#Reflexão: 5° Domingo da Quaresma (22 de março)

A Igreja celebra o 5° domingo da Quaresma, neste domingo (22). Reflita e reze com a sua liturgia.

Leituras:
1ª Leitura: Ez 37,12-14
Salmo: 129(130),1-2.3-4ab.5-6.7-8 (R. cf. 7)
2ª Leitura: Rm 8,8-11
Evangelho: Jo 11,1-45 ou mais breve 11,3-7.17.20-27.33b-45

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Ressurreição de Lázaro: Da vida para a Vida

            Estamos encerrando o tempo da Quaresma. Neste último domingo, temos o terceiro texto do Evangelho de João (Jo 11) que trata da resposta que Jesus nos dá sobre a nossa última realidade neste mundo: a morte. Para Jesus, também será o derradeiro sinal público. Em seguida, tem unção em Betânia e os preparativos para a Ceia de Jesus com os discípulos (Jo 12).

            Na história de Lázaro, Jesus não se mostra solidário somente com aquela família, Ele nos revela que a nossa fé e a nossa esperança devem ir além de toda e qualquer realidade humana até mesmo da morte. Um Evangelho forte e profundamente humano que nos mostra Jesus sofrendo conosco: Ele chora, grita forte, chama para a vida! Várias vezes somos informados sobre aqueles que choram, inclusive Jesus.

A família que é descrita pelo evangelista João é composta por pessoas que são muito mais do que amigos de Jesus. Naquela casa há somente irmãos (Lázaro, Marta e Maria), não há nenhum outro grau de superioridade ou inferioridade. São descritos como muito íntimos de Jesus e que tiveram fortes experiências com o Senhor (ungir e enxugar os pés) e todos são lembrados como pessoas que as quais Jesus amava, dando especial destaque o amor de Jesus para com Lázaro. Muitos estavam na casa para chorar a morte de Lázaro, ele era uma pessoa querida por muitos que estavam ali para manifestar seu carinho pelas irmãs.

            Este grande milagre é o último sinal no Evangelho de São João (são sete ao todo) antes de Jesus encerrar sua vida em Jerusalém. Por isto é uma história onde se cruzam morte e vida com profundos sentimentos com expressões claras de amor e amizade. No fundo, esta família representa todos os cristãos e suas comunidades.

Betânia ficava na região da Judeia e lá a situação estava cada vez mais dramática para o lado de Jesus. Os judeus já tinham decido matá-Lo. Os discípulos, inicialmente, entenderam a decisão de Jesus de não ir até a Judeia, isto quando Ele recebeu a notícia do grave estado de Lázaro: para os discípulos era uma forma de se distanciar do perigo. Mas, depois de dois dias, Jesus muda de ideia e resolve ir ao encontro do amigo que, talvez, já estivesse morrido. Para Tomé não tinha mais nada para fazer, mas o discípulo é solidário com seu Mestre tendo, no entanto, um pensamento negativo e fixado na morte certa que todos iriam encontrar. Para Tomé, aqueles lados da Judeia, a morte imperava e não havia mais esperanças.

            Dentro do vilarejo de Betânia, predominava o choro e a mentalidade da derrota diante da morte. Jesus provoca a saída de todos: primeiro de Marta, depois de Maria, dos judeus e, por fim, de Lázaro. Jesus não adere a esta realidade e quer propor algo que vai além. De pouco em pouco, Ele consegue atrair todos para fora daquela visão de vida, lamento e tristeza que a morte traz consigo.

Lázaro era alguém especial. Todos o amavam e todos choraram por ele. A dor da morte que experimentavam obscureceu os sentimentos de todos. Marta vai ao encontro de Jesus, mas para reprovar a “ausência” do Mestre no momento em que mais precisavam. Mas, Jesus tinha alertado os discípulos que a morte não teria a última palavra sobre o amigo Lázaro. Da mesma forma, Jesus dissera sobre a cegueira daquele homem que ele curou: não era um castigo, mas para manifestar a glória de Deus.

Marta sai para se encontrar com Jesus, não o cumprimenta e nem lhe saúda, mas critica o aparente descaso para com o seu irmão: “Se tivesse estado aqui, meu irmão não teria morrido!”. Ela pensava que Jesus, ao saber da notícia, viria correndo para operar mais um milagre. Marta e depois Maria queriam ensinar Jesus como deveria agir, principalmente com os amigos especiais. Marta esperava que toda a ligação que todos tinham com Jesus (fé, amizade, amor e carinho), Lázaro poderia ter tido o privilégio de um destino diferente de outras pessoas.

No diálogo com Marta, nós conhecemos o verdadeiro sentido da Vida que Jesus veio nos trazer: É algo que vai além da vida biológica e desta realidade humana, pois é a Vida Eterna. Na conversa com Jesus, Marta revela a crença que todos os judeus possuíam: a “ressurreição no último dia”, mas uma ressurreição para esta vida (este mundo). Como vemos na 1ª leitura do profeta Ezequiel. Mas, Nosso Senhor insiste que a Vida que Ele propõe é algo muito maior. Jesus insiste com Marta que “Ele é a ressurreição e a vida”.

Assim, crer em Jesus não significa ter o dom de “não morrer”, mas possuir uma vida concedida por Jesus que a morte biológica (física) não pode jamais cancelar: “... aquele que crê em mim não morrerá jamais!”. Jesus não diz que quem acredita Nele ressurgirá com a mesma vida, mas já possui uma Vida que não morre. É a Vida Eterna conquistada por Jesus que a morte física não consegue mais destruir. São Paulo na 2a leitura nos lembra que o Espírito Santo que habita em nós, nenhuma morte biológica jamais poderá destruí-lo.

Quando Maria se aproxima e se encontra com Jesus, ela se joga aos seus pés, também censura Seu amigo pela sua ausência, mas Nosso Senhor, desta vez, resolve entrar no sofrimento de todos. João por duas vezes menciona que Ele se emocionou profundamente e se deixou contagiar pela dor e pela emoção de todos.   Ao chegar onde estava Lázaro, todos sabiam que já se tratava de um defunto e não mais de uma pessoa. Nada mais se podia fazer diante daquela realidade onde já “cheirava morte” (é Marta quem alerta Jesus sobre isto) e não existia mais nenhum sinal de vida. Tudo já pertencia ao passado e uma pedra colocada no sepulcro selava e encerrava a história de Lázaro. Mas, Jesus pede para retirá-la. Todos têm dificuldade de acreditar nas palavras de Jesus. Mas, Ele exorta Marta que é necessário crerparaver a Glória de Deus (não o contrário que sempre pediam os opositores de Jesus).

Para João, Jesus é o Senhor da vida, por isso, o evangelista usa uma imagem de exaltação ao chamar Lázaro do sepulcro. Nosso Senhor “grita com voz forte” para anunciar a vida. E “aquele que tinha estado morto” retorna à vida. Neste caso, não se trata da mesma Ressurreição que Jesus inaugura após vencer a morte, mas de um reavivamento. O amigo de Jesus retorna para essa vida biológica com toda a realidade que bem conhecemos. João descreve que Lázaro sai envolve em faixas: como uma criança, um novo nascimento.

Três verbos são ditos por Jesus e são importantes para nós cristãos. “Vem pra fora!” É a voz de Jesus que nos ajuda a vencer a morte biológica, pois quem crê em Jesus tem a Verdadeira Vida que permanece mesmo após a morte física. É Ele quem nos chama! Outros verbos são direcionados pra nós: “Desatai-o” e “deixai-o ir”. Aqueles que morrem em Cristo são livres deste mundo e caminham para Jesus, pois Ele é a voz que nos chama para a Vida Verdadeira com Deus Pai. Para nós, os nossos irmãos que já partiram não nos pertencem mais, estão em boas mãos e eles nos esperam (desatai-os, deixai-os). Distanciam-se de nossos olhos, mas nós os carregamos em nossos corações; e eles nos aguardam, pois, um dia nos reencontraremos todos juntos com Cristo.

            Nesta passagem vemos Jesus em sua maior expressão como pessoa humana: Ele chora e emociona por seus amigos; grita e se comove diante do sofrimento de todos. Quando se ama, o ser humano cumpre gestos divinos; quando ama, Deus o faz com gestos tão humano. É o amor que gera tudo e vai além da morte (E. Ronchi).

Lázaro teve sua vida biológica devolvida e tornou-se um sinal de que, realmente, Jesus pode vencer até mesmo a morte. Mas, Lázaro, um dia, morreu novamente, mas com uma experiência certa de que, quem o amou e chorou por ele em sua vida terrena, agora o espera, desta vez não mais neste mundo, mas junto com Deus. Esta também e a nossa fé e a nossa esperança.

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#Reflexão: 4° Domingo da Quaresma (15 de março)

A Igreja celebra o 4° domingo da Quaresma, neste domingo (15). Reflita e reze com a sua liturgia.

Leituras:
1ª Leitura: 1Sm 16,1b.6-7.10-13a
Salmo: 22(23),1-3a.3b-4.5.6 (R. 1)
2ª Leitura: Ef 5,8-14
Evangelho: Jo 9,1-41 ou mais breve 9,1.6-9.13-17.34-38

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CURA DO CEGO DE NASCENÇA

            O Evangelho deste 4º domingo da Quaresma, nos apresenta mais um encontro de Jesus, desta vez, se trata de um cego de nascença. Toda uma vida sem poder fazer nada e vivendo somente da esmola de outras pessoas; alguém desprezado por todos, pois se acreditava que tal doença era um castigo: alguém tinha pecado (ou ele ou seus pais), por isso ele era cego desde o nascimento. Tudo isso, revelou uma visão deturpada de Deus, que Jesus não concordou de modo nenhum. Afirmar que Deus pune por toda a vida alguém que errou, isso depunha contra o Deus da misericórdia que Jesus procurava revelar.

 Tudo inicia com a observação do escritor sagrado que Jesus viu aquele que não podia enxergar. Todas as pessoas já nem notavam mais aquele homem que mendigava a beira do caminho. A cegueira era dos dois lados. Para as pessoas, o cego era somente um pecador que pedia esmolas. O homem não via nada (desde que veio ao mundo), não era visto por ninguém, mas foi enxergado por Jesus.

          Todos, inclusive os discípulos, tinham uma desculpa para manter o cego em seu estado de desprezo e afirmavam: “está assim, porque ele ou seus pais tinham pecado”! Dessa forma, todos estavam bem com suas consciências. Ao miserável, bastava o resto (a esmola), pois estava fechado na escuridão do pecado, um amaldiçoado por Deus.

Mas, Jesus é luz e quer iluminar a vida de todas as pessoas. Ele se aproximou e iniciou a cura sem ser solicitado por ninguém. A cegueira foi eliminada, mas mediante um ritual que consta de uma ação de Jesus através de sua saliva (recorda a criação de Adão, por Deus Criador) e de um gesto pessoal de fé do cego. A cura se processou quando o cego deixou tudo e foi se lavar nas águas da piscina de Siloé. Esse local era conhecido e usado por todos, mas para aquele homem desprovido da visão desde o nascimento foi um lugar transformador. A sua fé fez com que ele acreditasse em tudo que lhe foi feito (saliva nos olhos) e lhe foi pedido (ir até a piscina). Podemos visualizar nesses gestos e palavras, a celebração do Batismo, que nos é concedido através também da Igreja e através de um ritual com gestos e palavras, mas tudo tem efeito, se efetivamente a pessoa crer realmente naquilo que recebeu.

Mas, a cura do cego não lhe trouxe alegria e nem felicidade, nem para ele e nem para as pessoas que ele conhecia. Mais uma vez, tudo aconteceu em dia de Sábado, momento especial do fiel judeu para com Deus durante a semana. Para os fariseus e o povo judeu, a lei e as normas eram mais importantes que as pessoas, até mesmo aquelas que mais precisavam da ajuda de todos (isto é, os doentes, os pobres, os marginalizados...).

O legalismo dos principais religiosos tinha tornado todos “cegos” para a realidade das pessoas. Não viram o cego curado, mas somente a norma violada. A cura do cego foi realizada por Jesus, mas aqueles homens da religião é que precisavam realmente de uma profunda cura.

Aqueles que conheciam aquele que foi curado, não acreditavam em suas palavras. Para eles, o cego já tinha uma história e um fim estabelecidos por Deus e nada poderia mudar. Ao ser perguntado pelos parentes incrédulos, o cego que tinha sido curado, fala de Jesus, como sendo um homem que lhe tinha pedido para fazer algo após lhe ter tocado os olhos. O cego tinha acreditado sem ver e fez tudo sem pedir provas, sendo esse o primeiro passo fundamental da fé.

O cego não conhecia Jesus, mas os fariseus sabiam bem quem Ele era. Eles tinham determinado que quem O seguisse sofreria punições. Os religiosos judeus tinham disseminado medo e terror nas pessoas por causa de Jesus. Mas, o cego era o sinal de que Cristo era capaz de fazer um grande milagre. Para os fariseus, Jesus era pecador e eles tentaram desmentir aquele que tinha sido curado da cegueira. Fizeram pressão contra o cego na tentativa de “desmascarar” o milagre: tentaram provar que ele nunca tinha sido cego. Mas, ao perguntar àquele que tinha sido curado por Nosso Senhor, ele respondeu que “Jesus era um profeta”. Incrédulos e obcecados por seus princípios, tentaram forçar os pais daquele que fora cego a desmentir o filho. Mas, a verdade prevaleceu, não obstante ao medo que causavam os fariseus. É a luz de Deus que vence a escuridão dos corações fechados para a graça de Deus!

Bonita a coragem que o curado demonstrou diante da insistência dos fariseus, de convencê-lo do seu pecado e também que Jesus era pecador. Ele enfrentou e assumiu sua experiência de encontro com Jesus. Todas as leis e princípios dos fariseus não conseguiram superar a experiência de fé que ele tinha tido.

O evangelista João, esclarece que os fariseus tinham decretado que aquele que reconhecesse Jesus como o Messias, deveria ser expulso da sinagoga. Assumir publicamente a fé, implicaria na excomunhão da religião judaica. O medo era grande, mas a verdade tinha que prevalecer.

No segundo momento de debate entre os fariseus com aquele que tinha sido curado por Cristo, sendo pressionado a negar que Jesus tinha realizado a cura, aquele que fora cego mostrou-se mais decisivo em relação a Jesus. Os fariseus apegados às leis e preceitos não conseguiam aceitar o óbvio que estava diante de seus olhos. O sujeito que tinha sido agraciado com a cura da cegueira mostrou-se muito mais decisivo em suas convicções, pois para ele a experiência pessoal com Jesus Cristo era algo muito mais forte: Jesus tinha mudado completamente sua vida. Mas para os fariseus, o cego e Jesus eram somente pecadores. Ao se posicionar clara e decisivamente a favor de Jesus, aquele que fora cego foi expulso do ambiente judaico (da sinagoga).

Após ser expulso, aconteceu um novo encontro entre Jesus e ele. Longe do ambiente da Sinagoga, aquele sujeito pode confirmar sua fé diante de Jesus (nos recorda o Sacramento da Crisma). Aquele que fora curado por Jesus tinha sido firme e decisivo colocando em risco sua vida e assumindo até as últimas consequências, a sua fé em Jesus. Na realidade os verdadeiros cegos não são aqueles que estão desprovidos da visão, mas aqueles que estão cegados pelo legalismo e não percebem a luz de Deus na vida das pessoas.

Percebemos com esta triste realidade de religiosos na época de Jesus que é possível ser crente em Deus e não ser bom; ser um cristão, mas com o coração endurecido e insensível; crer em Deus e não amar o homem. É criar uma religião estranha que não olha para o bem do homem, que fala apenas de si mesma e para si mesma. Uma fé que não se interessa pela humanidade não merece que nos dediquemos a ela (Ermes Ronhci).

Esse drama pessoal retrata muito bem a realidade dos cristãos algumas décadas depois do início da caminhada da Igreja, quando os judeus tinham decidido que quem professasse a fé em Jesus Cristo não poderia mais frequentar a sinagoga e seria expulso da religião judaica. Algo que acontece hoje em dia em muitos ambientes extremistas, mas também em nosso meio quando procuramos defender os valores cristãos e os ensinamentos deixados por Jesus e somos perseguidos por causa de nossa fé e de nossos princípios.

Mas, a cura do cego por parte de Jesus, revela que Deus tem seus caminhos próprios que nem sempre corresponde a nossa lógica e até a nossa visão da realidade. É fundamental estar em sintonia com Deus e descobrir o que realmente devemos fazer, pois Ele procura fazer sempre o melhor para todos nós. Na primeira leitura, observamos Deus escolhendo aquele que Ele achava o melhor, não seguindo os critérios humanos, mas segundo seus princípios e isto foi surpresa até mesmo para o profeta. Davi, mesmo tendo uma aparência frágil e ainda uma criança, Deus sabia que ele seria capaz de cumprir sua missão até o fim. Deus não tem que se moldar aos nossos critérios e preceitos, mas nós é que temos que perceber o que Ele pretende para cada um de nós. A segunda leitura nos diz que não basta reconhecer e aceitar Jesus como Luz do Mundo, mas é fundamental que cada um se torne também Luz na vida de outras pessoas.

No mundo de hoje existem muitas cegueiras que impedem realmente de ver a riqueza que Deus tem para nós, mas é fundamental se deixar tocar por suas palavras e cumprir o que nos pede, mesmo que isto signifique romper com muitos preconceitos e ideologias pessoais. O amor de Deus é a verdadeira luz que precisamos em nossas vidas!

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Evangelho’s: uníssono no conteúdo, polifônicos na forma

A multiplicidade de textos relativos à pessoa e à obra de Cristo, elaborados pelas comunidades cristãs primitivas, levou não só à classificação dos livros em canônicos e apócrifos, mas também suscitou questionamentos sobre o número dos escritos que foram reconhecidos como inspirados por Deus para a salvação humana. Durante os dois primeiros séculos do cristianismo, nos quais ocorreu a formação do cânon bíblico do Segundo Testamento, a atuação de Santo Irineu (130-202) como bispo de Lião garantiu à Igreja o primeiro testemunho sobre a quádrupla forma do único Evangelho de Cristo. Ao escrever a obra Adversus Haereses (Contra as Heresias), cujo objetivo era refutar as heresias que surgiram na região da Gália, mas não somente nela, Irineu desenvolveu uma legítima teologia bíblica. No livro III de sua obra, o bispo defendeu o que ficou conhecido como Evangelho quadriforme, ou seja, ele afirmou que há um só Evangelho e que ele foi registrado de quatro maneiras específicas (cf. vol. 4, coleção Patrística, Paulus).
Recorrendo às Escrituras para combater as heresias que ameaçavam a ortodoxia da fé, Irineu afirmou que a verdade da doutrina cristã nasceu do “poder do Evangelho” (ἐξουσία εὐαγγελίου), que é a autorização concedida por Jesus aos apóstolos para anunciar a sua mensagem: “toda a autoridade me foi dada no céu e sobre a terra. Vão, portanto, e façam que todas as nações se tornem discípulas, batizando-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, e ensinando-as a observar tudo o que lhes ordenei” (Mt 28,18-20). Somente os quatro evangelhos escritos sob a aprovação apostólica são divinamente inspirados, porque contêm o único Evangelho, que Irineu identifica com a própria mensagem de Jesus. Portanto, existe um único Evangelho no que diz respeito ao conteúdo, porque todos os quatro livros tratam, cada qual a seu modo, de transmitir a verdade anunciada por Cristo através de seus gestos e de suas palavras, já que “há um só Senhor, uma só fé, um só Batismo” (Ef 4,5); porém, o Evangelho é quadriforme, pois a mensagem indivisível é dita de maneiras diferentes e para leitores específicos: “muitas vezes e de muitos modos, Deus falou no passado aos nossos pais pelos profetas” (Hb 1,1).
Essa dupla dimensão, que caracteriza a natureza dos evangelhos canônicos, é semelhante à dinâmica que existe na apresentação de uma peça musical por um coral formado de vários naipes: apesar de cantar uma mesma letra, os coralistas executam melodias diferentes que se sobrepõem umas às outras, criando a polifonia. Unidas pelo conteúdo lido, as vozes dos sopranos, contraltos, tenores e baixos se separam para cantar melodias específicas, dando formas sonoras diferentes às mesmas palavras e mantendo a necessária harmonia para que o canto seja belo. De igual maneira, os quatro evangelistas leram unissonamente a mensagem salvífica de Cristo, porque tudo aquilo que Ele fez e disse é indivisível; porém, cada evangelista “cantou” o que viu e ouviu segundo uma melodia específica, criando uma polifonia que transmite a verdade na diversidade. Quem garante a perfeita harmonia melódica entre o soprano Lucas, o contralto Mateus, o baixo Marcos e o tenor João é o próprio Espírito Santo, que rege o coro escriturístico com a batuta da inspiração divina.
Por isso, o Evangelho de Jesus foi consignado em quatro livros que são considerados verdadeiramente autênticos, pois foram escritos segundo a ação do Espírito Santo e de acordo com o poder dado pelo Senhor aos apóstolos: “constituiu doze para que ficassem com ele (...) e para que tivessem autoridade” (Mc 3,14-15); “chamando seus doze discípulos, Jesus deu a eles autoridade” (Mt 10,1). Dessa forma, o bispo de Lião deixou claro que, já nos meados do século II, o cânon bíblico dos evangelhos estava bem definido, atestando que a Igreja reconheceu os textos redigidos sob a autoridade de Mateus e João, apóstolos diretamente chamados por Jesus, e de Marcos e Lucas, discípulos de Pedro e Paulo, respectivamente, como divinamente revelados. Segundo Irineu, cuja obra documentou o pensamento das comunidades primitivas sobre os livros canônicos, há quatro evangelhos, nem mais nem menos que isso.
Santo Irineu justificou o número dos evangelhos canônicos recorrendo a analogias ligadas ao mundo natural e à própria Sagrada Escritura, sendo o primeiro escritor da literatura cristã a vincular o Evangelho quadriforme com os quatro seres vivos presentes na narrativa de Ez 1,4-10 e citados, também, em Ap 4,6-8: “o rosto deles era parecido com o rosto de um homem. Do lado direito tinham aparência de leão, e do lado esquerdo tinham aparência de touro. Os quatro tinham também aparência de águia” (Ez 1,10); “o primeiro vivente parece um leão; o segundo parece um touro; o terceiro tem rosto como se fosse humano; o quarto parece uma águia voando” (Ap 4,7). É fato que, com isso, o bispo não tinha o interesse de elaborar uma teologia do significado de cada ser celestial e de sua relação com os conteúdos dos evangelhos, uma vez que o seu intuito era unicamente justificar o número dos textos canônicos, reprovando qualquer subtração ou adição em relação aos quatro textos.
Embora, no início do século V, em sua obra De consensu evangelistarum, a respeito da harmonia dos evangelhos, Santo Agostinho (354-430) tenha proposto uma equivalência entre os seres viventes e os evangelhos diferente da que fora estabelecida por Irineu, é a descrição feita por São Jerônimo (347-420) que consolidou os seres da visão de Ezequiel como símbolos dos evangelhos, no prefácio do seu livro Commentariorum in Matthaeum, em que explica o texto de Mateus. Ao falar do tetramorfo, isto é, da arte por meio da qual a iconografia cristã representa os quatro evangelistas segundo os elementos presentes na visão de Ezequiel, Jerônimo disse: “a primeira face, de homem, significa Mateus, que começou a escrever como que partindo do homem: ‘livro da origem de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão’ (Mt 1,1); a segunda significa Marcos, no qual se ouve a voz do leão que ruge no deserto: ‘voz que clama no deserto: preparai o caminho do Senhor, endireitai suas veredas’ (Mc 1,3); a terceira, de touro, prefigura o evangelista Lucas, que começou o seu relato pelo sacerdote Zacarias (cf. Lc 1,5-25); a quarta indica o evangelista João, que, tomando as asas da águia e apressando-se em galgar as alturas discorre acerca do Verbo de Deus (cf. Jo 1,1-18)” (cf. vol. 44, coleção Patrística, Paulus).
Feita essa digressão sobre o arranjo simbólico dos evangelistas, é preciso voltar à essência da ideia de Evangelho quadriforme de Santo Irineu, através da qual ele defendeu o cânon dos quatro livros dos evangelhos e a unidade do Evangelho enquanto mensagem revelada. A teologia bíblica elaborada pelo bispo gaulês, em vista do combate às heresias que surgiram no seio da Igreja nascente, evidencia que a integridade do conteúdo evangélico é mantida e realçada em cada um dos textos sobre a pessoa e a obra de Jesus, mostrando que, na verdade, há um Evangelho e que ele é dito de quatro maneiras diferentes. A polifonia gerada pela pluralidade dos textos é harmonizada pela concordância uníssona do conteúdo que sustenta a catequese de todos os quatro evangelistas, cuja proclamação pode ser resumida do seguinte modo: “Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho único, para que não morra quem nele acredita, mas tenha vida eterna” (Jo 3,16).

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#Reflexão: 3° Domingo da Quaresma (08 de março)

A Igreja celebra o 3° domingo da Quaresma, neste domingo (08). Reflita e reze com a sua liturgia.

Leituras:
1ª Leitura: Ex 17,3-7
Salmo: 94(95),1-2.6-7.8-9 (R. 8)
2ª Leitura: Rm 5,1-2.5-8
Evangelho: Jo 4,5-42 ou mais breve 4,5-15.19b-26.39a.40-42

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ENCONTRO COM A SAMARITANA

A história do encontro de Jesus com a samaritana não possui nenhum milagre, nem algo fantástico ou surpreendente, Jesus é descrito como alguém que está sozinho e cansado, por isso se mostra como alguém necessitado de água: elemento essencial para a vida. No deserto (1º domingo da Quaresma), Ele teve fome; agora, tem sede. Foi exatamente nesta situação tão singular que aconteceu algo grandioso para uma mulher. Jesus não possui nenhum preconceito contra nenhum tipo de pessoa, pois todos somos  filhos e filhas de Deus. 

No Evangelho de São João, esta passagem da Samaritana (Jo 4) está logo em seguida de outro encontro: com Nicodemos (Jo 3). Aquele homem, judeu e alguém da alta cúpula da religião judaica, estava dividido e indeciso: reconhecia os sinais de Deus em Jesus, mas não se decidiu, até naquele momento, por Jesus. Procura o Mestre a noite (com receios dos judeus) e mesmo depois de um diálogo franco e revelador com Jesus, não saiu da escuridão da incerteza para se encontrar com Jesus em plena luz.

O local e a região do encontro de Jesus com a Samaritana eram conhecidos de todos, inclusive pela profunda inimizade que reinava entre os judeus e os samaritanos. Mas, lá também havia o poço de Jacó, personagem este que – de qualquer modo – unia a todos em um único passado. Muitas histórias de amor na Bíblia tiveram início ao lado de um poço: Rebeca e Isaac, Gn 24; Raquel e Jacó, Gn 29; Zípora e Moisés, Ex 2. João evangelista, nos diz que era “meio-dia”, hora da plena luz quando Jesus se colocou ao lado do poço e uma mulher resolveu tirar água, justamente naquele horário, em um momento nada adequado, por isso, ninguém estava no local e ela estava sozinha. Talvez, aquela mulher tinha escolhido aquele horário para não se encontrar com ninguém, pois se sentia rejeitada e discriminada por todos. Em nossa realidade atual, muitos grupos, inclusive de religiosos, fazem questão de eleger os “escolhidos” e “prediletos” de Deus, bem como aqueles que são colocados como “perdidos” e “condenados” por Deus, Jesus encontrava com uma pessoa colocada como desprezível pelos religiosos da época.

Jesus, vendo a mulher se aproximar, lhe pediu um pouco de água. Ele poderia resolver sozinho seu problema, mas era oportuno que solicitasse água para a samaritana, pois este seria o início de sua transformação. Jesus que é rico e sempre fez de tudo para os outros se mostrou necessitado e pediu algo que aquela mulher poderia conceder (ninguém nega um pouco de água a um necessitado). 

A primeira reação da samaritana foi de espanto, pois ela sabia que Jesus não era um samaritano e ademais, ela era uma mulher e Jesus um homem. Ela não recusou, mas se espantou pela solicitação que vinha de alguém (um judeu) que jamais faria isso. O primeiro nível de relacionamento que ela lembra é do preconceito e da discriminação. Ela tinha sempre experimentado somente o negativo no relacionamento com as pessoas. Jesus não entrou neste jogo e nem rebateu suas observações, mas lhe ofereceu o essencial: “se conhecesses o dom de Deus...”, esse é totalmente contrário aos muros e aos obstáculos que as pessoas erguiam e erguem para isolar e discriminar outras pessoas. 

Jesus afirma que da parte de Deus não há obstáculo, mas “dom” (oferta) que ela poderia encontrar e não recebida das religiões da época. As pessoas criam paredes com preconceitos; Deus oferece e doa a Si Próprio. No fundo, percebemos que, na realidade, Jesus não tem sede de água, mas da nossa sede por Ele; Ele deseja que nós O desejemos. O Noivo anseia ser amado (Ermes Ronchi).

O Mestre Jesus iniciou um diálogo, procurando mostrar algo mais profundo e fundamental: tudo iniciou com um “pouco de água” para matar a sede e Jesus lhe propôs de conhecer o dom de Deus que concede “água vida”. Entrando na conversa, a mulher questionou Jesus, chamando-o de “senhor” (sinal de respeito) e entrou no campo religioso, questionando se Ele era maior que “nosso pai Jacó. Ela se mostrou uma pessoa religiosa que conhecia as Escrituras, mas ainda se revelou fixa a algo exclusivo e material.

Jacó deixou um poço que podia dar uma água que somente matava a sede do corpo; mas Jesus foi e é aquele que pode inundar toda a pessoa com uma água de “vida eterna”. A água do poço saciava uma necessidade física e pessoal; mas a água de Jesus transforma o discípulo em fonte de água viva para outras pessoas.  

A samaritana viu uma solução para parte de seus problemas: não teria mais sede e nem viria até aquele lugar ao meio dia, horário de sol escaldante. Jesus trouxe a questão para a principal fonte de seus problemas: sua vida familiar. Ao pedir para que ela chamasse seu marido, Jesus tocou no campo pessoal e ela simplesmente poderia ter dado várias respostas, mas resolveu ser sincera: ela já estava no sexto casamento. Naquele tempo, somente o homem é que pedia divórcio e assim, repudiava sua mulher, a Samaritana estava no sexto marido. Talvez ela tivesse ficado viúva, ou teria sido repudiada por todos os cinco e o atual não a tinha ainda efetivamente como sua mulher. Essa história era conhecida de todos e ela tinha escolhido pegar água no poço para não ter que enfrentar a discriminação de seu povo. Uma história pessoal de rejeição e abandono, mas Jesus lhe ofereceu a solução.

Na Bíblia, o número seis está ligado à imperfeição e o sete é o número que completa tudo. Jesus se apresenta com o verdadeiro marido (o sétimo), mas não como os outros, como da mesma forma que a água viva e eterna não era aquela do poço. A samaritana ao ouvir parte de sua história com os maridos, reconheceu Jesus como um profeta. E Jesus não lhe fez nenhum sermão ou exigência, muito menos qualquer discurso moralista ou de ameaça. 

A samaritana, após reconhecer Jesus como um profeta, lhe apresentou outro drama que todos viviam: o local de adoração. Os samaritanos não tinham mais o templo no alto do monte Garizim e eles não podiam jamais adorar em Jerusalém. A pergunta da mulher sobre o local de adoração revelou uma necessidade de adorar a Deus e Jesus aprofundou mais uma vez a questão, mostrando que o primeiro e o principal local de adoração é em Espírito e Verdade. Deus Pai quer seus filhos e filhas em uma vida de pleno amor (Espírito) e de testemunho (Verdade). 

A samaritana deu mais um passo em relação ao conhecimento de Jesus e Lhe apresentou a questão do Messias e Jesus, sem nenhum rodeio, lhe disse que era Ele. A samaritana, com a chegada dos discípulos abandonou seu jarro e retornou à cidade. Até aquele momento, a água do poço era o mais importante. Jesus tinha dito que a sua água transformaria todos em fonte de água viva, assim, ela convocou e disse a todos o que aconteceu. A sua fraqueza e sofrimentos (sua realidade pessoal com os maridos) se transformaram em motivos para o início de seu anúncio. Ela anunciou a partir de sua experiência pessoal e profunda com Jesus, revelando-O como o Messias esperado por todos. Nicodemos não teve coragem que a Samaritana teve: de abandonar seu jarro de água que sempre precisava ser enchido somente de água, sair e anunciar quem era Jesus

Aquela mulher vivia fugindo das pessoas e a sua experiência profunda com Jesus lhe deu coragem e firmeza em suas palavras, de tal forma que muitos samaritanos passaram a acreditar em Cristo por causa de suas palavras. Eles mesmos confirmaram pessoalmente tudo que ela tinha narrado e também se tornaram em novas fontes de água viva. Este é o principal instrumento hoje da Evangelização: pessoas inundadas do amor de Deus que testemunham a partir de suas vidas.

No quarto Evangelho, nesta passagem, Jesus tem sede e pede água a uma samaritana. A mesma expressão e desejo, encontramos no alto da cruz quando Jesus diz: “Tenho sede” (Jo 19,28), mas terá o amargor do vinagre como dom que Lhe oferecem.

Deus sempre faz de tudo para nos dar o que realmente precisamos. Na 1ª leitura, o povo mais uma vez se mostrou ingrato para com Deus e sempre reclamando pelas coisas que faltavam. O relacionamento para com Deus foi se tornando seco e árido. Aquela gente, mesmo bebendo água que saia da rocha não se deixava inundar pela plena confiança em Deus. O grande problema não eram as dificuldades encontradas no deserto, mas a falta de confiança e fé do povo. Deus sempre fará de tudo para nos ajudar a enfrentar os desafios de nossa jornada neste mundo, basta confiar Nele. Os desafios permanecerão e serão sempre corriqueiros, mas a forma de enfrentá-los, será diferente: será com Deus! Deus sempre fará o máximo por nós, até mesmo tirar “água de pedra”, mas é fundamental acreditar e confiar! Paulo na 2ª leitura lembra do imenso amor de Deus por nós até ao ponto de dar sua vida por todos, por isso, precisamos confiar sempre e ter fé, pois Ele já provou o seu amor por nós. Ele já provou que não somente é capaz de fazer jorrar água de pedra, mas derramou o seu próprio sangue para nos libertar do principal desafio para a humanidade que era o pecado. Quando o coração se transforma em pedra, é difícil fazer milagres, por isto é necessário se deixar tocar por Jesus que se coloca ao nosso lado, não para nos incriminar em relação aos nossos erros e  pecados, mas para nos ajudar a experimentar da verdadeira água viva que jorra do coração de Deus e consequentemente, deve jorrar de nossos corações e de todos que estão ao nosso lado. 

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Arquidiocese de Pouso Alegre apresenta os coordenadores das Pastorais, Movimentos e outros

A Arquidiocese de Pouso Alegre, por meio da Secretaria de Pastoral, apresentou recentemente seu "documento" organizacional que detalha a estrutura pastoral para o ano de 2026, sob a coordenação da Coordenação Arquidiocesana de Pastoral. Este documento lista os assessores eclesiásticos responsáveis por diversas áreas pastorais, movimentos, comissões e outros organismos dentro da arquidiocese, delineando a organização das atividades eclesiais para o próximo ano.

Estrutura Pastoral
O documento traz uma lista abrangente dos padres e assessores leigos responsáveis por diferentes segmentos da arquidiocese. As áreas englobam desde a Pastoral de Animação Bíblica até a Pastoral Carcerária, cada uma com seu respectivo representante eclesiástico, como Pe. Luciano Aparecido Pereira, que continua seu trabalho na Animação Bíblica.

Movimentos e Comissões
Além das áreas pastorais, o documento destaca movimentos como o Apostolado da Oração, liderado por Pe. Francisco Carlos, e comissões variando de Liturgia a Formação Permanente. A organização reflete uma atenção contínua às necessidades da comunidade.

Este texto serve não apenas como uma ferramenta organizacional, mas também como um testemunho do compromisso contínuo da Arquidiocese de Pouso Alegre com a orientação espiritual e administrativa de suas pastorais, paróquias e comunidades.

 

 


#Reflexão: 2° Domingo da Quaresma (01 de março)

A Igreja celebra o 2° domingo da Quaresma, neste domingo (01). Reflita e reze com a sua liturgia.

Leituras:
1ª Leitura: Gn 12,1-4a
Salmo: 32(33),4-5.18-19.20.22 (R. cf. 22)
2ª Leitura: 2Tm 1,8b-10
Evangelho: Mt 17,1-9

Acesse aqui as leituras.

JESUS SE TRANSFIGURA DIANTE DOS DISCÍPULOS

No domingo anterior, 1º da Quaresma, fomos conduzidos, juntamente com Jesus, ao deserto. O evangelista Mateus nos informou que Jesus foi levado pelo Espírito Santo e também foi tentado pelo Mal. Vimos a importância da oração e a Palavra de Deus que nos ajudam a vencer todas as tentações, principalmente, quando estamos fracos e debilitados por nossa realidade humana. Sabemos que Jesus é 100% Deus, mas no deserto vimos a sua outra realidade de 100% homem. Ele não venceu o mal usando “seus poderes” divinos (que podia a qualquer momento fazê-lo), mas nos ensinou como também nós (que somos somente 100% humanos) podemos superar as ações do Mal que sempre se aproveita de nossas fraquezas para tentar nos arrastar para longe de Deus. Muitas são as formas de tentação inclusive usando o discurso de “direitos humanos” (de se saciar quando há fome), de “ser famoso” (desafiando até Deus se jogando do Templo) e de garantir neste mundo o seu futuro (ter todos os reinos terrenos). O Mal é astuto e esperto, usa até mesmo a Bíblia para tentar ludibriar Jesus, mas é exatamente na Palavra de Deus que encontramos a força para permanecer com Deus e descobrir a Sua vontade, conforme Jesus nos ensina.

Neste 2º domingo da Quaresma, somos novamente conduzidos, mas desta vez sobre uma montanha, juntamente com três discípulos que Jesus chamou com Ele para juntos rezarem. No alto do monte, descobrimos o lado 100% divino de Jesus que desejou revelar aos seus apóstolos aquilo que todos nós temos como promessa e herança conquistadas para nós por Jesus. A transfiguração é um pouco daquilo que teremos, juntos a Deus, depois desta nossa vida terrena.

Em Mateus, a transfiguração de Jesus ocorre “seis dias depois...” (Mt 17,1a), parece se tratar de 6 dias depois da programação de fé de Pedro “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo!”, mas em seguida, Jesus explica como Ele será messias através da sua paixão em Jerusalém, o que deixou Pedro, justamente ele, escandalizado, por isso, o primeiro apóstolo tenta afastar Jesus deste caminho. Nosso Senhor, chama Pedro de “Satanás”, pois queria desviar Jesus de sua missão.

Os apóstolos sempre viram Jesus se ausentar do grupo para rezar. Os momentos de oração que Jesus transcorria durante toda a noite, eram momentos de profunda intimidade e comunhão entre Ele, o Pai e tudo que significa o céu para todos nós. Rezar deve ser o momento em que já experimentamos o amor e a presença de Deus; é falar com Ele, mas principalmente ouvi-Lo.

Jesus decidiu conceder a três de seus discípulos o privilégio de participar deste momento de comunhão neste mundo, entre Ele e Deus Pai. Precisamos, como Jesus, aprender a deixar um pouco a nossa realidade - mas sem abandoná-la completamente - e “subir a montanha”, um local mais especial, para nós, continua sendo nossas igrejas. Em sua oração, Jesus conversa com Moisés e Elias, o primeiro nos deixou os Mandamentos e o segundo a voz dos profetas. Rezar para Nosso Senhor é mergulhar nestas duas fontes fundamentais da fé do Povo de Deus. A oração de Jesus é canal aberto através dos Profetas e dos Mandamentos, onde Deus se faz presente. Toda a tradição da fé do povo de Deus está representada com estes dois personagens do AT, pois Jesus não veio superar ou cancelar nada, mas levar ao seu pleno cumprimento. 

A oração no alto do monte, por um momento, revelou Jesus com todo seu esplendor. Nosso Senhor é plena luz, e não há nada igual neste mundo. A oração para nós deve ser um momento de nos deixarmos inundar com a mesma luz que vem de Deus. No alto da montanha, junto com Jesus, os apóstolos experimentaram um pouco do céu.

Pedro ficou espantado e maravilhado com tudo que viu e disse: “É bom estarmos aqui!”. A oração é, anteciparmos o gosto do céu e já nos sentirmos envolvidos com tudo que é Deus, Nosso Pai. Os apóstolos devem ter sempre perguntado o que acontecia com Jesus quando Ele se retirava para rezar. A oração é se deixar envolver pela “nuvem de Deus” que nos abraça com seu amor e sua presença.

Foi um momento único e espetacular que Jesus quis deixar para seus apóstolos para que eles ensinassem e multiplicassem. Mas, eles ainda não estavam preparados para toda aquela experiência, pois era necessário que Jesus terminasse a Sua missão, pois somente com a Morte e a Ressurreição de Cristo, o acesso ao céu ficaria aberto para toda a humanidade.

As orações de Jesus não foram momentos em que Ele fugia e se escondia do mundo e dos problemas da humanidade. Era necessário ouvir e assimilar de Deus Pai como Ele poderia realizar a Sua missão. Jesus se fortalecia na oração para retomar, em cada momento de sua vida, a estrada da vontade de Deus. Pedro pretendia superar esta fase. Desejava abandonar a dura realidade que tinham deixado e permanecer naquela realidade profundamente agradável que era rezar com Jesus. Pedro propunha a Jesus saltar para a “Glória” sem passar pela “Cruz”.

Pedro estava ainda propondo isso a Jesus, quando se ouviu uma voz vinda do meio da nuvem: “Este é o meu Filho amado, no qual eu pus todo meu agrado. Escutai-o!”. Este é modo de anunciar a presença de Deus no AT. A voz (Deus) comunica como eles podem continuar a experimentar sempre a mesma realidade e ter a mesma satisfação: ouvindo Jesus! 

As palavras de Jesus, principalmente, os seus ensinamentos são as mesmas palavras de Deus Pai. Ele confirma que Jesus é decisivamente o Filho Amado de Deus Pai, aquele que Deus Pai colocou todo o Seu amor. Domingo passado, recordamos as tentações de Jesus que acontecem logo depois do Seu Batismo quando se ouviu, praticamente, as mesmas palavras de Deus Pai. No deserto, o Mal provoca Jesus para tentar, usufruindo da filiação divina (“Se és Filho Deus, mande que estas pedras se transformem em pão... lança-te daqui a baixo...”). Jesus vence as tentações renovando sua fé e confiança em Deus, independentemente, de qualquer prova ou sinal que comprove isso. Não é Deus Pai que se revela, mas Jesus homem Deus que se mostra a todos; não as belezas do céu que brilham, mas o rosto e as veste (sinais humanos) que ganham o esplendor do céu. A transfiguração de Jesus não é somente o céu que “desce” a terra, mas a terra que começa a brilhar como o céu.

“Amor” é uma das palavras que marcam a profunda relação entre Deus e Jesus. A fé não é, senão outra coisa que amar. Não acreditamos em fatos ou meras palavras ou ainda em normas, mas na pessoa de Jesus: o amado por excelência que nos ensina o que é o amor. 

Jesus chamou os três discípulos para saborear na oração um pouco do Paraíso de Deus, mas não podiam ainda permanecer naquele lugar especial, era necessário retornar a missão e cumprir a vontade de Deus Pai. Também Abrão foi chamado por Deus para cumprir uma missão de ser pai de todos aqueles que acreditam no Deus Verdadeiro (1ª leitura). A missão de nosso “pai da fé” implicava em deixar tudo para traz, para abraçar o “novo” que Deus iria lhe mostrar. Fé e oração devem ser para nós como nossas duas pernas neste mundo: com elas caminhamos e percorremos novas terras e subimos as montanhas de Deus, mas sempre buscando cumprir a vontade de Dele, tendo consciência que antes do céu e do paraíso junto de Jesus, também  precisamos enfrentar cruzes e desafios, vencer tentações, mas sempre alimentados com a luz e o amor de Deus Pai, somente assim, conseguiremos terminar bem nossa jornada neste mundo. Portanto, somos chamados a uma vocação especial que é a santidade (2ª leitura), pois somente assim, já antecipamos para este mundo tudo aquilo que é Deus e o céu. 

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Abertura do Ano Catequético nas Paróquias

No primeiro domingo da Quaresma, as paróquias de nossa Arquidiocese celebraram a Abertura do Ano Catequético, um momento especial de renovação e compromisso com a formação religiosa da comunidade. Este evento marca o início de um período de preparação espiritual que se estenderá ao longo do ano, envolvendo catequizandos, pais e catequistas em atividades de ensino e reflexão sobre a fé cristã.

As celebrações incluem missas, celebrações e encontros que visam motivar os catequizandos a aprofundarem seu conhecimento religioso. Este dia também serve como um convite para que as crianças e jovens se juntem ao processo de catequese, fortalecendo os laços comunitários e promovendo a vivência dos valores cristãos.

A Abertura do Ano Catequético é uma oportunidade para que todos se reúnam em oração e reflexão, renovando seus compromissos com a educação da fé e com a participação ativa na vida da Igreja. Vivenciando o Primeiro Ano Eucarístico Arquidiocesano, as paróquias se preparam para acolher a todos com braços abertos e corações cheios de esperança.

 

Fotos: Paróquias da Arquidiocese

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Informações apócrifas acolhidas pela Tradição

Translator

 

Enquanto os evangelhos canônicos (Marcos, Mateus, Lucas e João) reúnem os fundamentos teológicos que formam, em comunhão com a Tradição da Igreja e com o seu Sagrado Magistério, a ortodoxia da fé em Cristo, os evangelhos apócrifos são frutos da religiosidade popular que se desenvolveu nas comunidades cristãs primitivas. O conteúdo extraoficial presente em inúmeros desses escritos dos primeiros séculos sobre a vida e a missão de Jesus não se trata, necessariamente, de produções heréticas, elaboradas de forma intencional para induzir a erros doutrinários e morais aqueles que se convertiam ao cristianismo; pelo contrário, a grande maioria dos evangelhos apócrifos nasceu da santa e válida curiosidade existente entre o povo de se aproximar dos mistérios a respeito de Jesus. Apócrifo não é sinônimo de herético!

Como todo mistério comporta uma dimensão de escondimento, ou seja, revela-se mas não se deixa esgotar no coração e na razão de quem o acolhe, é atingido, porém jamais possuído, esse encobrimento é o aspecto que permite o desenvolvimento da imaginação e da criatividade do povo de Deus no desejo por acessar o próprio mistério. Nessa busca para mergulhar nos mistérios de Cristo, os primeiros cristãos registraram muitas histórias, reais ou fabulosas, contando sobre coisas que foram desconsideradas pelos evangelhos canônicos e que, embora não façam falta à missão salvífica do texto bíblico, colaboraram para a vivência da fé através do desenvolvimento de uma religiosidade popular ortodoxa; isto é, que não discorda das verdades que sustentam o credo cristão.

É bem verdade, no entanto, que essa ânsia por compreender e viver o mistério de Cristo conheceu exageros: no sincrético processo de elaboração das narrativas sobre a própria fé, muitas comunidades acabaram assimilando ideias filosóficas e religiosas que divergiram dos ensinamentos de Jesus, produzindo uma literatura apócrifa heterodoxa. Cercados pelo universo cultural grego-romano, persa, egípcio etc, grupos cristãos viram-se influenciados por correntes de pensamento, costumes morais e crenças pagãs que foram arbitrariamente incorporados por eles aos testemunhos orais e escritos sobre o mistério cristão. Tendo sido estabelecida essa importante ressalva a respeito do conteúdo propriamente herético presente nalguns textos apócrifos, é interessante notar como os evangelhos apócrifos, que concordam com a ortodoxia da fé, colaboraram com a Tradição da Igreja no desenvolvimento de alguns aspectos de sua experiência de fé.

Os evangelhos apócrifos são bem aproveitados quando ajudam a compreender melhor realidades históricas, culturais etc dos textos canônicos, uma vez que, não sendo divinamente inspirados, nunca possuem valor em si mesmo (a não ser enquanto literatura universal), tanto para o crescimento na fé quanto para o desenvolvimento da ciência bíblico-teológica. Dessa forma, a Tradição acolheu informações que contribuem para elucidar o mistério de Cristo e dos santos, em comunhão com Ele. Um exemplo muito interessante de evangelho apócrifo que serviu à Tradição nalgumas dimensões é o “Protoevangelho de Tiago”, escrito em grego na primeira metade do século II, provavelmente. Também chamado de “Evangelho da Infância” ou “Natividade de Maria”, o texto narra os eventos relativos ao nascimento, à infância e ao casamento de Maria, com o objetivo de enaltecer a santidade e a virgindade da mãe de Jesus, através de relatos que não aparecem nos textos canônicos.

Desse apócrifo, os cristãos recolheram informações relevantes, como: os nomes dos pais de Maria, Joaquim e Ana (cf. cap. 1 e 2), cuja memória litúrgica é celebrada em 26 de julho; o relato da apresentação de Maria no Templo de Jerusalém (cf. cap. 7), que deu origem à festa litúrgica do dia 21 de novembro; a imagem do bastão florido na iconografia de São José, como símbolo de sua eleição para esposo de Maria (cf. cap. 9); a cena de Maria sobre uma asna a caminho de Belém, onde nasceu Jesus (cf. cap. 18); a informação de que o parto de Jesus ocorreu numa gruta (cf. cap. 19); a crença na maternidade virginal de Maria (cf. cap. 20), que foi citada pelo concílio de Constantinopla, em 553, e proclamada enquanto dogma em 649, no Concílio de Latrão.

Ainda sobre a tenra idade de Jesus, o apócrifo “Evangelho Armênio da Infância”, escrito entre os séculos IV e VI, em siríaco, menciona os nomes e origens dos magos que visitaram e presentearam o Menino Deus. Tratam-se de três reis que eram irmãos e que foram até Belém acompanhados por doze mil homens, quatro mil com cada um deles: “Melquior, que reinava sobre os persas; Baltasar, que era rei dos indianos, e Gaspar, que dominava no país dos árabes” (cf. cap. 5), deram ao Salvador ouro, incenso e mirra, presentes que o primeiro Adão teria guardado numa caverna em vista do nascimento do novo e definitivo Adão. Outro exemplo é a devoção a São José como patrono da boa morte, que encontrou referências importantes noutro apócrifo, a “História de José, o carpinteiro”: segundo esse texto egípcio, redigido entre os séculos IV e VII, José morreu na companhia de Maria e de Jesus, que estava sentado à sua cabeceira, em oração, com as mãos sobre suas têmporas.

A respeito da paixão de Cristo, o “Evangelho de Nicodemos”, também conhecido como “Memórias de Pilatos”, datado entre os séculos III-V e escrito em grego, traz uma personagem que, inexistente nos textos canônicos, tornou-se um sinal de piedosa importância na oração da via-sacra. Trata-se de Berenice, que será chamada mais tarde de Verônica, uma mulher que durante o julgamento de Jesus por Pilatos testemunhou o seguinte: "encontrando-me doente com hemorragia, toquei a extremidade de seu manto e a hemorragia que eu vinha tendo por doze anos consecutivos, parou"; segundo a tradição, Verônica teria usado o manto com o qual fora curada para secar o rosto ensanguentado de Jesus na subida para o calvário. Além disso, o “Evangelho de Nicodemos”, graças à sua narrativa sobre a descida aos infernos, influenciou a crença a respeito da visita de Jesus à mansão dos mortos para salvar as almas dos justos da Primeira Aliança, que aguardavam a redenção que o Messias traria a Israel.

Quanto ao martírio de São Pedro, é o texto apócrifo “Atos de Pedro”, redigido no século II, em grego, que atesta sua crucifixão de cabeça para baixo no circo de Nero, entre 64 e 67 d.C.: condenado pelo rei Herodes Agripa I, Pedro teria pedido aos soldados que o crucificassem de ponta-cabeça por não considerar-se digno de morrer na mesma posição em que Jesus salvou a humanidade. Esses exemplos de apropriação de alguns dos conteúdos apócrifos pela Igreja mostra como os textos produzidos pela religiosidade popular, nos primeiros séculos, podem colaborar como complemento para a compreensão dos evangelhos canônicos. Portanto, uma leitura consciente e responsável da literatura apócrifa, especialmente dos livros que falam de Jesus e, em função Dele, de outros personagens, é importante e necessária. Conforme demonstrado através dos casos citados, há muito dos evangelhos apócrifos na Tradição da Igreja, colaborando para o aprofundamento da fé contida nos livros canônicos.

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#Reflexão: 1° Domingo da Quaresma (22 de fevereiro)

A Igreja celebra o 1° domingo da Quaresma, neste domingo (22). Reflita e reze com a sua liturgia.

Leituras:
1ª Leitura: Gn 2,7-9.3,1-7
Salmo: 50(51),3-4.5-6a.12-13.14.17 (R. cf. 3a)
2ª Leitura: Rm 5,12-19 ou mais breve 5,12.17-19
Evangelho: Mt 4,1-11

Acesse aqui as leituras.

TENTAÇÕES E LIBERDADE

Neste primeiro encontro dominical do tempo da Quaresma, nos deparamos com duas situações muito semelhantes que representam muito bem a nossa realidade humana: nossa liberdade e a nossa resposta em relação às tentações.

Conhecemos a história da criação do mundo, Deus, livremente cria o mundo e dá existência a tudo da melhor forma possível. Não cria um mundo para si, mas para o homem e a mulher. Diferentemente das demais coisas criadas, ouvimos na primeira leitura que Deus expressou toda sua proximidade e intimidade ao formar o ser humano. Tudo criado antes do homem, Deus o fez com um ato e usando somente sua palavra; mas, a criação do homem foi diferente: foi algo que se aproxima a um parto, onde o ser foi formado, gerado e por fim, nasceu para este mundo com um sopro. Desde o início, o projeto de Deus para com homem é de máxima proximidade, algo que nenhuma outra criatura possui. O homem Adão, não foi uma criatura (como as demais) que simplesmente passou a existir, mas foi gerado desde o início de uma forma única, pessoal e especial. O livro do Gênesis no capítulo 1º diz que Deus criou o homem e a mulher a “imagem e semelhança” Dele. Duas qualidades que distinguem o ser humano de todos os demais seres neste mundo. Com esta linguagem, a Bíblia expressa que temos muito em nós que nos liga e nos aproxima de Deus, mas seremos sempre sua “imagem”: necessitamos de Deus para existir! O mundo é o “espelho” e nós somos o reflexo de Deus na criação! Há algo em nós que é exclusivo e nos coloca em proximidade com Deus: nossa liberdade. E Deus nos fez “semelhantes” a Ele (em relação à liberdade) para que pudéssemos exercer o seu principal dom: Amar. Somente quem é livre é capaz de amar. O dom da liberdade não foi para que o homem e a mulher fizessem o que bem entendessem, mas que usassem para amar, pois somente o amor vivido no máximo de sua intensidade e liberdade, aproxima o ser humano (criatura) de Deus Criador. 

Neste mundo, mesmo sendo o Paraíso criado por Deus, era necessário ter um limite. Somente Deus possui liberdade plena e sem limites. Para vivermos e praticarmos o amor é necessário que respeitemos limites. No relato da criação são as duas árvores no centro da criação. Deus permitiu a Adão e a Eva de usufruírem de tudo, menos do fruto de duas árvores. Deus não lhes pediu tudo, mas o mínimo: não comer dos frutos da árvore do conhecimento e da árvore do bem e do mal. 

Mas, a Mal entrou na história. Sugerindo dúvidas e questionando as próprias palavras de Deus, a serpente convenceu que os dois poderiam ser “iguais” a Deus (não estavam satisfeitos em ser imagem e semelhança). O desejo de romper seus limites e tomar posse de coisas materiais para serem iguais a Deus, tornou os frutos daquelas duas árvores, mais apetitosos dentre todos os demais no Éden. A liberdade, se fosse vivida em sua intencionalidade principal (o amor) tornariam os dois cada vez mais próximos do Criador, mas eles queriam superar tudo e ser “iguais” a Deus. A serpente usou de mentiras para destruir a relação perfeita que havia entre Deus, Adão e Eva. O paraíso foi perdido. Eles imaginavam que iriam possuir tudo e se viram sem nada, rebaixados a realidade de miséria e “indigência” espiritual (notaram que estavam nus). 

No Paraíso, a serpente tentou Adão e Eva com o desejo de serem iguais a Deus. No Evangelho deste domingo, nos deparamos com Jesus que também sofre a ação do Mal expresso em toda sua realidade e nome. Jesus é Deus que se fez homem, por isso, as tentações são em relação às situações que iriam tornar Jesus um grande e famoso homem, mas – diferentemente de Adão e Eva – Ele não caiu na conversa do tentador. Então, baseado nesse fato, Paulo na segunda leitura, chama Jesus de “Novo Adão”: aquele que refaz e ensina o caminho para reconstruirmos nossa relação com Deus. O Diabo esperou o momento oportuno para agir. Jesus foi tentado, não quando estava em suas perfeitas forças e com todo o vigor inicial da oração, mas quando sentiu fome. O inimigo é inteligente e astuto como é da natureza dele. Ele propõe coisas razoáveis. Trocas proveitosas como do bom pão, fama e um novo governo sobre o mundo inteiro. Ele se apresenta como um amigo que quer ensinar Jesus a desempenhar melhor seu papel como Messias, pois Ele não o está fazendo bem.

O deserto é lugar da presença e do forte encontro com Deus, por isso, as tentações também são fortes. Jesus nos ensina a repensarmos nossas relações: com as coisas materiais deste mundo (pão); nossos desejos e anseios em relação aos nossos irmãos (jogar-se do templo) e nossa fé em relação ao nosso Deus (quem realmente nós servimos e adoramos). 

PÃO. O Mal propõe algo que, aparentemente, seria natural e compreensivo: matar a fome. Alguém poderia até argumentar que Jesus teria este direito, pois é necessário alimentar-se para sobreviver; ou ainda, “que mal teria feito Jesus se tivesse transformado uma simples pedra em pão (o deserto está cheio delas)?”. Foi o que fez a serpente com Eva quando “puxou conversa” e lhe fez uma pergunta, questionando as palavras do Criador. O mal, muitas vezes, pode se esconder em algo que é proposto como um direito, uma necessidade e até como uma obrigação (de se alimentar para viver). Jesus jamais fez algo em proveito próprio, nem mesmo um simples pão. Na realidade, Ele se transforma em pão para todos nós. Este é o pão verdadeiro que sai da “boca de Deus” e não do Diabo. Mas por que Jesus negou a proposta do Diabo? Apesar de estar com fome e ter poder para fazer o que Lhe foi proposto, Jesus recusou, pois a proposta não vinha de Deus, mas do tentador. Quantas vezes caímos em tentações, exatamente porque nos deixamos seduzir com algo que “aparentava” ser bom ou um “direito meu”, mas como não vem de Deus, nem sempre nos leva até Ele

FAMA. A segunda tentação do Diabo foi de convencer Jesus a usar o seu poder para se “autopromover”. O tentador se apresenta como alguém que quer ajudar a promover a missão messiânica de Jesus. O povo gostava e gosta de milagres e certamente, Ele iria atrair multidões com sinais espetaculares, bastaria Jesus se jogar do Templo (forçar um milagre), isto é, forçar Deus vir em seu socorro para promovê-Lo como Messias. Mas, Nosso Senhor nunca usou qualquer dom ou poder para ganhar qualquer prestígio ou receber benefícios. Sempre colocou seus dons a serviço das pessoas, principalmente, dos mais necessitados.  Portanto, os dons que não são colocados a serviço do próximo, acabam corroendo a própria pessoa, pois criam um falso fascínio e brilho que não se sustentam por muito tempo.

A primeira tentação foi de usar seu poder para proveito próprio, na segunda, o sedutor tenta Jesus de usar o poder de Deus em proveito próprio.  

PODER E GLÓRIA. É a terceira tentação. Mostrando “os reinos do mundo com suas glórias”, o tentador procurou seduzir Jesus para construir uma realidade que satisfizesse todos os prazeres terrenos. Mais uma vez, o Mal usou de mentira e prometeu aquilo que não pode dar, mas procurou fascinar Jesus com as riquezas deste mundo. O Mal propôs uma troca: os reinos e não a cruz; o domínio e as riquezas do mundo no lugar da pobreza e da simplicidade de vida. Tudo isso tinha o preço:  abandonar definitivamente Deus Pai. Mas, Jesus já tinha um Reino que vai muito além dos reinos que conhecemos. Seria trocar o eterno pelo fugaz e transitório como são todos os reinos que já conhecemos na história. Essa foi a tentação que Adão e Eva não conseguiram vencer. 

Em todas as tentações, o Mal usou até da própria Palavra de Deus para conseguir desvirtuar Jesus do Seu caminho. É a tentação com a Bíblia na mão. Em todas as situações, Jesus rebateu as tentações, usando também da Palavra de Deus, mas principalmente, não dando espaço para dúvidas. E a intimidade de Jesus com o Pai Lhe dava forças para sempre permanecer na confiança que Ele jamais O abandonaria. O tempo de oração e de deserto foi intenso e profundo de tal forma que nem a mais feroz ação e astúcia do Mal conseguiram destruir o projeto de Deus em Jesus Cristo. 

O amor ensinado por Jesus é livre, intenso e profundo, pois resgata a realidade original que foi perdida pelos nossos primeiros pais. Nosso Senhor nos ensinou que dentro de nós mesmos, já possuímos a forma de refazermos o projeto original criado por Deus que também reconstrói a nossa realidade conosco e com nossos irmãos e irmãs.

Nas tentações, o diabo procurou destruir a realidade de filiação de Jesus “se és filho de Deus...” para assim, se propor como novo guia e referencial em sua vida. Que jamais nos esqueçamos, que também somos filhos e filhas de Deus!

O tempo da Quaresma é um momento especial em cada um e é chamado a rever sua relação com Deus, com o próximo e consigo mesmo, pois somente quando estamos seguros do Amor de Deus e da sua presença em nossa vida, nada neste mundo se mostrará mais necessário (pão), mais importante (pular do templo) e fascinante (reinos deste mundo) do que o próprio Amor Deus por nós.

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#Reflexão: 6º domingo do Tempo Comum (15 de fevereiro)

A Igreja celebra o 6º domingo do tempo comum neste domingo (15). Reflita e reze com a sua liturgia.

Leituras:
1ª Leitura: Eclo 15,16-21
Salmo: 18(119),1-2.4-5.17-18.33-34 (R. 1)
2ª Leitura: 1Cor 2,6-10
Evangelho: Mt 5,17-37 ou mais breve 5,20-22a.27-28.33-34a.37

Acesse aqui as leituras.

JESUS É A PLENITUDE DA LEI

Em qualquer religião, é frequente a discussão sobre a liberdade humana: Deus e a religião ajudam ou limitam a liberdade de uma pessoa? A primeira leitura e o Evangelho deste domingo nos ajudam a entender essa relação preciosa entre a fé e a nossa liberdade.

Na 1ª leitura, o autor do livro do Eclesiástico afirma que guardar os Mandamentos não “rouba” nada de alguém, pelo contrário, favorece a nossa proteção. Os Mandamentos de Deus não atrapalham a vida das pessoas, mas ajudam a bem escolher aquilo que realmente traz vida e sentido a nossa existência, eles são um bem e não um mal para todos nós!

No entanto, tudo tende a se tornar verdadeiramente eficaz quando é assumido e aceito como parte de sua vida. O autor propõe dois elementos fundamentais para explicar sua afirmação: o fogo e a água. Ambos usados de forma adequada favorecem a vida ou produzem a morte. Tudo está diante de cada pessoa e cabe a cada um escolher (“estender a mão”) e colocar em prática. Ninguém é obrigado, mas não tem como não deixar de escolher. Mas, não basta simplesmente optar, é necessário saber como usar e colocar em prática, pois certas escolhas podem produzir vida, e outras, a morte; algumas o bem e outras o mal. Nesta relação crucial para nossa vida, os Mandamentos sempre nos conduzirão e nos guiarão pela estrada do bem e da vida. Eles não são um bem em si, mas nos conduzem pelo caminho daquilo que é seguro e correto para a nossa vida! 

No Evangelho de Mateus, neste domingo, temos três Mandamentos que Jesus quis explicar para ilustrar como Ele vê todos os Preceitos de Deus e o Matrimônio. Jesus toca em três grandes males que atingem toda sociedade e as famílias: a violência, o desejo desenfreado e a mentira. Males que corroem qualquer relação humana e também nossas famílias. Inicialmente, Jesus afirma que não veio abolir os Mandamentos mas, levá-los à perfeição. É visível que Jesus após certo tempo de ensinamento a seus discípulos e ao povo, muitos começaram a achar que Ele se situava entre dois extremos que até os dias de hoje são usados para falar de uma pessoa religiosa: alguns O viam como “libertino” (“Tudo é permitido”) outros como “radical” (“nada serve do que existe e apresenta tudo novo”). Tantos os liberais como os ortodoxos (observantes radicais das Leis) tinham perdido o verdadeiro, o fundamental valor e o sentido de tudo o que acreditavam.

Jesus critica não só os “relaxados” na fé, mas também aqueles que consideravam “zelosos” observadores dos Mandamentos de Deus. Jesus chama de “justiça dos escribas e fariseus” o modo como ensinavam e viviam os preceitos principais da fé judaica; eles colocavam tudo, praticamente no mesmo nível: tudo é importante! Mas, por outro lado, eles procuravam falhas nas Leis para continuarem realizando aquilo que não era da vontade de Deus. Eles observavam as Leis, mas cada um do seu jeito e isso Jesus condenava claramente, pois não praticavam o essencial dos Mandamentos e pior: ensinavam os mais simples (Jesus chama de “pequenos”) a fazerem o mesmo. Eram “religiosos de fachada” onde a religião era usada até para justificar os erros e pecados das pessoas.

Para Jesus, o essencial de qualquer preceito e Mandamento deve brotar do coração da pessoa. A verdadeira religião de Jesus nasce no interior de cada um. É no coração do homem e da mulher que tudo já é determinado como certo ou errado. O verdadeiro sentido de cada Mandamento deve ser vivido e praticado a partir das escolhas e do uso da liberdade que nasce dentro de cada fiel. E Jesus explica tudo isso a partir de alguns Mandamentos (esse domingo, nós temos três deles).

O Mandamento “não matarás! parecia tão claro para todos, mas Jesus amplia e aprofunda a questão. Para os verdadeiros filhos e filhas de Deus, a forma correta de viver este preceito é evitar qualquer coisa ruim contrária ao próximo, desde os mais simples sentimentos, pensamentos e até palavras maldosas contra a outra pessoa. Para Jesus, pode-se matar alguém no coração e na mente. Para os seguidores do “Mandamento Novo” ensinado por Jesus, nada de ruim deve estar no coração dos seus seguidores, principalmente contra outra pessoa. Para Nosso Senhor, mesmo que alguém tenha realizado algo de muito ruim, nada pode desfigurar a sua situação de filho e filha de Deus que somos e, por isto, todos sempre seremos irmãos e irmãs uns dos outros. Enquanto caminhamos neste mundo, devemos sempre procurar o caminho da reconciliação e do perdão mútuo, pois um dia deveremos prestar contas de nossas escolhas e de nossos desejos bons ou ruins de nossas vidas.

Sobre o “adultério”, Jesus também afirma que tudo de errado pode acontecer na vida de uma pessoa casada, quando não controla os seus pensamentos e desejos. O problema não é “olhar para outra pessoa”, mas “olhar com cobiça”. Para Jesus, tal olhar já é um adultério, isto é, “estraga” a outra pessoa, “adultera” as relações entre as pessoas e as transforma em simples objetos. Cobiçar o outro como se fosse um mero objeto é transformar o compromisso do Matrimônio em algo sem valor. Para evitar corromper as relações entre as pessoas com um olhar de cobiça, Jesus convida à radicalidade: evitar a qualquer custo tudo que arraste a pessoa a destruir o próximo. Se alguém deseja aplicar a Jesus o título de “radical”, aqui temos um exemplo: Ele é profundamente radical a qualquer coisa que corrompa (que “adultera”) a pessoa em sua imagem fundamental de filhos e filhas de Deus, bem como a tudo que nos arrasta para o pecado. 

Ainda no tema do Matrimônio, Jesus esclarece que Ele não é um liberal, mas reclama o sentido profundo da união entre o homem e a mulher. Naquele tempo como nos dias atuais, as pessoas não se empenhavam o suficiente para viver o Matrimônio como uma realidade fundamental para ambos. No dia em que se casam, o casal transforma-se em uma “só carne”; uma única pessoa nasce após o Matrimônio e por isto, fazer mal a outra parte é como machucar a si próprio. Tirando as situações de uniões ilícitas, o Matrimônio será sempre uma união selada perante Deus, muito mais do que documentos e papéis. Novamente, Jesus esclarece que abandonar alguém que ainda perdura o vínculo matrimonial e se unir a outra pessoa, isto é colocado por Jesus no mesmo nível que um adultério, conforme Ele próprio afirmou anteriormente.

Por fim, a importância da seriedade com a nossa palavra (sobre a mentira). Jurar é emprestar algo ou alguém para reforçar e apoiar uma promessa, ou algo que alguém afirma. Se a pessoa é séria e sua palavra é sempre sincera não há necessidade de apelar a nada, nem mesmo a Deus ou qualquer lugar importante. Seus atos já devem ser, por si só, confiáveis e não necessitará jamais de qualquer juramento. Quem costuma jurar, já é um sinal que suas palavras não bastam para sustentar algo que almeja dizer.

Como o amor é um sentimento que nasce em nosso coração e deve ser colocado em prática, vimos que o ódio e o mal também têm suas origens dentro de cada um, mesmo que a pessoa não consiga realizar, matar o próximo, é desconsiderá-lo como pessoa (como coisa) que não tem valor. O mesmo, em relação a “mulher do próximo”: ver e desejar como objeto, é não respeitá-la como pessoa. 

Que o nosso “sim”, realmente seja sempre uma afirmação sem qualquer mancha de dúvida, como também o nosso “não” seja sempre sincero e verdadeiro. Quando se procura ter uma vida em sintonia com os ensinamentos de Deus e se realmente acredita que Ele tudo sabe e conhece, a pessoa não terá muita dificuldade de viver sempre na verdade, pois a mentira é algo que arrasta a viver sempre se escondendo e negando os fatos, tal sujeito pode passar a vida toda vivendo uma realidade que não é verdadeira, mas jamais a esconderá de Deus. Pois Ele não somente nos dá a sabedoria de que necessitamos para bem realizar as coisas (conforme a 2a leitura), mas também está pronto a nos ajudar a percorrer o caminho do bem e da verdade, pois estes princípios são fundamentais para a nossa vida e existência neste mundo. Basta escolhermos o caminho do bem e vivermos, em  nosso coração, o Mandamento do Amor que é o próprio Senhor Jesus!

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