#Reflexão: 4º domingo do Tempo Comum (28 de janeiro)

23 de janeiro de 2024

A Igreja celebra o 4º Domingo do Tempo Comum, neste domingo (28). Reflita e reze com a sua liturgia.

Leituras:
1ª Leitura: Dt 18,15-20
Salmo: 94(95),1-2.6-7.8-9 (R. 8)
2ª Leitura: 1Cor 7,32-35
Evangelho: Mc 1,21-28

Acesse aqui as leituras.

A FORÇA DA PALAVRA E DOS ENSINAMENTOS DE JESUS

Todos nós apreciamos aquilo que é novo, principalmente, quando acrescenta algo de bom em nossa vida. Sabemos também que nem tudo que se mostra como novo, significa automaticamente algo bom e positivo. Existem novidades que destroem o que é fundamental e não conseguem oferecer os mesmos valores e as mesmas vantagens em relação àquilo que sempre cultivamos. Saber discernir entre: valorizar aquilo que é fundamental, e por isso, sempre novo e não “embarcar” nas novidades que nos são oferecidas, é uma grande virtude. As leituras deste domingo nos ajudam a refletir sobre isto.

Domingo passado, Jesus convida os discípulos para pescar pessoas para Deus. Hoje, Ele não vai em um lugar de “pecadores”, mas no lugar mais santo do lugar: sinagoga (local de oração e estudo da Palavra de Deus).

Moisés na primeira leitura nos transmite uma profecia sobre alguém maior que ele mesmo, alguém que será capaz de atrair as pessoas e despertar nelas algo profundo com suas Palavras, pois na realidade serão Palavras de Deus. Não será “mais um” profeta que fala algo em nome de Deus, ou pior ainda, um “profeta conveniente” que procura falar aquilo que as pessoas gostam de ouvir, que não serve a Deus verdadeiro, mas a falsos deuses, a começar por ele próprio. Jesus é o verdadeiro Profeta, ou melhor, é alguém maior que qualquer profeta que existiu, pois Ele não empresta sua voz para Deus falar, Jesus mesmo é a Palavra (Verbo) de Deus entre nós.

O exemplo concreto daquilo que foi dito através de Moisés, nós temos no início do Evangelho de Marcos. Este evangelista nos acompanhará nos domingos do tempo comum durante este ano. No Evangelho de hoje, estamos no início da vida pública de Jesus e Ele aos poucos se revela profeta de Deus e o Messias esperado.

Tudo é significativo, expressivo e revelador neste Evangelho que aparentemente inicia com um costume cotidiano e casual. Era o dia santo para os judeus: dia de Sábado. Neste dia especial, todos se reuniam na sinagoga. Duas leituras eram feitas: a primeira da Torah (os cinco primeiros livros da Bíblia) e a segunda de um dos livros dos Profetas. Quem lia a segunda leitura, se sentisse em condições, fazia a homilia. Jesus, possivelmente, foi o leitor do segundo texto sagrado e fez, naquele dia, a reflexão da palavra. Nós não sabemos o que foi lido e discutido, mas somente as consequências (Lucas 4,16s descreve com mais detalhes este fato).

Fazer uma reflexão das leituras (da Torah e dos profetas) não era algo difícil naquele tempo, pois o costume era repetir aquilo que os grandes entendidos das Escrituras (os escribas) diziam. Mas, aquele dia foi diferente: Jesus anunciou algo novo, mas não foi somente algo diferente, o fez com autoridade e, por isso, todos ficaram maravilhados.

Jesus dá andamento ao seu anúncio do Reino de Deus a partir de um local sagrado e profundamente marcado pelos princípios judaicos. O Messias Jesus não é aquele que rompe com tudo que já existe para apresentar a sua novidade, Ele valoriza aquilo que todos faziam, mas ao mesmo tempo aprofunda e amplia apresentando um novo modo de se relacionar com Deus e com a sua Palavra. Mas, aquela estrutura judaica já não conseguia mais oferecer o que as pessoas precisavam e nem conseguia ser mais instrumento de libertação de realidades profundas que escravizavam o ser humano.

Diante das palavras com autoridade e ensinamento novo, o mal presente em um homem se manifesta. O mal se revolta e as pessoas se espantam. A religião da época de Jesus com os seus costumes e tradições (inclusive o respeito pelo sábado) não estava mais libertando as pessoas. Dentro daquele local, um homem (representando a humanidade) estava escravizado pelo mal. O possesso era um membro da comunidade, que certamente, todos os sábados, ia à sinagoga, rezava e ouvia as leituras e explicações, mas tudo isto não conseguia libertá-lo do mal em sua vida. O mundo judaico, com seus costumes e ritos, estava precisando de algo novo da parte de Deus e Jesus veio trazer.

As palavras da pessoa endemoniada representam bem as palavras que até o dia de hoje são escutadas por muitos: “Que há entre nós e ti, Jesus de Nazaré” – Palavras que representam o pensamento que a nossa vida e até mesmo os nossos problemas, Deus não participa.

Deus está distante e ausente da vida das pessoas. Ou ao contrário. A minha vida social e até os meus pecados, não tem ligação com Deus. O endemoniado conduzia uma vida que Deus não fazia mais parte; “Vieste para nos perder” – Outro pensamento que retrata uma ideia que as coisas de Deus (ensinamentos, Mandamentos, valores…) vão nos prejudicar. Ideia de que a fé e a prática dos Mandamentos nos atrapalham. Antes, o homem possuído diz que há uma distância entre ele e Deus.

Agora se afirma que sua presença prejudica. Deus seria um estorvo para a pessoa ou um prejuízo; “Eu sei quem tu és: O Santo de Deus” – “Saber” é um aspecto importante da fé, mas somente conhecer as coisas de Deus (leis, mandamentos, Bíblia…) não garante a comunhão com Deus. Os escribas eram profundos sabedores da Bíblia e os fariseus conheciam tudo de todas as tradições e práticas da religião, mas estavam distantes de Deus.

  Interessante que tudo o que tinha acontecido antes na sinagoga (leituras e orações) não tinha forçado o Mal a se manifestar, mas tão logo Jesus ensinou e proclamou com autoridade a novidade de suas Palavras, o Mal procurou intervir e se manifestar. A primeira ideia é que entre Jesus e aquilo que mais escraviza e perturba o ser humano (o mal) não há nada de relação ou ligação, pelo contrário, são realidades opostas e em conflito. Nas palavras que saem do sujeito possesso, o mal e todas as suas estruturas revelam ter consciência de que, diante de Jesus, elas encontram somente derrota. Não se trata de mais um exorcismo ou conflito com um possesso, mas já no início do ministério de Jesus o decreto da derrota de todo o mal e de todas as suas estruturas.

Mas, Jesus não cai na artimanha do mal que quer debater e assim, se manifestar também. Como Deus ao punir a serpente no Paraíso, em relação ao mal, não se pode dar espaço e nem conversa, mas somente a força de da Palavra de Deus. Jesus ordena que se cale e saia daquele homem. As Palavras de Jesus são Palavras que trazem o “Espírito Santo”, o libertador de Deus, por isso, o “espírito impuro” que dominava aquela pessoa não consegue resistir nem à Palavra e nem à autoridade de Cristo.

Aquele homem possuído representa todas as maldades e possessões que o mal consegue semear em nossa vida. São sementes que ficam adormecidas e escondidas, que fazem mal e muitas vezes conseguem produzir frutos ruins em nossa história. Algo que “entra” em nossa vida e somente com a autoridade e as Palavras de Jesus é que consegue ser eliminado. Marcos nos diz que todos ficaram maravilhados, não tanto por mais um milagre, mas pelo ensinamento e pela autoridade com que Jesus tinha se revelado.

É o novo de Deus que precisa ser sempre renovado em nossa vida, para tanto, é fundamental ouvir suas Palavras e deixar que sua autoridade realmente nos liberte de todo o mal, principalmente, aqueles males que ainda persistem em nossa vida e história. É a Luz nova que Jesus representa que ilumina todos os cantos de nosso ser que revela todo o bem presente, mas também mostra todo o mal escondido.

Paulo faz um convite ao uso da liberdade, não somente para fazer algumas coisas boas em relação a Deus, mas em fazer uma opção radical e profunda para com Deus. Percebemos, inicialmente, uma comunidade de iguais onde tanto o homem quanto a mulher são chamados ao exercício de sua fé igualmente. Paulo aconselha quem não é casado ainda (seja homem como também a mulher) a se ocupar com intensidade das coisas do Senhor, mas se já é casada (ou casado), que se ocupe das coisas do mundo como se deve. Em outro lugar, Paulo aconselha a sempre levar a vida cristã com dignidade até mesmo quando a outra pessoa no matrimônio não é um cristão.

Para quem se casou, o primeiro compromisso passa a ser sua família e depois, as coisas do Senhor; já para quem está desimpedido, o convite é ocupar o seu tempo com as coisas de Deus.

Para a nossa vida cristã, precisamos sempre criar espaço para ouvir, acolher e praticar a Palavra de Jesus que é sempre nova e atual, pois é Palavra de Vida de Deus, pois somente ela nos propõe uma libertação profunda e total que, necessariamente, nos conduz ao serviço ao próximo na comunidade e da vontade de Deus.

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