de nossa caminhada e vida. Quantas horas nós, como os dois discípulos, passamos falando sobre sonhos naufragados e esperanças frustradas. Quanta dor em nossas vidas, quantos rostos queridos se foram, quantos sonhos abandonados. Os rostos tristes dos discípulos são os nossos, os rostos da dor diante de coisas belas que chegam ao fim. Assim, lamentavam os dois discípulos: “Esperávamos que Ele fosse aquele que libertaria Israel, mas tudo acabou, terminou, vamos voltar para casa!” Tantas vezes pensamos que a vida não cumpre suas promessas e que a última palavra que encerra tudo é a morte (Ermes Ronchi).

Os dois caminhantes deixavam Jerusalém, cidade que representava a frustração de todos. Lucas nos informa que se dirigiam para “Emaús”, uma localização desconhecida no NT, mas no AT foi local que marcou a revoltada dos Macabaus contra os opressores da época, os gregos (1Mc 3,40.57; 4,3; 9,50). Voltavam para lá, dando as costas a tudo que Jesus representou para todos.

E então Jesus se aproximou e caminhou com eles. Eles estavam partindo, e Ele os alcançou. Deus sempre se aproxima, um andarilho através dos séculos e dias, e move toda a história. Ele caminha conosco, não para corrigir nossos passos ou ditar o ritmo. Ele não comanda nenhum passo, Ele toma o nosso passo. Nada é forçado. Qualquer caminhada lhe convém. Contanto que se caminhe. O ritmo do momento basta para Ele. Essa contracorrente sempre acontece com Deus. Deus não aceita que desistamos, ele não permite que nossos rostos permaneçam tristes. Jesus alcança os dois viajantes, olha para eles, vê suas tristezas e diminui o passo (Ermes Ronchi). Aproximar-se com cuidado e ouvir, uma atitude fundamental para os discípulos de Jesus. Escutar a vida e as lamentações das pessoas. Nós temos muitas respostas de nossa fé, mas precisamos, primeiro, ouvir a vida das pessoas.

A história que eles acompanharam que terminou na cruz, cegou os dois. Ficaram fixos no passado e não perceberam o novo do presente. Não perceberam que se tratava de Jesus, pois não se apresentava mais como antes, a ressurreição é algo novo e diferente, para eles, Jesus era um estrangeiro. Eles conversavam sobre o passado, mas sem compreender. Lucas diz que discutiam “calorosamente” sobre o ocorrido.

O evangelista Lucas diz que Jesus se colocou como companheiro de caminhada (“discutiam enquanto caminhavam”). Mas, não era um fato ou simples acontecimentos que debatiam. Diante da pergunta de Jesus, eles pararam de caminhar, “estavam entristecidos”. Uma parte da vida deles e de seus sonhos foi-se com a morte de Jesus. Nesta altura, Lucas informa o nome de um deles: Cleopas. Talvez era um casal que retornava para casa ou dois companheiros de caminhada do grupo de Jesus, mas e o nome do outro? Talvez, Lucas quer nos provocar, sugerindo que seja o leitor o outro peregrino, nós que meditamos o seu Evangelho.

A resposta deles tem um pouco de revolta e certa agressão, afirmando que o “estrangeiro” não sabe o que aconteceu. Eles participaram dos fatos, mas não entenderam o sentido de tudo. Afirmam que o estrangeiro “não sabe”, depois serão eles que vão ouvir o mesmo de Jesus caminhante.

Jesus, o Estranho Caminhante, rebate seus discursos. Jesus escutou os dois, mas não permaneceu com eles no mais profundo de seus corações em dores e frustrações. Afirmou que o Cristo devia sofrer e tudo já estava anunciado nas Escrituras. Mas, para os dois discípulos, Jesus não era o Messias, porque, em suas mentes, o Messias não poderia morrer derrotado, o Messias precisava vencer sempre, segundo eles. Imagivam que seguiam um “profeta poderoso em obras e palavras diante de Deus e do povo”, alguém com poderes da parte de Deus, mas não o verdadeiro Cristo Messias de Deus. Esperavam uma revolução, algo somente para aquele povo e aquele tempo: “esperávamos que Ele fosse libertar Israel…”, algo somente para a Israel e não para a humanidade.

Os primeiros sinais da ressurreição tinham chegado até eles, mas não acreditaram: o anúncio das mulheres, o túmulo vazio, a constatação de “alguns dos nossos”, mas eles não viram Jesus. Encaram tudo como uma notícia falsa ou exagerada das mulheres e a ausência do corpo, como um fato que poderia ter um explicação razoável. No fundo eles não ouviram os anúncios de Jesus sobre sua morte e ressurreição durante os meses que passaram com o Mestre caminhando pelas terras de Israel. Ouviram o que o Mestre disse, mas alimentaram outras ideias sobre o Jesus que acompanhavam, mas que não se realizaram.

Então, Jesus os faz compreender a essência de tudo e do cristianismo. Começa chamado atenção que são eles que “não compreendem” e – o pior – “são lentos para crer”. Tudo já estava presente na próprio Sagrada Escritura que todos conheciam. Explica Jesus fazendo uma grande revisão do passado até o presente. Exorta os dois que a cruz não é um acidente, mas a plenitude do amor. Os dois caminhantes descobrem uma imensa verdade que a mão de Deus está onde parecia impossível, onde parecia absurdo: na cruz. A mão de Deus estava tão oculta que parecia ausente, contudo, tecia o fio de ouro da teia do mundo. Quanto mais oculta a mão de Deus, mais poderosa ela é. Quanto mais silenciosa, mais eficaz é a mão de Deus. Quando a morte destrói o que amamos, ela toma conta de toda a cena. A dor é tão cegante que é difícil de enxergar; a violência e o mal são ensurdecedores, mas o amor, por outro lado, tem uma voz sutil. Precisamos aguçar nossos ouvidos, aprender a ouvir: nós mesmos, os outros e tudo ao nosso redor (E. Ronchi).

Os discípulos sem notar o novo, foram percebendo algo profundo e com um novo sentido, mas ainda não tinham percebido tudo, diziam: “Nossos corações não ardiam ao longo do caminho?” É um primeiro milagre, o dom de um coração ardente, de viver em chamas, e dele nascem algumas das mais belas palavras que conhecemos: “Permanece conosco, Senhor!”. Ele permanece conosco no fim da vida, conosco e com aqueles que amamos no tempo e na eternidade. E ele nunca nos deixou.

            O Caminhante Jesus, peregrino no tempo e na história é livre e deixa todos livres para viver o amor e acolhida. Lucas diz que “fez de conta que iria continuar caminhando”, Ele não obrigada nada, mas acolhe com carinho todo convite; espera que abramos nossa casa e nossa vida para Ele mesmo presidir o principal em nossa vida.

O gesto inconfundível de Jesus ficou marcado no coração dos discípulos: partir e dar o pão. Aquele que nunca quebrou ninguém, quebra a si mesmo. Aquele que nada pede, oferece tudo de si. E precisamente nesse momento, Jesus desaparece. São Lucas diz literalmente que “se tornou invisível”, não foi para outro lugar, se tornou invisível, desapareceu da vista, mas não está ausente (E. Ronchi).

Mas onde posso sentir o aroma de sua presença? O Evangelho nos dá três sinais: a estrada, a Escritura e o pão. Nas estradas se tem a vida de todos com seus sofrimentos, dores e esperança, Jesus sempre está ali. Onde a caridade é exercita como expressão de fé, quando o amor a Deus encontra-se com o abraço de cada pessoa. Na Palavra de Deus que prepara e aquece o nosso desejo de ter Deus sempre em nossos ouvidos e coração. No pão repartido entre todos, foi o gesto que marcou definitivamente a vida dos discípulos, que apagou as dores, abriu os corações e mente, pois somente Deus é capaz de se doar para reunir, se entregar para chegar a todos se diferença e preconceito, é pão nosso e de todos.

Eles o reconheceram na partilha do pão, não por ser um gesto exclusivo e inconfundível de Jesus — todo pai partia o pão para seus filhos —, quem sabe quantas vezes eles também o haviam feito, talvez naquele mesmo cômodo, todas as vezes que a noite caía sobre Emaús, “partir o pão” é a marca da identidade de Jesus que se preocupa com todos, doa tudo e se entrega, por fim, na Eucaristia de todos os dias. Três dias antes, na noite de quinta-feira, Jesus havia feito algo inédito: dera a si mesmo um corpo de pão: “tomai e comei, isto é o meu corpo”. Eles o reconheceram porque partir, despedaçar e dar a si mesmo contém o segredo do Evangelho: Deus é o pão que se entrega à fome do homem. Ele se dá, alimenta e desaparece: tomai, é para vós! O grande milagre: não somos nós que existimos para Deus, é Deus que vive para nós (E. Ronchi).

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