Santa Filomena: protetora dos aflitos e jovens casais

9 de agosto de 2023

Todas as vezes que visito a casa de minha mãe, contemplo na parede um retrato da minha avó materna, Rosa. Olhos azuis-claros, sorriso tímido, jeitinho de quem sabia das coisas da vida… Uma mulher simples, que nasceu no início do século XX e que me traz boas recordações. Uma vez, em uma homilia no dia de “Todos os Santos”, um padre falou que são tantos os santos e santas que conhecemos (ou não) e que intercedem por nós. Então, ele disse também que, quem sabe se nossos parentes que nos precedem na morte, não são também um destes santos? Daí, eu pensei na minha avó materna, na avó paterna, nos tios falecidos… e, todas as vezes que vejo aquela foto pendurada na parede, dirijo uma prece a minha avó: “Olha por nós no céu, vó! Interceda por nós junto a Jesus!”

Então, eu penso nos santos. Às vezes, os imaginamos seres perfeitos, especiais, que nasceram já assim: santos! Porém, ao conhecer a vida de alguns deles, chego à conclusão que esses eleitos de Deus nasceram como nós, foram crianças como nós, cresceram como nós… cada um em sua época. Além disso, em um determinado momento da vida, foram firmes em professar a sua fé e muitos deram a vida em defesa dessa fé!

São tantos os nomes registrados nos livros da Igreja e nem sempre ouvimos falar deles. Quando me foi pedido para escrever sobre Santa Filomena, eu pensei: Quem foi ela? Afinal, nunca havia ouvido falar sobre ela. E, como me alegrou conhecer sua história! Uma jovem cheia de vida, com uma fé madura e com o coração doado a Jesus. Vamos, então, conhecer um pouco dessa jovem mártir?

A devoção a Santa Filomena surgiu no século XIX, quando suas relíquias foram encontradas nas Catacumbas de Santa Priscila, em Roma, na Itália. No local, havia três placas de terracota, que fechavam a sepultura. Nela, estavam as seguintes inscrições: “Lumena-Paxte-Cumfi”. Conforme o estudo de arqueólogos, deve ser invertida a ordem das placas e interpretadas como: “Paxte-Cumfi-Lumena”, traduzindo: “A Paz esteja contigo Filomena”.

No dia 10 de agosto de 1805, as relíquias de Santa Filomena chegaram à pequena cidade de Mugnano del Cardinale, aproximadamente, 40 quilômetros de Nápoles, na Itália.

Três anos antes, em maio de 1802, uma sepultura com ossos de uma mulher que aparenta ter entre 12 e 15 anos, foi encontrada nas catacumbas de Santa Priscila, em Roma. Uma coisa intrigou os peritos e autoridades civis e eclesiásticas locais. As inscrições e desenhos que estavam nas lápides de terracota indicaram uma possível descoberta: seria a sepultura de um mártir dos primeiros séculos da era cristã.

Em 1805, o padre Francisco de Lucia, pároco da Igreja de Nossa Senhora das Graças, em Mugnano del Cardinale, foi até Roma acompanhando o bispo de sua diocese. Ele tinha um desejo em mente: levar para sua cidade a relíquia de um santo mártir. Padre Francisco obteve autorização para ir até o local onde as relíquias dos mártires repousavam. Quando estava ajoelhado diante das relíquias de Santa Filomena, foi arrebatado por um desejo inexplicável de levá-las para Mugnano del Cardinale. Até então a Santa Sé nunca havia confiado uma tarefa tão importante a um simples sacerdote. Porém, padre Francisco não desanimou e pediu a Santa Filomena que intercedesse por ele e lhe alcançasse a graça de levá-la para Mugnano del Cardinale. Assim, a faria padroeira daquela cidade. Aí, começam as inumerosas graças intercedidas por Santa Filomena. No dia 10 de agosto de 1805, as relíquias da santa chegaram a Mugnano del Cardinale e lá se encontram até os dias atuais.

A irmã Maria Luísa de Jesus, fundadora das Oblatas de Nossa Senhora das Dores, apontou alguns fatos da vida de Santa Filomena. Ela afirmou que teve uma “revelação” dessa santa. No dia 3 de agosto de 1833, Santa Filomena apareceu em uma visão para a irmã Maria Luísa de Jesus e lhe fez uma revelação, enquanto a irmã rezava em frente a uma pequena imagem de Santa Filomena. Ela própria disse que o traslado de seus restos mortais não havia chegado por acaso no dia dez de agosto a Mugnano del Cardinale, mas porque exatamente naquela data havia sido o fim de seu martírio, ou seja, a data na qual ela havia entrado no céu. Na segunda aparição, ainda no mês de agosto, a santa lhe disse que era filha de um casal real grego. Como não podiam ter filhos e desejavam ter um herdeiro para dar continuidade à sucessão real, sempre estavam fazendo promessas a falsos deuses.

Vivia no palácio, a serviço do rei, um médico romano que professava a fé cristã. Ele aconselhou o casal que deveriam ser batizados e acreditar na religião cristã, pois ele tinha certeza que suas preces seriam ouvidas. Essa prece foi concretizada e, assim, nasceu uma linda criança, batizada como Filomena, nome que significa filha da luz. Os anos se passaram e a espiritualidade cristã de Filomena só aumentou. Aos onze anos, quando já havia recebido sua primeira Eucaristia, fez votos secretos de virgindade perpétua.

Quando Filomena tinha treze anos, seu pai foi ameaçado pelo imperador romano Diocleciano que queria travar uma guerra com seu reino. Diante disso, o rei partiu com a esposa e filha para Roma. Sua intenção era pedir clemência ao imperador e, assim, evitar uma guerra injusta. Chegando a Roma, foram recebidos em audiência pelo imperador. Tão logo Diocleciano viu Filomena, ficou encantado com a beleza da moça. Ouviu prontamente o discurso de defesa do rei e, ao final, lhe disse que não se preocupasse com uma possível guerra. Pelo contrário, ele se tornaria um aliado, mas, para isso acontecer, queria a mão da encantadora Filomena em casamento. O rei e sua esposa ficaram felizes porque, além de conter o início da guerra, sua filha seria imperatriz de Roma. Entretanto, Filomena negou prontamente os desejos do imperador e, por mais que seus pais tentassem convencê-la, ela estava irredutível. Ela já havia se consagrado a Jesus Cristo.

O imperador viu aquela reação como afronta, mesmo assim tentou persuadir Filomena com promessas e galanteios. Diante da recusa da jovem, o imperador mandou prendê-la e os galanteios se transformaram em ameaças. Vendo que nada conseguia, o imperador resolveu mandar torturá-la em público com chicotadas e blasfêmias. Após sessões de torturas, prenderam-na novamente para agonizar e morrer. Porém, naquela noite, dois anjos vieram visitar Filomena e a curaram com um bálsamo celestial. Na manhã seguinte, quando o Imperador ficou sabendo que Filomena não havia morrido, mandou buscá-la e, quando a viu, ela estava mais bela do que antes. Diocleciano mandou amarrar uma âncora ao pescoço de Filomena e que a lançassem no Rio Tibre. Dois anjos foram enviados e cortaram a corda que prendia a âncora ao pescoço da virgem. Diocleciano a chamou de feiticeira e mandou matar a moça a flechadas, mas as flechas que eram lançadas se voltaram contra os arqueiros.

Diante de todos esses milagres, muitas pessoas se converteram. Com medo de consequências mais desastrosas, o imperador mandou decapitar Filomena. Era exatamente às três horas da tarde de uma sexta-feira, provavelmente no século III.

Vários milagres intercedidos por Santa Filomena foram relatados. Um dos mais conhecidos foi o milagre da francesa Paulina Maria Jaricot. Em 1835, muito doente de uma enfermidade cardíaca e já desenganada pelos médicos, Paulina decidiu peregrinar até Mugnano del Cardinale e pedir o milagre de sua cura a Santa Filomena. Ao sair da França, decidiu passar por Roma e conseguiu uma audiência com o papa Gregório XVI. Pediu a ele a canonização de Santa Filomena, caso voltasse curada. O papa respondeu que sim, pois, do jeito que Paulina estava doente, ele não poderia tirar lhe também essa esperança. Depois de uma exaustiva viagem, Paulina chegou a Mugnano del Cardinale, na véspera da festa de Santa Filomena. No dia seguinte, conseguiu comungar e desmaiou. Todos pensaram que Paulina havia morrido, mas, recomposta do desmaio, ela pediu que a levassem até o relicário de Santa Filomena. Naquela situação, aconteceu um milagre. Paulina estava curada. Era 10 de agosto de 1835. O papa Gregório XVI aprovou o culto a Santa Filomena em 1837. Suas relíquias estão no Santuário de Santa Filomena, em Mugnano del Cardinale, na Itália.

Duas âncoras, três flechas, uma palma e uma flor eram os símbolos representados nas lajes de terracota do cemitério de Priscila, os quais foram interpretados como símbolos do seu martírio. No entanto, um estudo mais aprofundado dos achados arqueológicos constatou a ausência da escrita “mártir”, fazendo decair a possibilidade da sua morte por martírio. Enfim, o corpo era de uma donzela, morta no século IV. Sobre seu sepulcro foram colocadas lajes, com inscrições de um sepulcro antecedente.

A Sagrada Congregação dos Ritos, por ocasião da Reforma Litúrgica dos anos 60, eliminou o nome de Filomena do calendário. Porém, seu culto permaneceu. A “Santinha” do Cura D’Ars, São João Maria Vianney, como muitos chamam Santa Filomena, foi venerada, de modo particular, por São Pio de Pietrelcina, desde criança. Ele a chamava de “princesinha do Paraíso”. A quem ousava colocar em discussão a sua existência, ele respondia que suas dúvidas eram fruto do demônio e repetia: “Pode ser que não se chamava Filomena! Mas, essa santa fez muitos milagres e não foi seu nome a realizá-los”. Ainda hoje, Filomena intercede por numerosos fiéis que vão rezar diante dos seus restos mortais.

Santa Filomena, virgem e mártir, é festejada no dia 10 de agosto. Ela é considerada protetora dos aflitos e dos jovens esposos. Muitas vezes, foi atribuída a ela a graça da alegria da maternidade a mães estéreis. Santa Filomena, rogai por nós!

Oração

Ó gloriosa Santa Filomena, Virgem e Mártir, exemplo de fé e de esperança, generosa na caridade, a vós suplico, escutai a minha prece. Do céu onde reinais, faça cair sobre mim toda a proteção e auxilio de que necessito, neste momento em que minhas forças se enfraquecem. Vós que sois tão poderosa junto a Deus, intercedei por mim e alcançai a graça que vos peço. Ó Santa Filomena, ilustre por tantos milagres, rogai por mim. Não me abandoneis, mais lançai vosso olhar sobre mim e minha família. Afastai as tentações, dai paz a minha alma e abençoai a minha casa. Ó Santa Filomena, pelo sangue que derramaste por amor a Jesus Cristo, alcançai-me a graça que vos peço.

 

Referências:

https://www.vaticannews.va/pt/santo-do-dia/08/13/santa-filomena.html

https://santonossodecadadia.com.br/events/santa-filomena/

https://santuariosantafilomena.com.br/oracoes-de-santa-filomena/

Imagem: Santuário Santa Filomena